É falso que um vídeo mostre uma “fazenda de robôs” para engajamento político pertencente a Fernando Cerimedo, publicitário argentino que trabalhou para Jair Bolsonaro e Javier Milei e que foi preso neste mês na Bolívia. O registro original foi feito por uma empresa do Vietnã em maio de 2025. A atribuição enganosa a Cerimedo ganhou tração após o registro ser veiculado dessa maneira em uma emissora da Argentina.
Posts enganosos reuniam ao menos 16 mil interações no Instagram e no X na tarde desta quarta-feira (26).
Urgente!!! Essa é a fazenda de robôs de Cerimedo, e após a sua apreensão, o engajamento do Flávio Bolsonaro caiu PELA METADE!! O Milei teve queda de 90%!!! Daí vinha o engajamento da extrema-direita

Não é verdade que um vídeo mostre uma “fazenda de robôs” de engajamento de Fernando Cerimedo. As imagens exibem inúmeros celulares conectados a fios e organizados em estandes. No entanto, o registro foi publicado em 13 de maio de 2025 por uma empresa do Vietnã e foi compartilhado de maneira descontextualizada por um canal de televisão argentino em 23 de agosto deste ano. A emissora reconheceu o erro posteriormente.
Por meio de busca reversa, Aos Fatos conseguiu chegar até uma postagem no TikTok de um perfil do Vietnã. A gravação foi feita pela Best Moon, empresa dedicada à venda de sistemas e plataformas que utilizam múltiplos celulares para automatizar tarefas. Na descrição do perfil, consta um número de telefone do Vietnã.
No último dia 22 de agosto, o canal de televisão argentino TN mostrou o mesmo vídeo durante o programa El Corresponsal. Na legenda foi colocada a seguinte frase: “Isso é o que foi encontrado em uma casa que seria de Cerimedo”.
Durante a exibição das imagens, um dos apresentadores diz: “Esta era a fazenda, a fábrica de trolls e bots que Cerimedo tinha em um dos locais invadidos, que o sistema judiciário entende que lhe pertencia, que era sua propriedade.” O outro apresentador então questiona se a propriedade era ou estava sendo alugada por Cerimedo e o colega responde:
“Não está claro se é uma propriedade em nome deles ou, basicamente, um local, um centro de operações. Mas é assim, para aqueles que talvez nunca tenham visto, que esses centros funcionam: de onde as mensagens de bots são controladas e transmitidas, de onde algumas pessoas se conectam a transmissões ao vivo para aumentar a audiência e de onde os debates são gerados nas redes sociais”, diz o apresentador.
Para o Chequeado, a produção do programa El Corresponsal disse que a inclusão do vídeo foi um erro. O canal disse que, para a reportagem, foi utilizado um registro publicado por um veículo de comunicação boliviano, que não esclareceu que as imagens eram genéricas e não haviam sido feitas durante a operação policial que prendeu Cerimedo.
O publicitário foi preso em 18 de agosto na Bolívia e, de fato, foi encontrado algo que foi atribuído pela empresa como uma mini “fazenda de bots” em uma propriedade do publicitário. No entanto, os advogados de Cerimedo disseram que os equipamentos eram telefones via satélite e modens, e não robôs. Além disso, Aos Fatos não encontrou imagens da “fazenda de bots” localizada na propriedade.
Cerimedo foi preso acusado de ser o autor intelectual de uma tentativa de homicídio contra sua ex-companheira, Nadia Beller.
As postagens desinformativas alegam ainda que a prisão de Cerimedo provocou queda drástica no engajamento de perfis de Flávio Bolsonaro e Javier Milei teriam caído drasticamente. No entanto, Aos Fatos não localizou nenhum levantamento que demonstrasse uma redução nas métricas de engajamento dos dois políticos.
Esse conteúdo também foi checado por Chequeado, BoliviaVerifica e ReChequeado.
O caminho da apuração
Por meio de busca reversa, Aos Fatos encontrou vídeos idênticos aos utilizados nas peças de desinformação que foram publicados há mais de um ano, sem ligação com Cerimedo.
A reportagem identificou que o mesmo vídeo foi veiculado por uma televisão argentina e o associando a Cerimedo. Após a publicação, o canal se retratou. Aos Fatos também buscou notícias internacionais e dados sobre uma possível diminuição do engajamento de Flávio Bolsonaro e Javier Milei.





