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Facebook não admitiu erro nem disse que hidroxicloroquina é eficaz contra Covid-19

Por Luiz Fernando Menezes

4 de fevereiro de 2021, 10h50

É falso que o Facebook tenha admitido que errou ao "censurar" a hidroxicloroquina e que isso seria uma prova de que o medicamento funciona para tratar a Covid-19, como alegam posts nas redes sociais (veja aqui). Na realidade, o Comitê de Supervisão, um conselho independente da plataforma, recomendou que fosse anulada a decisão da empresa de remover uma postagem na França que citava o remédio. O pedido foi acatado e o post voltou a ser exibido. Estudos científicos mais robustos apontam que a droga é ineficaz contra o novo coronavírus.

A informação falsa surgiu na semana passada em um texto publicado pela colunista do portal R7 Patrícia Lages. Poucos dias depois, o título do artigo passou a circular junto a postagens nas redes sociais que associam a falsa decisão a um aval ao uso do remédio. No Facebook, esses posts reuniam ao menos ao menos 45 mil compartilhamentos nesta quarta-feira (3) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação (saiba como funciona).


O QUE isso pode estar ensinando? QUE você pode induzir pessoas à morte e simplesmente pedir desculpas depois? UMA NOTÍCIA FALSA PODE LEVAR PESSOAS À MORTE. Isso é muito sério, é GRAVÍSSIMO. Quantas pessoas já morreram por acreditarem que HIDROXICLOROQUINA não funciona contra o vírus ch1nes (Cov1d)? E QUANTAS pessoas ainda não sabem que a HIDROXICLOROQUINA funciona poderosamente LOGO APÓS SENTIRMOS OS PRIMEIROS SINTOMAS DO VÍRUS CH1NE1S (Cov1d)?

Postagens que circulam nas redes têm utilizado um parecer do Conselho de Supervisão do Facebook, um colegiado externo da empresa, para afirmar que a plataforma admitiu erro ao tirar do ar postagens sobre a hidroxicloroquina e reconheceu a eficácia do remédio contra a Covid-19, o que não é verdade. Até o momento, o medicamento não se provou capaz de deter ou prevenir a doença.

O parecer do comitê independente, criado no ano passado com membros de todo o mundo para avaliar práticas da empresa, não é um reconhecimento de erro do Facebook, mas sim uma recomendação externa de como as postagens poderiam ter sido tratadas pela empresa, em vez da simples exclusão do conteúdo.

Além disso, a avaliação do comitê não se refere a todo o tratamento destinado pelo Facebook a menções à hidroxicloroquina, de forma generalizada, mas sim a apenas um vídeo específico, em francês, publicado em outubro de 2020, que defendia a hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19.

A plataforma excluiu o vídeo por considerar que o conteúdo feria suas regras ao sugerir que haveria uma cura para o novo coronavírus e “que isso poderia levar as pessoas a ignorar as orientações de saúde ou a tentar se automedicar”.

A ação, no entanto, foi considerada exagerada pelo Conselho de Supervisão. Em seu parecer, o comitê justificou que não seria possível comprar o medicamento sem receita na França, e afirmou ainda que o conteúdo “não encoraja as pessoas a comprar ou tomar remédios sem prescrição”. O conselho alegou também que seria melhor ter optado por uma abordagem menos intrusiva, como a indicação de que o vídeo carecia de contexto, e recomendou que o Facebook revertesse sua decisão, o que foi acatado.

Em nota enviada ao Aos Fatos, o Facebook disse que concorda com a posição do comitê de que as políticas da rede social podem ser mais claras e transparentes. "Acreditamos, no entanto, que é fundamental que todos tenham acesso a informações precisas, e nossa abordagem atual na remoção de informações incorretas é baseada em extensas consultas com cientistas reconhecidos, incluindo do Centre for Disease Control (CDC) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Durante a pandemia global, essa abordagem não mudará", acrescentou.

Em nenhum momento o conselho independente ou a rede social atestaram que a hidroxicloroquina seria eficaz ou que o entendimento do parecer se estenderia a todas as publicações sobre o medicamento que foram removidas ou indicadas como desinformativas por agências de checagens.

Sem comprovação. Grande parte das peças de desinformação compartilha uma imagem do título de um artigo publicado na coluna de Patrícia Lages portal R7. Além de não contextualizar a decisão do conselho, a autora ainda defende no texto que a hidroxicloroquina seria eficaz. Para isso, ela cita estudos que são considerados enganosos por especialistas consultados pelo Aos Fatos.

Um dos argumentos apresentados pela colunista para fazer essa afirmação é de que o site c19study.com mostraria que “mais de três mil cientistas acompanharam o tratamento de 166.999 pacientes em 195 estudos que apontam que houve melhora de 67% nos tratamentos precoces e 25% de melhora nos resultados de tratamentos tardios”.

O site citado por Lages, no entanto, é criticado por cientistas por não seguir critérios metodológicos, não indicar quem são os autores das supostas pesquisas, fazer comparações incorretas de dados e até mesmo inventar resultados.

Leandro Tessler, professor de Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e integrante do InfoVid, grupo de cientistas divulgadores de informações sobre a Covid-19, explicou que a suposta meta-análise do site nunca foi submetida à revisão e que não há critérios claros de seleção: “o c19study abarca todos os trabalhos que encontra, inclusive preprints de qualidade duvidosa ou mesmo muito baixa”, disse ao Aos Fatos.

Márcio Bittencourt, cardiologista da USP (Universidade de São Paulo) e colaborador do IQC (Instituo Questão de Ciência), aponta ainda que o site faz uma comparação enganosa ao reunir dados sobre diferentes países porque ignora as particularidades de cada região, como a idade média da população. Países com população mais jovem, por exemplo, tendem a ter menos mortes do que nações com mais idosos, o que pode interferir na análise de mortalidade de um determinado medicamento.

Outra informação enganosa presente na coluna é a de que um estudo recente teria “mostrado que os países que fizeram uso precoce da HCQ [hidroxicloroquina] tiveram uma taxa de mortalidade 79% menor que os países que proibiram seu uso”. Lages, no entanto, não cita o nome do estudo nem onde ele teria sido publicado.

Aos Fatos encontrou apenas um artigo que faz afirmação semelhante, mas ele foi publicado em agosto de 2020 no site hcqtrial.com. O suposto estudo diz ter registrado uma queda de 79% na mortalidade de pacientes tratados com o medicamento. O artigo, no entanto, já foi alvo de críticas por diversos especialistas internacionais e sua atualização recente já reduziu a suposta taxa de sucesso para 69,9%.

David Gorski, oncologista e pesquisador da Wayne State University, é um dos cientistas que refuta a validade do suposto estudo hcqtrial.com. Em artigo publicado no site Science-Based Medicine, ele diz que a suposta pesquisa contém os mesmos erros metodológicos apontados no c19study.com: utiliza artigos não revisados, não indica autoria, compara dados entre países e até inventa resultados de estudos. Críticas semelhantes podem ser acessadas também no Health Feedback e na checagem do Comprova publicada em outubro de 2020.

Conforme explicado em checagem anterior publicada pelo Aos Fatos, não há evidência de que a cloroquina e a hidroxicloroquina, sejam elas administradas ou não com outros remédios, sejam eficazes em qualquer fase da infecção pelo novo coronavírus. Segundo o Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford, a hipótese de que o medicamento seja eficaz é fraca e seu uso pode ser perigoso em grandes doses. O NIH (National Institute of Health, órgão de saúde americano) também não recomenda o uso do medicamento.

Aos Fatos entrou em contato com a colunista Patrícia Lages por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.

Referências:

1. Science-Based Medicine
2. Health Feedback
3. Comprova
4. Aos Fatos
5. CEBM
6. NIH
7. Comitê de Supervisão do Facebook (Fontes 1 e 2)


De acordo com nossos esforços para alcançar mais pessoas com informação verificada, Aos Fatos libera esta reportagem para livre republicação com atribuição de crédito e link para este site.

Essa checagem foi atualizada às 11h do dia 5 de fevereiro de 2021 para acrescentar a nota enviada pelo Facebook.

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