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Extrema-direita portuguesa aposta no TikTok para crescer entre eleitores do futuro

Por Gisele Lobato

11 de junho de 2024, 15h27

“Volta pra tua terra!”

No mês passado, em uma escola na região metropolitana de Lisboa, um aluno português de 11 anos usou o lema xenófobo para insultar um amigo brasileiro após um desentendimento. Questionado pelo professor de onde tirou aquela frase, o menino sacou o celular: de um vídeo no TikTok.

A rede de vídeos curtos se tornou a aposta da extrema-direita portuguesa em uma estratégia de longo prazo para arrebanhar o eleitor do futuro — muitos dos conteúdos têm como alvo adolescentes, e o direito ao voto em Portugal começa aos 18 anos.

O movimento é percebido em toda a Europa, onde partidos de extrema-direita vêm seduzindo os jovens com discursos que abordam desde imigração até questões de gênero. A guerra na Ucrânia, o aumento no custo de vida e um mercado de trabalho incerto têm deixado a geração que passou parte da adolescência na pandemia mais receptiva a extremismos.

A adesão dos jovens é apontada como uma das explicações para o avanço da extrema-direita nas eleições para o Parlamento Europeu, encerradas no domingo (9). As siglas ultradireitistas passaram de 16,7% para 18,1% das cadeiras, das quais duas serão ocupadas por deputados do Chega, partido da direita radical portuguesa que fará sua estreia na instituição.

Apesar de ter tido um desempenho abaixo do esperado nas eleições europeias, o Chega se consolida como terceira força política em Portugal. Fundado em 2019, o partido quadruplicou sua representação no parlamento português nas eleições de março, indicando 50 dos 230 deputados.

O Chega foi o segundo partido mais votado na faixa etária dos 18 aos 34 anos, desempenho impulsionado por sua atuação nas redes sociais.

“O Chega está a apostar no TikTok e foi o primeiro partido em Portugal a fazê-lo de forma sistemática”, afirma Bruno Madeira, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, que enxerga na legenda “um fundo fascista”.

Print mostra Rita Matias ao lado de André Ventura. Matias, à esquerda, é uma jovem branca, de cabelo loiro liso, que veste blusa preta e calças cinza. Já André Ventura usa terno cinza com camisa branca sem gravata. Antes usam óculos de sol redondos e aparecem em frente a uma parede de madeira. Post pede voto no Chega.
Viral. A coordenadora da Juventude Chega, Rita Matias, e o presidente do partido, André Ventura, brincam com óculos de sol em vídeo no TikTok (Reprodução/TikTok)

“O Chega e todos estes partidos de extrema-direita oferecem uma identidade a estes jovens, que é uma coisa que não há em mais lado nenhum nas sociedades liberais e ultraliberais, em que a identidade é o culto do ‘eu’ e em que todos nós vivemos sem laços e em competição”, analisa Madeira.

Para o especialista, a pandemia agravou o isolamento dos jovens, que estão cada vez mais “sedentários, fechados em casa, agarrados a videogames, plataformas e telas”. Nesse contexto, a extrema-direita fornece o “sentimento de integrar uma comunidade grande” ao fornecer essa identidade. “Nem que seja uma identidade negativa, de oposição e de eliminação do outro.”

Madeira considera que as ideologias de extrema-direita se tornaram atrativas para os mais jovens também por representarem um papel de ruptura com a ordem vigente, em um contexto em que a esquerda, ao apostar em um discurso de conciliação com o capitalismo, “deixou de representar efetivamente uma alternativa ao sistema”.

Para o professor, a crise da masculinidade também ajuda a explicar a ascensão do Chega entre os jovens, já que esse avanço se concentra predominantemente entre os homens.

“Há um mundo que começa a ruir para estes jovens, no qual aquilo que eram as referências dos seus pais já não funcionam para eles.”

ESCOLA COM PARTIDO

Foi com uma mensagem direcionada ao público em idade escolar que a deputada do Chega Rita Matias iniciou um vídeo publicado no TikTok no dia seguinte às eleições de março: “Sei que chegaste hoje à escola e os teus professores e os teus colegas disseram-te para estares muito preocupado porque a extrema-direita cresceu e o fascismo voltou a Portugal”, disse.

“Deves estar a questionar em que partido é que os teus pais votaram e, eventualmente, até a pensar se podes e se és boa pessoa por apoiares o Chega”, continuou Matias, que busca reforçar o discurso antissistema do partido, que se vende como uma sigla comprometida com o combate aos privilégios das elites e à corrupção. Ela também negou os rótulos de facista e extremista, atribuindo-os a uma “estratégia” de difamação por parte da imprensa, da esquerda e dos políticos tradicionais.

Por fim, fez uma oferta aos estudantes: “Se não sabes o que responder aos teus professores e aos teus colegas, nós continuamos disponíveis para ir à tua escola, para ir à tua universidade, basta que nos convides que nós lá estaremos para que saibas que não estás sozinho”, prometeu a líder da ala jovem do Chega, que costuma visitar escolas e universidades pelo país.

Rita Matias é a face mais conhecida do Chega nas redes, ao lado do presidente da sigla, André Ventura. Com trejeitos de influenciadora, a deputada — que fez treinamento de redes com o Vox, partido da extrema-direita espanhola — emergiu na cena política como militante antifeminista e antiaborto.

No TikTok, ela acumula quase 500 mil curtidas, número que pode parecer pequeno na dimensão da internet brasileira, mas que é expressivo para os padrões de Portugal.

Além de políticos influenciadores, o Chega conta hoje com uma constelação de perfis anônimos que ajudam a disseminar suas bandeiras entre os jovens.

Em outro vídeo disponível no TikTok focado no público escolar, por exemplo, uma influencer associa uma reportagem sobre a inclusão de crianças transgêneros ao mau desempenho de estudantes. Embora o conteúdo não tenha sido nem produzido nem postado pelo partido, a postagem traz diversas hashtags com referências ao Chega.

“Se fosse só o líder do Chega a pôr lá a mensagem, nunca na vida ela teria o alcance que tem. Isso seria impensável. Há toda uma rede ali que está muito bem montada”, avalia Nelson Zagalo, professor de Novas Mídias da Universidade de Aveiro.

Segundo o pesquisador português, a construção dessa rede incluiu um trabalho de identificar páginas e personalidades com muitos seguidores e “lhes bater à porta e tentar convencer a falarem pelo partido”.

“Isso se viu com vários youtubers e podcasters, mas também com grupos de humor, de trocas e vendas. Perceberam que eram pessoas com capacidade de chegar às massas e souberam ir buscá-las.”

Na avaliação de Zagalo, o partido contou com orientação e experiências internacionais — inclusive no Brasil — para construir essa estratégia de comunicação nas redes. “Não foi em Portugal que eles aprenderam a fazer isto, porque em Portugal não há outros partidos que saibam fazer isso. Isso veio principalmente do Brasil e dos Estados Unidos”, diz.

Zagalo explica ainda que, apesar de ter aprendido com a experiência internacional, o Chega também soube adaptar as lições ao contexto português. “O WhatsApp nunca funcionou muito bem aqui em Portugal, mas eu sei que no Brasil teve um impacto tremendo. Aqui foi muito Facebook, Twitter e agora, recentemente, o TikTok. Nas últimas eleições, o TikTok esteve imensamente presente.”

ALÉM DAS DANCINHAS

A imprensa portuguesa tem mostrado como o algoritmo do TikTok vem impulsionando conteúdos extremistas, incluindo do Chega, para os jovens do país. Em um dos testes, feito pela revista Visão, um conteúdo crítico à presença de imigrantes asiáticos em Portugal foi a quinta sugestão do aplicativo a uma jovem de 18 anos que tinha instalado o programa pela primeira vez. Pouco depois, Ventura apareceu em um vídeo condenando a imigração.

Os vídeos exibidos no teste da publicação são semelhantes aos que o professor de história Leandro Antoniasse viu no celular do aluno de 11 anos envolvido no episódio xenófobo de maio. O docente, que é brasileiro, dá aulas na rede pública portuguesa desde 2019 e considera que a presença da extrema-direita nas escolas do país aumentou depois da pandemia.

“No início, isso chegava muito menos em sala de aula e nos alunos do que hoje. Mas, como eles vivem nas redes sociais, inevitavelmente passou a ter alguma implicação em sala de aula”, avalia o professor.

A classe onde Antoniasse testemunhou o caso de xenofobia tem 25 alunos, dos quais apenas 1 não tem celular. Grande parte dos alunos acessa o TikTok mesmo não tendo atingido a idade mínima do aplicativo, 13 anos. Para o professor, a postura de muitos pais de deixar a criança ter acesso livre às redes acaba facilitando o acesso a conteúdos extremistas.

No início de maio, um português de 17 anos foi detido em Lisboa acusado de administrar um grupo na plataforma Discord para dar instruções a ataques em escolas no Brasil. Segundo as investigações, o neonazista português teria incentivado e orientado o atirador que deixou uma estudante morta e duas feridas em uma escola no bairro de Sapopemba, em São Paulo, em outubro passado.

Referências:
1. BBC
2. g1
3. Observador
4. Assembleia da República de Portugal
5. Sondagens ICS/ISCTE
6. Visão
7. UOL (1 e 2)

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