Facebook exibiu anúncios de drogas sem comprovação contra Covid-19 ao menos 3,9 mi de vezes em 2020

Por Bernardo Barbosa, Bruno Fávero e Débora Ely

12 de janeiro de 2021, 11h56


Duzentos e setenta e três anúncios pagos que divulgavam tratamentos sem eficácia comprovada para a Covid-19 foram exibidos ao menos 3,9 milhões de vezes no Facebook e no Instagram ao longo de 2020, mostra levantamento do Radar Aos Fatos com dados das plataformas.

As publicações encontradas foram criadas entre abril e dezembro e defendiam o uso de cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina ou ozonioterapia contra o coronavírus. Embora promovidas por políticos e até por médicos, não há comprovação científica de que elas tenham qualquer efeito sobre a doença.

Uma consulta feita na segunda-feira (11) mostrou que esses anúncios haviam sido exibidos entre 3,9 milhões e 4,8 milhões de vezes, segundo dados da Biblioteca de Anúncios do Facebook. Um deles ainda está sendo veiculado. A ferramenta não informa o número exato de exibições ("impressões", no jargão publicitário) de cada post, apenas dá uma faixa com um valor mínimo e um máximo de vezes que a publicação pode ter sido exibida.

Apesar do alcance amplo, os gastos para impulsionar as publicações foram relativamente modestos: somados, os 273 anúncios custaram entre R$ 10.900 e R$ 37.927 — o Facebook também não divulga os valores exatos.

Dois dos posts encontrados (0,8% do total) foram removidos por violarem as políticas de publicidade da rede social. A informação sobre a remoção está disponível na Biblioteca de Anúncios (aqui e aqui). No entanto, não consta qual política foi violada pelos anúncios removidos.

Em seu site, o Facebook afirma que veda anúncios que contenham "alegações fraudulentas, falsas ou enganosas, tais como as que são relativas à eficiência ou características de um produto ou serviço ou alegações que criem expectativas não realistas nos utilizadores". Também diz que eles "não podem promover a venda ou a utilização de drogas ilegais, de uso recreativo ou sujeitas a receita médica".

Procurado pela reportagem, o Facebook não respondeu se os outros anúncios identificados pela reportagem violaram as políticas de publicidade (veja a íntegra da resposta no fim deste texto).

Politização. Os anúncios encontrados foram compartilhados por 99 páginas e perfis no Facebook e no Instagram. Desses, 78 eram ligados a política, incluindo páginas de ocupantes de cargos públicos, candidatos nas últimas eleições e movimentos sociais.

É possível que a predominância de políticos no levantamento se deva ao escopo da Biblioteca de Anúncios, que só permite fazer buscas temáticas por anúncios "relacionados com questões sociais, eleições ou política".

Ex-deputado federal e também médico, Carlos Manato (sem partido-ES) foi o campeão no número de posts impulsionados que promoviam remédios sem eficácia comprovada. O atual presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae-ES e apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pagou para ampliar o alcance de 32 publicações sobre o tema, o que resultou em entre 83 mil e 114.968 impressões a um custo de até R$ 3.168.

Em uma delas, o ex-parlamentar relaciona a queda de mortes no município de Aracruz, no Espírito Santo, ao tratamento precoce com cloroquina —o anúncio custou menos de R$ 100 e gerou de 9 mil a 10 mil impressões.

Em outra, Manato afirma que o medicamento para malária estaria “salvando vidas via Correio”, mencionando a distribuição de “kit covid” pela operadora de saúde Prevent Senior. O impulsionamento também saiu por menos de R$ 100, sendo mostrado a um número de usuários entre 7.000 e 8.000.

Em seguida, aparece Devanir Ferreira (Republicanos), recém-empossado vereador de Vila Velha (ES). Ele promoveu, durante a campanha eleitoral, 26 peças publicitárias que continham hashtags de apoio a substâncias sem comprovação científica contra a Covid-19, como azitromicina, ivermectina e cloroquina. Ferreira investiu até R$ 2.674 e teve de 89 mil a 122.974 impressões de anúncios.

Por fim, o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), foi o terceiro que mais promoveu anúncios de remédios ineficazes no Facebook. Em suas 13 publicações impulsionadas, o mandatário divulgou suas ações de enfrentamento à pandemia no Estado – entre elas, a distribuição de azitromicina e ivermectina para municípios mato-grossenses. Mendes investiu entre R$ 1,2 mil e R$ 2,4 mil, chegando a entre 1,3 milhão e 1,5 milhão de impressões.

Outro lado. Em contato por telefone com o Aos Fatos, Carlos Manato classificou a defesa do tratamento com medicamentos sem eficácia comprovada como uma questão de opinião. “Eu acredito e receito ivermectina, vitamina D e hidroxicloroquina. Impulsiono [as postagens] porque acredito. É uma questão de opinião e de liberdade minha. É meu posicionamento, há trabalhos favoráveis e contrários. Eu uso os favoráveis”, disse o ex-deputado e médico.

Mauro Mendes, em nota enviada pela assessoria de imprensa do governo de Mato Grosso, afirmou que o Estado comprou medicamentos e disponibilizou o "tratamento precoce" às unidades de saúde estaduais e aos municípios que o solicitaram. “No entanto, a distribuição desses medicamentos foi feita apenas e exclusivamente por meio de prescrição médica, após avaliação individual de cada paciente atendido na rede pública de saúde”, acrescentou.

Também por telefone, Devanir Ferreira defendeu o uso da cloroquina —que, segundo ele, curou um filho contaminado pelo coronavírus— e da ivermectina, que ele e outros familiares usaram e que ele acredita ter prevenido o contágio. “Tive dentro de casa uma comprovação pessoal e, para mim, isso é suficiente. Inúmeros médicos de grande relevância no país defendem o uso, além de hospitais renomados. Essa discussão de comprovação científica está muito mais relacionada ao financeiro do que à intenção de salvar as pessoas”, completou.

Por email, a assessoria de imprensa do Facebook afirmou que quer "manter as pessoas seguras e informadas, principalmente em temas importantes para a sua saúde. Nossa abordagem em relação a conteúdo sobre a COVID-19 inclui, de um lado, remover ou reduzir o alcance de conteúdo que seja nocivo ou falso, e de outro, conectar as pessoas com informações precisas e oficiais".

A reportagem questionou a empresa sobre se os anúncios analisados pelo Radar violaram as políticas de publicidade e as diretrizes da comunidade da rede social, mas não teve resposta. O Facebook apenas afirmou que, entre março e outubro de 2020, removeu “mais de 12 milhões de peças de conteúdo do Facebook e Instagram por conterem desinformação que poderia levar a danos físicos iminentes”.

A assessoria também disse que trabalha “com mais de 80 organizações de verificação de fatos que analisam e classificam conteúdo em mais de 60 idiomas em todo o mundo. Exibimos avisos em cerca de 167 milhões de peças de conteúdo no Facebook, com base em artigos de checagem sobre a COVID-19 escritos por nossos parceiros de verificação de fatos.”

O Aos Fatos é uma das organizações que integram a parceria com o Facebook (saiba como funciona).

Referências:
1. Aos Fatos (1 e 2)
2. Facebook (1, 2, 3 e 4)
3. Câmara dos Deputados
4. Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo


Este texto foi modificado no dia 12 de janeiro de 2021 às 20h01 para informar que um dos anúncios encontrados pela reportagem ainda está no ar.

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Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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