Fala de Bolsonaro sobre TCU reacende falsa alegação de fraude em números da Covid-19

Por Cecília do Lago, Débora Ely e João Barbosa

10 de junho de 2021, 18h14

A menção do presidente Jair Bolsonaro a um relatório falsamente atribuído ao TCU (Tribunal de Contas da União) voltou a alimentar alegações nas redes sociais de que o número oficial de mortes por Covid-19 no país é inflado — o que não é verdade. O monitoramento do Radar Aos Fatos em seis plataformas encontrou 304 publicações que recorreram ao episódio para questionar a autenticidade dos registros de brasileiros mortos pelo novo coronavírus.

Os conteúdos identificados entre segunda e quarta-feira (9) foram espalhados no Twitter (187 posts), no Facebook (46) — redes nas quais somaram mais de 400 mil interações —, no Telegram (23), no YouTube (22), no Instagram (17) e no WhatsApp (9).

O presidente afirmou na segunda-feira (7), em conversa com apoiadores, que divulgaria “em primeira mão” um documento do TCU que apontava uma supernotificação de 50% nos números de vítimas da pandemia. Horas depois, o tribunal desmentiu o presidente. Na terça (8), a revista Crusoé revelou que o relatório citado havia sido elaborado e publicado indevidamente por um funcionário do órgão, Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques. Segundo a Folha, ele é filho de um militar amigo de Bolsonaro.

Nas redes, o episódio fez com que fosse retomada a alegação enganosa de que há fraude nos dados de Covid-19 no país. Essa narrativa foi o tema mais recorrente nas peças de desinformação checadas pelo Aos Fatos em 2020, mas arrefeceu em 2021 com a escalada de mortes no país.

Após a fala de Bolsonaro, uma das publicações mais populares sobre o assunto foi um tweet do ex-candidato a vereador pelo PSD no Rio de Janeiro Alan Lopes que fala em "fraudemia" e que foi checado como falso pelo Aos Fatos.

Nas redes

O Twitter foi a plataforma na qual o Radar Aos Fatos identificou a maior quantidade de mensagens desinformativas impulsionadas pela fala do presidente. Os 187 tweets com conteúdo enganoso encontrados somaram mais de 202,7 mil interações (soma de curtidas e retweets).

Entre as mais populares, está uma mensagem do deputado estadual de Minas Gerais Bruno Engler (PRTB), apoiador de Bolsonaro.

Também ganhou destaque um tweet do youtuber Renato Barros, que ainda se referiu a “vídeos e relatos de familiares” que “inundaram as redes” para repetir a tese de supernotificação das mortes.

Já no Facebook, as 46 peças compartilhadas acumularam mais de 260,8 mil interações (soma de curtidas e compartilhamentos). Um dos posts que mais circularam na plataforma foi publicado pelo youtuber Gustavo Gayer. Em vídeo sob o título “Bolsonaro errou - Não foi 50%, mas sim 60% de acordo com relatório do TCU”, ele mencionou um acórdão verdadeiro do TCU — mas que não comprova qualquer teoria de supernotificação — e afirmou que “os governadores ampliaram, aumentaram o número de óbitos para poderem receber mais verba do governo”.

O Telegram — que, recentemente, despontou como um dos refúgios de usuários que buscam escapar das sanções de conteúdo de outras plataformas — concentrou 23 mensagens distorcidas sobre o tema, que somaram mais de dez mil visualizações. Os disparos foram feitos em canais de apoiadores do presidente monitorados pela reportagem.

A mensagem mais vista na plataforma (visualizada por 2.468 seguidores) apareceu no canal do deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ), que recorreu à manifestação de Bolsonaro para afirmar que não estava surpreso com a hipótese de supernotificação.

No YouTube, o Radar encontrou vinte publicações com teor similar, que somaram 74 mil visualizações. O vídeo mais popular, publicado no canal bolsonarista Folha Política, anunciou em seu título: “Bolsonaro critica (Omar) Aziz e Braga (Neto) e revela dados de relatório do TCU”.

No Instagram, foram identificadas 17 peças que continham referências ao relatório fabricado ou a trechos da manifestação enganosa de Bolsonaro. A peça mais curtida (5.800) trazia a fala do presidente e a legenda: “Exclusivo! Segundo relatório do TCU, 50% dos óbitos registrados como Covid-19 não foram Covid”.

Por fim, dos conteúdos coletados nos grupos públicos de WhatsApp monitorados pelo Radar, nove mensagens, encaminhadas a ao menos 14 grupos distintos, reforçaram a teoria de notificações infladas. Repercutindo o vídeo de Bolsonaro, a maioria insinuou que estados e municípios têm interesses em superdimensionar os dados de mortes para garantir mais recursos federais no enfrentamento à pandemia.

A peça mais compartilhada (cinco grupos) discorreu sobre “as mentiras das mortes” e ainda alegou que o uso de máscaras causa danos à saúde (o que também é falso).

Outro lado

O Aos Fatos entrou em contato com as páginas e os perfis citados na reportagem (à exceção da conta no Instagram canal_patriota, com a qual a reportagem não conseguiu contato). Apenas o youtuber Gustavo Gayer respondeu ao email, mas não quis se manifestar.

Referências:
1. Estadão
2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5 e 6)
3. TCU
4. Crusoé
5. Folha de S.Paulo

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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