Farmacêutica japonesa não comprovou eficácia da ivermectina contra Covid-19 em humanos

Por Luiz Fernando Menezes

8 de fevereiro de 2022, 13h08

Não é verdade que a farmacêutica japonesa Kowa atestou que a ivermectina tem ação antiviral em humanos contaminados com a variante ômicron do novo coronavírus, como alegam publicações nas redes sociais (veja aqui). A empresa observou eficácia do antiparasitário apenas em estudos em laboratório. Os testes clínicos em voluntários ainda não foram iniciados. Até o momento, não há evidência de que o medicamento seja eficaz para prevenir ou tratar a Covid-19.

Esta informação falsa foi originada de um erro em uma reportagem da agência Reuters, posteriormente corrigido. Porém, a alegação incorreta ainda circula em Twitter, Instagram e Facebook. Nessa última, publicações do tipo acumulavam ao menos mil compartilhamentos nesta terça-feira (8).


Selo falso

A farmacêutica japonesa Kowa anunciou nesta segunda-feira (31) que o medicamento antiparasitário ivermectina foi considerado eficaz no tratamento da variante Omicron do COVID-19 em um estudo de Fase III.

A farmacêutica Kowa não comprovou a eficácia da ivermectina contra a ômicron em estudos de fase 3. O comunicado da empresa japonesa em 31 de janeiro (em japonês) afirma que estudos pré-clínicos indicaram ação antiviral do remédio. Tal conclusão não permite atestar que o antiparasitário é eficaz para tratar alguém com Covid-19.

Após a confirmação de resultados nos testes in vitro (em laboratório), os pesquisadores devem iniciar um estudo clínico com voluntários para comparar os efeitos do uso do medicamento em relação ao tratamento padrão.

Normalmente, essa etapa costuma ser dividida em três fases. Mas, como a ivermectina é um medicamento que já é usado no tratamento de outras doenças, pode pular as fases 1 e 2, que avaliam a segurança e a dosagem do fármaco, conforme explicou a farmacêutica e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) Laura de Freitas ao Aos Fatos.

A Kowa iniciou um estudo clínico de fase 3 com a ivermectina para casos leves da Covid-19, mas ainda está na etapa de recrutamento de voluntários.

Esta informação falsa ganhou força nas redes sociais após um erro em uma reportagem da Reuters de 31 de janeiro, que noticiava que o resultado do estudo in vitro seria, na realidade, da fase 3 com voluntários. A informação foi corrigida horas depois pela agência, mas não bastou para cessar a circulação de conteúdos com a alegação falsa.

Evidências. Um medicamento só pode ser considerado eficaz contra uma doença após ser validado por meio de estudos que seguem métodos científicos rígidos. Uma droga que apresenta atividade antiviral em células in vitro não necessariamente demonstra eficácia quando testada em animais e humanos. Até o momento, os estudos concluídos são insuficientes para sustentar evidências de que a ivermectina atue contra a Covid-19.

Em julho de 2021, uma metanálise (compilação de resultados de pesquisas) da Cochrane, entidade especializada em revisões sistemáticas, avaliou 14 estudos randomizados publicados e disse que as conclusões não sustentavam a eficácia e segurança da ivermectina contra Covid-19, pois as pesquisas eram pequenas e poucas tinham qualidade. Outra metanálise publicada na Clinical Infectious Diseases chegou à mesma conclusão.

Um artigo de revisão publicado em dezembro de 2021 pela Nature avaliou a literatura disponível sobre ivermectina de janeiro de 2008 a setembro do ano passado, o que incluiu estudos antigos que já investigavam o potencial antiviral da droga em outras doenças, como zika e chikungunya. A conclusão foi a de que, embora propriedades antivirais da ivermectina tenham sido relatadas, ainda não está claro se alguma dessas ações seria capaz de prevenir ou tratar a Covid-19.

Por fim, um documento publicado em 11 de janeiro pela Opas (Organização Panamericana de Saúde), representante da OMS (Organização Mundial da Saúde) na América Latina, também indicou a necessidade de mais pesquisas. O antiparasitário possui, ao todo, 48 ensaios clínicos em andamento no mundo hoje.

No Brasil, a ivermectina é autorizada para tratar verminoses e infestação de ácaro, piolho e outros insetos. O seu mecanismo de ação nesses casos consiste em ampliar a permeabilidade das membranas celulares dos parasitas, o que os leva a paralisia e morte.

Essa peça de desinformação também circulou nos EUA, onde foi desmentida pelo Health Feedback e pelo FactCheck.org.

Referências:

1. Kowa
2. Inca
3. Clinical Trials (1 e 2)
4. Twitter (@Reuters)
5. Aos Fatos
6. Cochrane
7. Clinical Infectious Diseases
8. Nature
9. Paho
10. Anvisa
11. Drugs.com


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