É falso documento em que PF diz não ver crime em mensagens de Nikolas e Vorcaro

Compartilhe

Adicione o Aos Fatos às suas fontes do Google

fonte preferencial

Não é verdade que a PF (Polícia Federal) disse em relatório não ter visto indícios de crime nas conversas do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A corporação negou a autoria do documento compartilhado nas redes pelo parlamentar e seus apoiadores. Além disso, a ferramenta de verificação da OpenAI indicou que o conteúdo foi gerado por seus modelos de inteligência artificial.

Postagens que reproduzem o falso documento reuniam ao menos 500 mil visualizações no X nesta quinta-feira (3).

PF diz em relatório que não há indícios de crimes de Nikolas Ferreira em conversa com Vorcaro

A imagem mostra uma página de um suposto Relatório de Análise de Dados da Polícia Federal, identificado como Extração nº 01, com referência à Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado. No cabeçalho, constam a operação Compliance Zero, a data da extração, 18 de novembro de 2025, o período analisado, de 1º de janeiro de 2024 a 17 de novembro de 2025, e a indicação de que se trata da página 156 de 218. O documento apresenta a seção 'Análise de mensagens – interlocutores políticos e institucionais' e afirma analisar dados extraídos do aparelho celular de Daniel Bueno Vorcaro. Em seguida, há uma subseção intitulada 'Conversas com o Deputado Federal NIKOLAS FERREIRA (PL/MG)', com informações sobre mensagens trocadas pelo WhatsApp entre os dois. A síntese afirma que as mensagens tratavam de críticas públicas feitas pelo deputado ao Banco Master e ao Fórum de Londres, além de um pedido de intermediação junto a um ex-assessor. O documento também diz que não foram identificadas promessas de vantagens, negociação de valores ou outros elementos que indicassem prática de ilícito penal. Na tabela de mensagens transcritas, aparecem quatro registros, incluindo um áudio e textos atribuídos a Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro. Ao final, a seção 'Análise técnica – conclusão sobre o interlocutor' afirma que as mensagens indicam contato de natureza pessoal e profissional entre os interlocutores, sem elementos que permitissem concluir pela prática de crime. O texto também diz que não foram identificados indícios suficientes para sugerir a abertura de inquérito específico ou a adoção de medidas investigativas contra o deputado Nikolas Ferreira. O documento é datado de Brasília/DF, 18 de novembro de 2025.

Não é real o documento atribuído à PF que diz que as mensagens trocadas entre Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro não teriam nenhum indício de crime e só mostrariam “contato de natureza pessoal e profissional entre os interlocutores”.

A Polícia Federal disse ao Aos Fatos nesta quinta-feira (3) que o documento é falso. A corporação ressaltou que não produziu a imagem nem o conteúdo da página que circula nas redes.

Além disso, Aos Fatos submeteu o arquivo à ferramenta de verificação da OpenAI que detectou a presença de SynthID, uma marca d'água digital inserida em conteúdos gerados ou editados com inteligência artificial e projetada para permanecer detectável mesmo após modificações no arquivo (veja abaixo).

A imagem mostra uma tela de resultado indicando que um documento foi 'Gerado com ferramentas da OpenAI'. À esquerda, aparece uma miniatura de um suposto documento da Polícia Federal. À direita, o texto afirma que o conteúdo foi gerado usando ferramentas da OpenAI e que os sinais apresentados fornecem evidências para corroborar essa conclusão. A tela também informa 'SynthID detectado', afirmando que foi encontrada uma marca d'água SynthID proveniente da OpenAI. Logo abaixo, há um aviso em vermelho: 'Credenciais de conteúdo não detectadas', dizendo que não foi encontrado um manifesto C2PA confiável proveniente da OpenAI.
Verificador da OpenAi confirmou que documento foi manipulado com uso de ferramentas da companhia (Reprodução/OpenAI)

Procurada, a OpenAI confirmou ao Aos Fatos que a presença do SynthID indica que houve algum tipo de manipulação com uso de ferramentas de inteligência artificial.

Além disso, o documento apresenta inconsistências que podem ser atribuídas a erros de geração de conteúdo sintético, como:

  • O emblema da PF reproduzido na imagem não corresponde ao oficial: no original, as fitas têm contornos e dobras mais definidos, além de um desenho levemente diferente do que consta no documento falso;
  • Outra diferença está no acento agudo da palavra ‘Polícia’, que, no emblema original, é substituído por um triângulo;
  • A numeração dos itens do documento não segue uma ordem lógica, pulando de 7 diretamente para 7.3, sem passar por 7.1 e 7.2;
  • Há erros de português, como “contato salvado”, e não “contato salvo”;
  • As datas também são inconsistentes. O documento teria sido produzido no mesmo dia da extração dos dados, no dia 18 — um dia após a prisão de Daniel Vorcaro;
  • A montagem utiliza elementos e denominações que não costumam aparecer em documentos oficiais da PF, como uso de emojis e o termo “Relatório de Análise de Dados”.

Nikolas foi citado nesta quinta-feira (3) em reportagens do ICL Notícias que revelaram mensagens e áudios em que o deputado pede ajuda a Vorcaro para liberar “um ativo de minério” em março de 2025 e em que o ex-dono do Master afirma que “bancou todos os voos” do deputado.

Em vídeo publicado após a divulgação das reportagens, Nikolas negou a proximidade com o ex-banqueiro e disse que as mensagens não revelam nada de relevante. O próprio deputado publicou o documento falso em seus stories no Instagram.

Contatada pelo Aos Fatos, a assessoria do deputado disse que ele não sabia que o documento era falso e que republicou o conteúdo veiculado originalmente por outro portal.

A imagem mostra um story do Instagram publicado pelo perfil verificado nikolasferreiradm, reproduzindo uma publicação da conta SPACE LIBERDADE (@NewsLiberdade) no X. A postagem afirma: '🚨 URGENTE - PF diz em relatório que não há indícios de crimes de Nikolas Ferreira em conversa com Vorcaro'. Em seguida, reproduz a frase: 'Não foram identificados indícios suficientes para sugerir a abertura de inquérito específico ou adoção de medidas investigativas em face do Deputado Nikolas Ferreira'. A publicação inclui duas imagens: à esquerda, uma foto de Nikolas Ferreira segurando um microfone e sorrindo; à direita, uma imagem de uma página de um suposto relatório da Polícia Federal. Abaixo das imagens há um emoji de mãos formando um coração.
Relatório falso foi compartilhado por Nikolas Ferreira (Reprodução/Instagram)

A legislação brasileira prevê penas para a falsificação de documentos e símbolos de órgãos públicos. O Código Penal estabelece pena de dois a seis anos de reclusão, além de multa, para falsificação total ou parcial de documento público. A mesma pena também está prevista para quem falsifica ou faz uso indevido de marcas, logotipos, siglas ou outros símbolos utilizados para identificar órgãos da administração pública.

No entanto, o enquadramento da responsabilidade sobre a montagem depende da análise das circunstâncias em que foi produzida e divulgada, bem como da identificação do autor de fato da foto do documento falso.

Colaboraram Luiza Vezzá e Giovanna Massaro

O caminho da apuração

Inicialmente, Aos Fatos submeteu a imagem à ferramenta de verificação da OpenAI, que confirmou que a imagem foi manipulada com uso de inteligência artificial. Em seguida, a reportagem fez uma análise das inconsistências presentes na imagem do documento.

Em seguida, a reportagem entrou em contato com a Polícia Federal, que confirmou que a imagem não foi produzida pela corporação.
Aos Fatos também entrou em contato com a assessoria de Nikolas Ferreira.

Referências

  1. OpenAI
  2. g1
  3. ICL (1 e 2)
  4. Uol

Compartilhe

Adicione o Aos Fatos às suas fontes do Google

fonte preferencial

Leia também

falsoJanja não disse que ‘nem Deus tira essa eleição de Lula’

Janja não disse que ‘nem Deus tira essa eleição de Lula’

falsoPapa Leão 14 não declarou apoio a Flávio Bolsonaro

Papa Leão 14 não declarou apoio a Flávio Bolsonaro

Checamos a live de Flávio Bolsonaro

Checamos a live de Flávio Bolsonaro

fátima
Fátima