O quinto e último episódio de Ctrl+Fake, lançado nesta quinta-feira (21), encerra um projeto ambicioso, que buscava organizar, de modo didático e informativo, o repertório acumulado pelo Aos Fatos ao longo de uma década cobrindo desinformação. Nesse período, vimos como as mentiras em rede deixaram de ser percebidas como efeito colateral da promessa de democratização das comunicações e passaram a ser peça central de disputas de poder econômico e geopolítico. Nos episódios anteriores, mostramos como campanhas coordenadas de desinformação ajudam a corroer instituições democráticas, a mobilizar radicalismos e a transformar plataformas digitais em instrumentos de propaganda extremista. Neste último capítulo, olhamos para a etapa seguinte desse processo: quando a disputa pela circulação da informação se mistura, de forma explícita, aos interesses das big techs e dos Estados nacionais.
Diferentemente das repercussões do escândalo da Cambridge Analytica, como contamos nos dois primeiros episódios, agora já não se trata mais de empresas tentando evitar desgaste reputacional ou reagindo a pressões regulatórias. Há, na verdade, uma aliança mais aberta entre líderes políticos autoritários e conglomerados de tecnologia que entenderam que defender uma ideia maximalista de “liberdade de expressão” – ou mesmo capturar essa expressão para subvertê-la – pode ser um caminho eficiente para reduzir restrições aos seus modelos de negócio.
No entanto, cada empresa adota estratégias distintas para fazer valer sua agenda antirregulação. Se o X de Elon Musk e a Meta de Mark Zuckerberg se valem de publicações agressivas e estigmatizantes nas redes sociais ao decretar que vale tudo – racismo, LGBTQfobia, xenofobia e ódio aos jornalistas e fact-checkers online – contra seus próprios usuários, há serpentes que mudam de pele a depender do continente em que operam. Vale prestar atenção às duas posições públicas do Google sobre a Lei de Serviços Digitais da União Europeia, o DSA. Em agosto de 2025, em relatório encaminhado à União Europeia, a empresa elogiou a legislação e afirmou apoiar seus objetivos de transparência e segurança. Menos de um mês depois, em depoimento ao Congresso americano, classificou a mesma lei como ameaça à liberdade de expressão. A mudança não é exatamente uma contradição; ela ajuda a entender como essas empresas calibram seus argumentos conforme o ambiente político e regulatório em que atuam.
Também era importante mostrar que essa disputa deixou de estar restrita às redes sociais. Ao longo do episódio, a regulação digital aparece conectada a temas como o comércio internacional, a soberania tecnológica, a inteligência artificial e a exploração de terras raras. O caso do tarifaço americano contra o Brasil talvez seja o exemplo mais evidente disso. O conflito começou revestido de uma retórica sobre censura e perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e apoiadores da intentona do 8 de Janeiro, mas, aos poucos, revelou-se muito mais ligado à proteção econômica das empresas de tecnologia americanas e à disputa global por infraestrutura e influência, tendo o Brasil como pretexto.
A verdade é que nunca se falou tanto sobre os impactos das plataformas digitais. Há um grande backlash contra a adoção de ferramentas de inteligência artificial e a concentração dos meios de distribuição de informação, e, ainda assim, avançamos pouco em soluções concretas para os principais problemas causados por essas tecnologias. O episódio mostra que isso não acontece apenas no Brasil. A dificuldade de regular empresas que concentram infraestrutura de comunicação, entretenimento, publicidade, pagamentos, informação e inteligência artificial é um desafio global. E talvez uma das consequências mais importantes desse impasse seja a normalização gradual de práticas que antes pareciam excepcionais — da desinformação sistemática como propaganda política ao uso das plataformas para pressionar governos, interferir em eleições e influenciar a legislação.
Foi difícil definir como terminaria Ctrl+Fake, porque estamos no meio da dissolução do multilateralismo global e ainda não sabemos se o arsenal tecnológico de guerra de que fazem parte algumas dessas plataformas será um projeto vitorioso. Não há planeta infinito, tampouco verdades sem fim, de modo que os poucos homens que tomam decisões em escala global ainda precisarão dos fatos para confirmar, por exemplo, se um data center vai permanecer de pé durante uma ofensiva bélica onde há tudo, menos informação confiável. Aos Fatos encerra a celebração de seus dez anos e sua primeira série documental com um sentimento crônico de dúvida sobre o futuro — um exercício de humildade em época de certezas absolutas.
Agora em áudio: os quatro primeiros episódios de Ctrl+Fake estão disponíveis em formato de podcast nas principais plataformas do gênero, como Spotify, Deezer, Apple Podcasts e Amazon Music. Comece a ouvir agora.





