Enquanto alguns apoiadores da família Bolsonaro pularam do barco logo após o Intercept Brasil revelar, na quarta-feira (13), uma troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, outros foram às redes para defender o senador. Em muitos casos, as justificativas foram baseadas em informações distorcidas.
Nas conversas reveladas, o senador cobra parte dos R$ 134 milhões prometidos por Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Para desacreditar a denúncia, parlamentares e influenciadores alegam que a negociação teria sido feita antes de Vorcaro se tornar alvo de investigações — o que não é verdade — e que a produtora do filme negou ter recebido os pagamentos — ignorando outras informações que atestariam os repasses.
O próprio Flávio confirmou ter pedido o dinheiro, mas negou irregularidades. No vídeo, ele afirmou ainda que defende a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Banco Master, argumento que tem usado de forma nos últimos meses para tentar se desvincular do caso.
Aos Fatos reuniu as quatro principais linhas de argumentação que têm sido compartilhadas por bolsonaristas para defender o senador e explica o que há de errado em cada uma delas:
- ‘O PT não quer abrir a CPI do Master’;
- ‘Flávio não sabia das irregularidades de Vorcaro’;
- ‘Filmes de Lula e Temer também receberam dinheiro de Vorcaro’;
- ‘A produtora do filme nega ter recebido dinheiro’.
‘O PT não quer a CPI do Master’
Um argumento usado por Flávio no vídeo de quarta-feira (13) é o de que ele defende a abertura de uma CPI para investigar o Banco Master, diferentemente do PT, que teria se recusado a assinar o requerimento de instalação da comissão.

A alegação omite que não há apenas um pedido de CPI tramitando no Congresso. Ao todo, foram apresentados quatro requerimentos:
- O senador Eduardo Girão (Novo-CE) protocolou o primeiro pedido em 29 de novembro de 2025. Paulo Paim (PT-RS) foi o único petista na Casa a assinar este requerimento;
- Em 2 de fevereiro, o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) protocolou outro pedido, que teve 42 assinaturas do PT;
- Um dia depois, o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) apresentou outro requerimento, que foi assinado por apenas um petista: o senador Fabiano Contarato (PT-ES);
- Por fim, em 30 de abril, as deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) protocolaram o último pedido. Aos Fatos não localizou a lista de assinaturas desta requisição.
É incorreto afirmar, portanto, que o PT é contra a CPI do Banco Master. Segundo relatos veiculados na imprensa, os governistas são favoráveis à abertura de uma investigação no Congresso, mas não assinaram os pedidos da oposição porque avaliaram que eles tinham como objetivo investigar apenas ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), e não o caso Master como um todo.

O PT, inclusive, tem pressionado pela abertura da CPI após a investigação revelar possíveis ligações entre Vorcaro e o senador e ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro Ciro Nogueira (PP-PI) — e, agora, a suposta relação entre o banqueiro e Flávio.
Após a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF, a imprensa também divulgou que bolsonaristas fizeram um acordo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para recuar na tentativa de instalar a CPI. Flávio nega que isso tenha acontecido.
‘Flávio não sabia das irregularidades de Vorcaro’
Outra justificativa usada por parte da ala bolsonarista para defender Flávio é que Vorcaro ainda não era investigado quando o senador pediu o financiamento para a cinebiografia do pai.

Esse argumento distorce a linha temporal apresentada pelas mensagens divulgadas pelo Intercept Brasil:
- De acordo com o veículo, as conversas começaram em dezembro de 2024, quando Vorcaro ainda não estava sendo investigado, mas o Banco Master já estava na mira do BC (Banco Central);
- A PF entrou na investigação em julho de 2025, quando o BC notificou o MPF (Ministério Público Federal) sobre indícios de crimes financeiros do Master;
- A conversa aconteceu até 16 de novembro. Na última mensagem, Flávio disse: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”;
- Um dia depois, Vorcaro foi preso ao tentar fugir do Brasil.
Os bolsonaristas também ignoram que Vorcaro já tinha um histórico de crimes financeiros antes do início das conversas com Flávio. Uma reportagem de 2024 da piauí aponta que ele foi alvo da Operação Fundo Fake por suspeita de aplicar golpes em institutos de pensão e que foi condenado por manipular preços na Bolsa de Valores.
As publicações ignoram também que o próprio Flávio, em áudio enviado a Vorcaro em setembro de 2025, disse que sabia que o banqueiro estava “passando por um momento dificílimo”. Dias antes, o Banco Central havia reprovado a venda do Master para o BRB.
A declaração de que não havia “dinheiro público” envolvido, feita por Flávio no vídeo de quarta (13), também é questionável, já que o Master é acusado de desviar dinheiro de fundos de previdência públicos.

‘Filmes de Lula e Temer também receberam dinheiro de Vorcaro’
A principal estratégia de defesa bolsonarista nas redes tem sido compartilhar o título de uma nota da coluna do jornalista Lauro Jardim, em O Globo, que diz: “Vorcaro também financiou filmes sobre Lula e Temer”.
O texto afirma que aliados do banqueiro relataram que ele havia financiado dois documentários — “963 dias”, de Bruno Barreto (2026, ainda inédito), e “Lula, um Documentário”, de Oliver Stone (2024).


A situação, no entanto, é completamente diferente da relatada pelo Intercept Brasil no caso de Flávio: não há indícios de que Lula ou Temer tenham solicitado financiamento ao banqueiro. Os dois, inclusive, negaram à coluna ter pedido dinheiro a Vorcaro.
Na noite de quinta-feira (14), Oliver Stone, diretor do documentário sobre Lula, disse que nem o Master nem fundos ou empresas ligados a Vorcaro financiaram o documentário. A equipe disse que irá tomar medidas legais contra quem compartilhar a informação incorreta.
Flávio, por outro lado, foi gravado cobrando o banqueiro pelo dinheiro acordado: “E apesar de você ter dado liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim, é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui”.
O texto do colunista também não cita as cifras relacionadas aos financiamentos do empresário aos documentários sobre Lula e Temer.
‘A produtora do filme nega ter recebido o dinheiro’
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) também defendeu o irmão nas redes alegando que a nota da produtora do filme, a GOUP Entertainment, esclareceria o caso. Alguns bolsonaristas foram além e disseram até que o comunicado “desmentiria” a acusação de que o filme teria recebido dinheiro de Vorcaro.


Segundo a produtora, o longa não recebeu “um centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro”. Isso, no entanto, não desmente a reportagem.
Textos publicados pela imprensa citam três cifras diferentes:
- R$ 134 milhões, valor que teria sido acordado entre Flávio e Vorcaro para o financiamento do filme;
- R$ 61 milhões, cifra que teria sido aportada pelo banqueiro entre fevereiro e maio de 2025;
- E R$ 2,3 milhões, que teriam sido efetivamente pagos à empresa que financiaria o filme.
Na reportagem, o Intercept Brasil explica que os pagamentos não foram feitos diretamente por Vorcaro à produtora do filme, mas transferidos pela intermediária Ente Investimentos e Participações, ligada ao banqueiro, para um fundo no Texas controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Em coluna publicada no jornal O Globo, Malu Gaspar confirmou que o Master repassou R$ 2,3 milhões para a Ente Investimentos, que teria financiado o filme. Os dados constam no material entregue pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado.
Um dos mediadores das negociações confirmou à jornalista que os R$ 61 milhões foram aportados por Vorcaro, mas que depois disso os pagamentos foram suspensos em razão da crise no Master.
Outro Lado
Procurado pelo Aos Fatos, o deputado federal Mario Frias afirmou que o banco Master nunca figurou como empresa investidora no filme "Dark Horse" e que todo relacionamento jurídico foi firmado com a Ente. O parlamentar disse ainda que Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro não tem sociedade no filme. Frias não comentou a citação feita na reportagem (veja aqui a íntegra).
Já influenciadora Bárbara Destefani disse que apenas “mencionou o fato público” de que Vorcaro financiou os documentários de Lula e Temer, “de modo a demonstrar que essa prática era aplicada por Vorcaro a diferentes vertentes políticas” (veja aqui a íntegra). Como explicado acima, a alegação ignora os contextos diferentes, pois Flávio aparece de fato pedindo dinheiro para Vorcaro.
Aos Fatos também entrou em contato com Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e os outros nomes citados no texto para abrir espaço para comentários, mas não houve resposta até esta publicação.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou as redes da família Bolsonaro e de deputados, senadores e influenciadores bolsonaristas para reunir os principais argumentos que têm sido compartilhados para defender Flávio das acusações. Contextualizamos os quatro argumentos distorcidos com base em reportagens da imprensa e dados do Congresso Nacional.
Também entramos em contato com todos os parlamentares e influenciadores citados na reportagem, mas, até a publicação da reportagem, apenas Bárbara Destefani respondeu.
Esta reportagem foi atualizada às 13h20 do dia 15.mai.2025 para acrescentar o posicionamento do diretor do documentário de Lula.





