Não há indícios de que pode faltar combustível nos postos de todo o Brasil a partir desta quinta-feira (12) em razão do aumento no preço do diesel, ao contrário do que é afirmado em um vídeo que circula nas redes. O boato foi desmentido pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), pela Petrobras e por entidades do setor.
As peças enganam somavam mais de 5.200 compartilhamentos e 1 milhão de visualizações no Facebook até a tarde desta quinta-feira (12)
Quem não tiver o carro abastecido, a motinho abastecida, vai trabalhar a pé (...) centenas de postos no Brasil já não tem mais combustível (...) Diesel chegando até R$ 10 e a previsão é chegar a R$ 12, R$ 13 (...) E como não vai ter diesel para o caminhão não vai chegar mercadoria nas casas, não vai chegar gasolina no posto, não vai chegar álcool, pode se preparar porque a coisa no fim de semana vai feder”, disse o caminhoneiro em vídeo publicado na terça (10).

Em vídeo que circula nas redes sociais, um homem que se apresenta como caminhoneiro afirma que o aumento no preço do diesel registrado recentemente no Brasil resultará, a partir desta quinta-feira, na falta de combustíveis no país. Isso não procede. O boato foi desmentido por ANP, Petrobras, entidades do setor e especialistas contatados pelo Aos Fatos.
A ANP negou ao Aos Fatos que esteja faltando combustíveis no Brasil. A agência diz que mantém o monitoramento contínuo do mercado, inclusive com acompanhamento diário dos estoques, e que “até o momento, não identifica restrições à manutenção das atividades ou à disponibilidade de combustíveis” no país.
A Petrobras afirmou também que não houve qualquer alteração em relação às entregas de diesel por parte de suas refinarias. A companhia disse ainda que não atua na distribuição de combustíveis, apenas produz, refina e vende para as distribuidoras.
Questionada pelo Aos Fatos, a Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Gás Natural e Biocombustíveis disse não ter informações sobre um risco imediato de desabastecimento nem problemas referentes ao repasse de combustíveis pelas distribuidoras.
Marcelo Gauto, gerente da Petrobras e especialista em petróleo, gás e energia, afirmou que não há risco de desabastecimento de diesel no Brasil a curto prazo. “Podemos ver casos bem pontuais, em áreas mais expostas aos importados. O Brasil é autossuficiente em petróleo, mas não em derivados, especialmente diesel”, afirma.
Segundo a Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), 15% da demanda de diesel no país é atendida por refinarias privadas, 30% por produto importado e 55% pela Petrobras.
Os maiores exportadores de diesel para o Brasil são Rússia, Estados Unidos, Índia, Arábia Saudita, Omã, e Emirados Árabes Unidos.
O último reajuste no valor do diesel feito pela Petrobras ocorreu em maio de 2025, quando o preço do litro caiu R$ 0,16. O recente conflito no Oriente Médio entre EUA, Irã e Israel e as incertezas do mercado fizeram com que distribuidoras e postos reajustassem em até R$ 0,80 o litro do combustível em alguns estados, mesmo sem aumento da estatal.
Desde 2002, as distribuidoras são livres para definir os preços de seus produtos, assim como ocorre nos demais segmentos. Essa precificação ocorre em reais, e as distribuidoras podem comercializar para revendedores varejistas e grandes consumidores autorizados pela ANP.
Sérgio Araújo, presidente da Abicom, afirmou ao O Globo que as importações de combustíveis estão paradas desde 28 de fevereiro e que as refinarias privadas precisam repassar rapidamente a alta do petróleo, em razão da oscilação de valores gerada pelo conflito, o que faz com que o impacto dos preços seja diferente entre as regiões do país.
Araújo disse ainda que não há risco de desabastecimento de gasolina no país, uma vez que parte da frota também roda com etanol, mas que há risco de escassez de diesel entre o fim de março e início de abril em regiões que não são atendidas pela Petrobras. As refinarias da empresa estão localizadas em sua maioria no Sul e no Sudeste.
Alívio. No Brasil, o presidente Lula (PT) assinou nesta quinta-feira uma medida provisória que zera os impostos federais (PIS e a Cofins) do óleo diesel até 31 de dezembro deste ano, e estabelece o pagamento de subvenção a produtores e importadores.
A medida, segundo o governo, visa conter o aumento de preços dos combustíveis em virtude do conflito no Oriente Médio. Em paralelo, o governo pediu ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) que investigasse o aumento no preço dos combustíveis no Distrito Federal e em outros quatro estados (BA, MG, RN e RS).
Conflito no Oriente Médio
Marcelo Gauto afirma que o petróleo iraniano em si, não tem importância específica para o mercado brasileiro, o que é corroborado por dados da ANP que mostram que, de fato, o Brasil não importa petróleo ou diesel diretamente do Irã.
“O estrangulamento do Estreito de Ormuz é o principal problema, associado com bombardeio de centros de produção do Oriente Médio (Emirados Árabes, Iraque, Arábia Saudita, entre outros)”, diz Gauto.
O estreito (veja abaixo) é uma das principais rotas de comércio do mundo. Trata-se de uma via marítima estratégica por onde transita mais de 33% do petróleo e 20% do transporte marítimo do mundo.

Na quarta-feira (11), o Irã intensificou ataques contra navios-petroleiros e de transporte de carga no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz em retaliação aos ataques lançados por Israel e Estados Unidos desde 28 de fevereiro. O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou nesta quinta que o estreito deve permanecer fechado como forma de pressão.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou o vídeo que viralizou nas redes e entrou em contato com a ANP para verificar se havia registros de desabastecimento de combustíveis no país. A agência informou que monitora diariamente os estoques e não identificou restrições à disponibilidade.
A reportagem também consultou a Petrobras, a Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis e especialistas do setor de energia. As instituições afirmaram que não há risco imediato de falta de combustíveis no Brasil e que o fornecimento de diesel pelas refinarias segue normal.





