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Existe cura para o coronavírus? Como entender os avanços sobre o tema

20 de maio de 2020, 14h03


Esse texto foi publicado originalmente pelo Chequeado, parceiro de Aos Fatos na LatamChequea (projeto de colaboração entre iniciativas de checagem da América Latina, Espanha e Portugal). Leia aqui o conteúdo original em espanhol.

Se você tem apenas alguns segundos, leia essas linhas:

Estamos todos aguardando uma cura para o novo coronavírus e ficamos esperançosos cada vez que vemos uma manchete sobre uma nova descoberta. Mas, até agora, toda vez que nos empolgamos com um estudo, descobrimos que ele tem algumas limitações: foi realizado com poucos casos; mostrou alguma melhora, mas ela é pouco significativa ou não está claro quais os efeitos colaterais do possível tratamento.

É preciso, portanto, ter cuidado ao ler sobre os avanços da ciência sobre o novo coronavírus causador da pandemia que paralisou o mundo. E lembrar-se que, até o momento, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), não existe tratamento eficaz para a Covid-19.

Considerando que trata-se de um novo vírus sobre o qual ainda há muitas dúvidas, os cientistas estão trabalhando de maneira muito mais rápida do que o habitual e publicando suas descobertas ainda que sejam apenas parciais. Em muitos casos, trata-se de um preprint: versão da pesquisa disponível antes da sua publicação formal em um revista científica. Esses preprints não foram revisados por especialistas independentes, o que é conhecido como revisão por pares. Esse é um processo que busca garantir mais rigorosidade nas pesquisas. Antes da pandemia do novo coronavírus era pouco provável que um preprint fosse divulgado na imprensa.

Para descobrir quão confiáveis ​​são os resultados publicados, é importante saber: se os estudos são observacionais ou experimentais; em que estágio está a pesquisa, se o medicamento foi testado em pessoas ou apenas em laboratório; se o remédio alcançou a melhoria de poucos pacientes gravemente enfermos ou se poderia realmente melhorar a condição de grandes grupos em diferentes estados, entre outras questões.

Estudos publicados que levam em conta poucos casos ou apenas casos em situações críticas não demonstram a eficácia de um medicamento em outras populações. Foi o caso da hidroxicloroquina, cujo estudo foi feito com uma amostra de casos muito pequena e que logo a revista científica que o publicou se retratou devido à falta de rigor científico

Outro exemplo foi um estudo realizado na província de Córdoba com ibuprofeno. O Conselho de Médicos local alertou que se tratava de um ensaio clínico em fase inicial e que a forma como o estudo foi noticiado poderia gerar "falsas expectativas e confusão ”na população.

Alguns tipos de estudo científicos são:

1. Observacional

Dois eventos que acontecem ao mesmo tempo não estão necessariamente relacionados entre si

Existem muitas maneiras de pesquisar e obter evidências sobre um novo tema. Uma é observar quais fatores estão ligados à gravidade do coronavírus em um país ou em uma população e, a partir daí, tentar tirar conclusões. Foi o que foi feito nas pesquisas que apontaram que o coronavírus tem menor impacto em países com alta cobertura de vacina BCG ou pessoas com maior nível de vitamina D, por exemplo. Esses estudos fornecem idéias do que pode estar acontecendo, mas são necessárias mais pesquisas para analisar se as hipóteses levantadas são verdadeiras ou não, uma vez que a correlação entre duas variáveis ​​não implica causalidade.

Também existem análises que consistem em examinar os componentes de algo e supor o que ele poderia fazer sobre o vírus hipoteticamente. Isso ocorreu no caso do ibuprofeno, quando um grupo de cientistas advertiu sobre seu possível risco baseado em cenários hipotéticos e em algumas observações, mas sem ter evidência sobre o seu efeito em uma pessoa com Covid-19. Posteriormente, a OMS observou que não há evidências de efeitos adversos graves do uso do ibuprofeno.

2. Ensaios pré-clínicos (ou laboratoriais)

Um tratamento pode funcionar em um ambiente artificial, mas não sabemos o que acontece no corpo humano

As investigações laboratoriais, os chamados estudos pré-clínicos, são usadas para testar o efeito que um medicamento pode ter sobre o vírus em condições artificiais, uma vez que são feitas em culturas de células em uma placa de Petri (testes in vitro) ou em animais (testes in vivo). O problema com esses estudos — que avaliam tanto a eficácia quanto a toxicidade de um medicamento — é que eles não levam em consideração as particularidades que podem ocorrer dentro corpo humano e, portanto, não são conclusivos.

Foi o que aconteceu com o antiparasitário ivermectina. A FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora de medicamentos e alimentos do governo americano) incluiu esse medicamento no Programa de Aceleração de Tratamento de Coronavírus, mas esclareceu que havia apenas evidências laboratoriais e que "esses tipos de estudos de laboratório são comumente usados ​​em um estágio inicial do desenvolvimento de medicamentos, sendo necessários testes adicionais para determinar se a ivermectina pode ser apropriada para prevenir ou tratar o coronavírus".

3. Ensaio clínico

O mais confiável

Por fim, existem os ensaios clínicos randomizados. Eles são os que produzem as evidências mais confiáveis ​​sobre o efeito que um tratamento pode ter sobre as pessoas. Nestas investigações, uma parte dos participantes recebe o tratamento que está sendo testado, enquanto outra recebe um placebo — uma pílula de açúcar, por exemplo — para provar que o efeito é alcançado realmente pelo medicamento. Os participantes são divididos aleatoriamente entre aqueles que recebem o tratamento e aqueles que recebem o placebo.

O processo é realizado em 4 fases: começa com um pequeno grupo de pessoas para ver qual dose é segura e quais os possíveis efeitos colaterais e, gradualmente, o tratamento é testado em grupos maiores até que seja provado se ele é seguro e eficaz. É o que a OMS está fazendo com o projeto “Solidarity”, no qual experimenta quatro tipos de tratamentos em centenas de pacientes em todo o mundo.
Enquanto aguardamos testes clínicos rigorosos que nos permitam ter certeza sobre quais tratamentos funcionam, devemos ser críticos quanto ao que lemos e ter cuidado com as informações que compartilhamos para não criar falsas esperanças.

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