Em meio a mensagens vazadas e investigações com sigilo derrubado, Brasília termina a semana tragada por uma crise política sem precedentes envolvendo altas autoridades da República e suas relações com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Com um embate entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, o STF (Supremo Tribunal Federal) está no epicentro da atual turbulência institucional.
A escalada dos atritos envolvendo as investigações do caso Master alcançou seu ápice nesta terça-feira (1), quando Mendonça levantou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que expôs supostos vínculos de Vorcaro com Moraes e outras autoridades, como o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
A divulgação desencadeou uma onda de vazamentos à imprensa e de novos pedidos de investigação envolvendo outras figuras públicas, incluindo o próprio Mendonça. Na quinta (3), o presidente do STF, Edson Fachin, determinou que Moraes, Mendonça, Gonet e Rodrigues se manifestem formalmente sobre o caso.
As novas revelações do caso Master nesta semana não ficaram restritas ao Judiciário, entretanto. Na terça, uma reportagem suscitou novos questionamentos a Flávio Bolsonaro (PL) sobre os repasses de Vorcaro ao filme Dark Horse.
Vazamentos das investigações também envolveram o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), Fábio Faria, ex-ministro do governo Bolsonaro, e Gilberto Kassab, presidente do PSD e vice na chapa de Ronaldo Caiado (PSD).
A seguir, Aos Fatos detalha a situação atual de oito personagens que foram arrastados para a crise do caso Master nesta semana.
- Alexandre de Moraes
- Paulo Gonet
- Andrei Rodrigues
- André Mendonça
- Flávio Bolsonaro
- Fábio Faria
- Nikolas Ferreira
- Gilberto Kassab

1. Alexandre de Moraes
Segundo o relatório da PF, Vorcaro enviou 28 mensagens para um celular atribuído a Moraes entre 12 e 17 de dezembro de 2025. Não há registro das respostas do magistrado porque a comunicação era feita por meio de visualização única no WhatsApp, o que não permite que se saiba quais foram as réplicas dele.
Nas mensagens, o empresário:
- Perguntou, dois dias antes de ser preso, no dia 15 de novembro de 2025, se Moraes achava que ele deveria fugir do país: “acha que segunda já tenho que estar fora?”;
- Pediu dois encontros presenciais com o ministro — um no dia 12 de novembro e outro no dia 16. O conteúdo indica que Moraes teria aceitado se encontrar na casa do ex-banqueiro;
- Solicitou ajuda para que o diretor-geral da PF fosse “sensibilizado” para “conseguir atrasar” e evitar que o banco quebrasse;
- Criticou a atuação do presidente do Banco Central, Daniel Galípolo, e pediu para que Moraes tentasse intermediar um encontro: “Vamos resolver tudo. Não podem estourar uma bomba atômica na hora da solução, não faz sentido para ninguém. Nem para ele, nem pro governo, pra economia e nem para o Brasil”;
- Citou supostos cartões de crédito que teriam sido emitidos para os filhos de Moraes — Giuliana e Alexandre Barci;
- E disse que tinha “gratidão” e uma “dívida de vida” com Moraes.

O relatório aponta ainda que o ministro teria editado um contrato de cerca de R$ 130 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o banqueiro. Além desse, haveria ainda um outro contrato, de R$ 50 milhões, entre o escritório e a Viking Participações, cujo valor Vorcaro tentou quitar com a entrega de duas aeronaves.
O documento também afirma que os dados obtidos do celular de Vorcaro indicam que Moraes e Vorcaro se encontraram ao menos nove vezes entre março de 2024 e agosto de 2025.
Na terça-feira (1º), Mendonça também conversou com o presidente do Supremo, Edson Fachin, para levar ao plenário a decisão de abrir ou não uma investigação contra Moraes em relação ao caso Master.
O que disse o ministro. Em março, quando as primeiras mensagens relacionando o ministro a Vorcaro foram reveladas, Moraes negou que as tenha recebido. Na crise atual, no entanto, o magistrado não se pronunciou e preferiu agir nos bastidores.
Há relatos, por exemplo, que Moraes teria discutido com Mendonça em encontro privado no dia em que o sigilo sobre as mensagens foi retirado. Na sessão plenária do dia seguinte, no entanto, o assunto não foi tratado.
Na quinta-feira (3), Moraes entrou com um pedido de investigação contra o ministro André Mendonça. Segundo o magistrado, o colega teria feito acusações caluniosas e desinformações “que atingem a honorabilidade e a segurança” dos membros do STF. O pedido foi feito dentro do chamado inquérito das fake news, mas retirado do âmbito dele nesta sexta (4) por Fachin.
Já o escritório Barci de Moraes publicou uma nota confirmando que Moraes editou o contrato de prestação de serviços, mas que não há nada de ilícito na conduta do ministro. O escritório também nega que os cartões de crédito emitidos pelo banqueiro tenham sido usados pelos filhos do casal.

2. Paulo Gonet
Apesar de não constar um número de telefone direto com o PGR na agenda de Vorcaro, o relatório aponta que os dois tiveram contatos intermediados pelo advogado Ciro Soares, que já defendeu o ex-banqueiro no STJ (Superior Tribunal de Justiça).
Em outubro de 2025, por exemplo, Vorcaro enviou uma mensagem a Moraes dizendo que: “É importante reforçar com Andrei [Rodrigues] e Paulo [Gonet] pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”.
Em novembro, Vorcaro voltou a citar o PGR para tentar sugerir uma intervenção de Moraes contra as investigações do banco Master: “Não conseguimos reverter isso com Paulo [Gonet] e Andrei [Rodrigues]? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?”. Apenas é escrito o primeiro nome deles na mensagem, mas a PF afirma se tratar do PGR e do diretor-geral da PF.
Mensagens entre o empresário e Ciro também indicam que Vorcaro pediu a Gonet para que ele convencesse um candidato à presidência do conselho de procuradores-gerais a não concorrer. Os investigadores acreditam que eles se referem a Georges Seigneur, que de fato abriu mão da disputa após a mensagem.
Há também uma mensagem, do dia 15 de março de 2025, em que Ciro mandou uma foto com Gonet com a legenda “Ele quer falar com você”, seguido de quatro ligações telefônicas.

O que disse o PGR. Apesar de não ter se referido diretamente às mensagens reveladas pela PF, Gonet pediu, no mesmo dia da divulgação do relatório, a anulação da investigação sob o argumento de que Mendonça teria extrapolado os limites da atuação de um magistrado durante a fase pré-processual.
Integrantes do Ministério Público disseram estar constrangidos com as revelações e com a atuação do PGR desde a publicação do relatório, segundo relatos divulgados pela imprensa.

3. Andrei Rodrigues
Além das citações nas mensagens em que Vorcaro pediu a Moraes para tentar blindar operações, o diretor-geral da PF foi convidado pelo banqueiro para um evento em Londres em 2024, com todos os custos da viagem cobertos por ele.
O empresário disse, em depoimento ao gabinete de Mendonça na semana passada, que um acordo de delação premiada não evoluiu porque envolveria Andrei, conforme relatos divulgados pela imprensa. Vorcaro teria afirmado que o diretor teria uma relação passada com ele, inclusive tendo viajado juntos.
O que disse o diretor-geral da PF. Ainda de acordo com a imprensa, Andrei disse a interlocutores que Vorcaro mentiu e que agiu “como um canalha” ao citar seu nome.

4. André Mendonça
Um dia após levantar o sigilo do relatório da PF, foi a vez do próprio relator do processo ser citado no caso. O ICL Notícias divulgou que o ministro teve um encontro com Vorcaro em março de 2025, em São Paulo, organizado pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
Mensagens enviadas pelo advogado Ciro Rocha Soares a Vorcaro também sugerem que ele teria pago um terno a Mendonça “no Vasco” — referência à alfaiataria de luxo Vasco Vasconcellos — em fevereiro de 2025. Nesta sexta (4), o ministro apresentou notas fiscais para rebater suspeitas sobre o terno.
Na noite de quinta (3), Moraes entrou com um pedido de investigação contra Mendonça no âmbito do inquérito das fake news por improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. A ação se baseou em relatórios da PF encomendados por Moraes.
Como dito acima, o pedido foi retirado do inquérito por determinação de Fachin. O caso foi anexado a um procedimento aberto para apurar a crise no Supremo e que está sob sua própria relatoria.
Segundo um relatório da PF, há indícios de que Mendonça agiu de forma assimétrica — dando pesos diferentes para alvos diferentes — e agiu de forma enviesada. A investigação também identificou que o senador Davi Alcolumbre (União-AP) era visto como um “alvo estratégico” e que haveria um direcionamento de investigações contra ele.
O que disse o ministro. Mendonça admitiu ter encontrado Vorcaro “uma única vez”, mas negou que o assunto tratado estivesse relacionado ao banco Master. Segundo o magistrado, o encontro foi realizado no instituto Iter, do qual é sócio-fundador. Na última quinta-feira (3), Mendonça anunciou que deixou o instituto.
Sobre o caso da alfaiataria, Mendonça apresentou notas fiscais que mostram que, naquele dia, ele fez um pagamento de R$ 16,5 mil à loja. As notas foram juntadas pelo gabinete do ministro para contestar a acusação de que Vorcaro teria pago um terno a ele.
Já o deputado Cezinha disse ao Valor Econômico que, na época, não havia qualquer conhecimento ou informação pública acerca da investigação, suspeita ou imputação de irregularidade envolvendo Vorcaro. O político disse ainda que não há “qualquer ilicitude” em sua conduta.

5. Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
Na terça-feira (1º), mesmo dia em que o relatório da PF foi divulgado, a piauí publicou uma reportagem com dados de um documento do Coaf até então inédito e mais mensagens do celular de Vorcaro.
A reportagem alega que houve mais pagamentos por parte do empresário ao fundo Havengate, administrado pelo advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e que supostamente financiou o filme do ex-presidente. Ao todo, portanto, Vorcaro teria pago cerca de US$ 14 milhões dos US$ 24 milhões solicitados por Flávio.
Isso desmente, mais uma vez, o senador e presidenciável do PL, que disse que o último pagamento de Vorcaro teria sido feito em maio de 2025 e totalizado US$ 10,6 milhões.
Na quinta-feira (3), O Globo noticiou que o dono da Ente Investimentos, Antônio Carlos Freixo Júnior, firmou um acordo de delação premiada com a PGR. Ele entregou extratos que provam pagamentos ao fundo a mando de Vorcaro, segundo “Mineiro”, como é conhecido.
O que disse o senador. À piauí, a assessoria disse que Flávio não tinha nada para explicar e que quem devia esclarecimento era a produtora do filme. O senador tem repetido, diversas vezes, que o pagamento não teria nada de irregular e seria apenas um investimento privado, o que não é possível afirmar com as provas reveladas até o momento.

6. Fábio Faria (PP-RN)
O ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro também foi citado no relatório divulgado pela PF. De acordo com as mensagens reveladas, Faria atuou na intermediação dos contatos de Moraes e Vorcaro entre 2023 e 2024. Ele, inclusive, acompanhou as tratativas em torno do contrato entre o escritório de Viviane e o empresário.
Uma das mensagens, de caráter mais pessoal, mostra um diálogo entre Faria e Vorcaro em que é mencionado um encontro em outubro de 2023 com “Davi e Pacheco” (supostamente o atual presidente do Senado e o senador do PSB mineiro, ex-presidente da mesma Casa), além do ministro do STF Dias Toffoli. Em uma das mensagens, Faria diz: “Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir”.
O que disse o ex-ministro. Não há informações de que Faria tenha se pronunciado sobre as mensagens reveladas.

7. Nikolas Ferreira (PL-MG)
Uma das vozes mais críticas ao ministro Alexandre de Moraes nas redes também se viu envolvido nesta semana novamente com o caso Master. O ICL Notícias, na quinta-feira (3), divulgou mensagens e áudios que mostram que:
- O deputado pediu ajuda para Vorcaro liberar “um ativo de minério” em março de 2025;
- O pastor André Valadão, em abril de 2024, disse ao empresário que Nikolas havia pedido desculpas por ataques passados;
- Vorcaro disse, em conversa com outro empresário, que “bancou todos os voos” de Nikolas.
Logo após a divulgação das mensagens, viralizou nas redes um relatório supostamente produzido pela PF no qual a instituição teria dito não ter identificado nenhum crime nas mensagens. Esse documento, que chegou a ser compartilhado pelo próprio Nikolas, no entanto era falsificado, como Aos Fatos revelou nesta quinta (3).
O que disse o deputado. Em vídeo publicado após a divulgação das reportagens, Nikolas negou a proximidade com o ex-banqueiro e disse que as mensagens não revelam nada de relevante.

8. Gilberto Kassab (PSD)
Vorcaro afirma em sua proposta de delação premiada que, na campanha de 2022, Tarcísio de Freitas (Republicanos) recebeu R$ 2 milhões e Jair Bolsonaro (PL) R$ 3 milhões em doações de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e um dos investigados na operação Compliance Zero. Segundo o ex-banqueiro, os valores têm origem em negociação de propina, conforme reportagem do UOL da última quinta-feira (3).
De acordo com Daniel Vorcaro, essas doações foram "contrapartidas financeiras" pagas após um "ajuste indevido com Gilberto Kassab para a manutenção do Credcesta no governo Tarcísio".
O que disse o político. Em nota ao UOL, Kassab disse que o relato não tem “qualquer sustentação factual”.
O caminho da apuração
Aos Fatos reuniu as principais revelações feitas sobre o caso que foram noticiadas pela imprensa nessa semana, bem como a resposta dos envolvidos. Os fatos foram separados por personagens citados e organizados de forma cronológica.





