É mentira que yanomamis com desnutrição grave sejam refugiados venezuelanos

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Não é verdade que os indígenas yanomami em estado de desnutrição grave que tiveram suas imagens divulgadas pela imprensa na última semana são venezuelanos que vieram ao Brasil em busca de socorro. A tese, compartilhada para isentar de culpa o governo de Jair Bolsonaro (PL), foi negada pelo Ministério da Saúde. A crise humanitária ocorre em território brasileiro e tem sido denunciada há anos, desde que o garimpo ilegal e as invasões de terras aumentaram na região onde vivem esses povos, localizada entre os estados de Roraima e Amazonas, na divisa entre Brasil e Venezuela.

Posts com a falsa alegação circulam principalmente no Instagram, plataforma em que acumulam ao menos 26 mil curtidas, e no Facebook, onde já foram compartilhados mais de 10 mil vezes.


Selo falso

A narrativa dos Yanomami famintos é uma das coisas mais demoníacas que a quadrilha criou recentemente… Usar pobres índios venezuelanos subnutridos, que já perderam a força para toda e qualquer coisa, para atacar o governo Bolsonaro, é descer o mais baixo na escala de um ser humano.

Após a divulgação de que yanomamis estão sofrendo com desnutrição e doenças, apesar de alertas enviados ao governo federal, publicações nas redes sociais saíram em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro para dizer que os indígenas seriam oriundos da Venezuela e vieram ao Brasil em busca de ajuda. Em nota enviada ao Aos Fatos, o Ministério da Saúde afirmou ser “falsa a informação de que os indígenas encontrados em estado grave de saúde no território Yanomami não são brasileiros”.

O território compreende uma região situada ao norte dos estados de Roraima e Amazonas, na fronteira entre Brasil e Venezuela. Não há qualquer registro, contudo, de que houvesse refugiados venezuelanos entre as pessoas desassistidas, seja em nota oficial do Ministério da Saúde, do Ministério dos Povos Indígenas ou do Ministério da Casa Civil, que coordena o Comitê para Enfrentamento à Desassistência Sanitária dos Yanomami. Na verdade, consta que equipes médicas realizaram uma missão entre as regiões de Surucucu e Xitei, localizadas no Brasil.

Relatos publicados na imprensa também mostram que a crise humanitária atinge territórios em solo brasileiro. O site jornalístico Sumaúma, por exemplo, divulgou, no dia 20 de janeiro, que a região de Auaris (no extremo norte de Roraima) sofre com o garimpo e com a malária e registrou a morte de seis crianças em 2022 por causas evitáveis. A reportagem ainda fala da situação de emergência nas regiões de Xitei e Homoxi, todas situadas no Brasil.

A reportagem do Sumaúma ainda traz fotos que mostram o estado de desnutrição dos indígenas yanomami. São imagens feitas “por indígenas e profissionais de saúde que conseguiram vencer a barreira do garimpo criminoso e alcançaram a Terra Indígena Yanomami nos últimos meses”. A assessoria do ISA (Instituto Socioambiental), em contato com o Aos Fatos, confirma que as imagens foram feitas em solo brasileiro.

A BBC Brasil publicou, no último domingo (22), um relato de um médico da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) que esteve na terra yanomami por uma semana e ficou sediado no pólo-base Sururucu, que fica situado em território brasileiro (veja abaixo).


Localização. Áreas em situação de crise sanitária estão localizadas no lado brasileiro da terra Yanomami, delimitada em vermelho no mapa.

Uma das indígenas em estado de desnutrição que foi fotografada, inclusive, morreu no último domingo (22). Segundo o G1, a idosa, de 65 anos, morava na comunidade Kataroa, que fica localizada em Surucucu.

Segundo o ISA (Instituto Socioambiental), em 2011, estimava-se que 19 mil indígenas yanomami moravam em 228 comunidades brasileiras, e 15 mil em terras venezuelanas. A crise humanitária não é exclusividade do lado brasileiro — de acordo com a Human Rights Watch, os povos sofrem com a violência de garimpeiros ilegais na Venezuela há anos.

Histórico. As denúncias de violações à saúde dos indígenas que levaram o Ministério da Saúde a declarar emergência de importância nacional são antigas. Em maio de 2021, por exemplo, a Apib (Associação dos Povos Indígenas do Brasil) denunciou a escalada de violência aos povos originários e solicitou a retirada dos invasores garimpeiros das terras Yanomami e Munduruku. Nessa época, foram publicadas reportagens que mostravam crianças indígenas desnutridas na aldeia Maimasi, localizada em Roraima.

Em novembro de 2021, o Fantástico veiculou uma reportagem que já mostrava o cenário de desnutrição na terra Yanomami e relacionava a crise aos garimpeiros ilegais que desregulam o meio ambiente – abrindo caminho para surtos de malária – e contaminam as águas da região. Um levantamento do Observatório da Mineração com base nos dados do Mapbiomas estima que entre 2017 e 2021, 1.556 hectares foram garimpados ilegalmente na terra Yanomami em Roraima.

Um mês depois, a Agência Pública publicou um levantamento com base nos dados da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) que mostrava que oito crianças yanomami morreram de malária entre 2019 e 2020, anos em que Bolsonaro esteve no poder. Isso representa dois terços de todas as mortes de crianças pela doença registradas no Brasil no período. O levantamento mostrou que óbitos por desnutrição na infância ocorreram 191 vezes mais entre os yanomamis do que a média nacional entre 2019 e 2020.

Em dezembro de 2022, uma UBS (Unidade Básica de Saúde) yanomami localizada na região Homoxi foi incendiada por garimpeiros que viviam na região. De acordo com as lideranças indígenas, o ato criminoso foi uma retaliação à operação da PF (Polícia Federal) e do Ibama na região.

Referências

  1. MPF
  2. Instituto Socioambiental (1 e 2)
  3. Governo Federal (1, 2, 3 e 4)
  4. Sumaúma
  5. BBC Brasil
  6. HRW
  7. Apib
  8. El País
  9. G1 (1 e 2)
  10. Observatório da Mineração
  11. Agência Pública
  12. Cimi

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