Estudo não concluiu que respiradores mataram maioria dos pacientes com Covid-19

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Não é verdade que um estudo concluiu que os respiradores foram responsáveis pela morte de “quase todos os pacientes com Covid-19”, como afirmam publicações nas redes. Especialistas consultados pelo Aos Fatos rechaçaram essa interpretação e apontaram que não é possível afirmar que a ventilação causou os óbitos, já que pacientes com quadros graves necessitam de intubação para sobreviver. A conclusão dos autores do estudo distorcido pelas peças desinformativas é que profissionais de saúde precisam estar atentos para prevenir e tratar possíveis infecções secundárias causadas pela intubação.

Publicações com a interpretação enganosa do artigo acumulam, até tarde desta quinta-feira (18), 4.000 compartilhamentos no Twitter e centenas de compartilhamentos no Facebook. O conteúdo também circula no WhatsApp (fale com a Fátima) e no Telegram.


Selo falso

Relatório oficial afirma: respiradores mataram quase todos os pacientes com Covid-19.

Posts distorcem estudo que aponta que pacientes com Covid-19 que necessitam de respiradores estão mais suscetíveis à pneumonia bacteriana

Textos desinformativos têm distorcido um artigo publicado no Journal of Clinical Investigation para afirmar que os respiradores teriam sido responsáveis pela morte de “quase todos os pacientes com Covid-19”. Para fazer essa alegação, os posts usam um trecho do estudo que aponta que os enfermos submetidos à ventilação mecânica estavam mais suscetíveis a pneumonias bacterianas. Especialistas consultados pelo Aos Fatos apontaram que a interpretação é equivocada, já que desconsidera que doentes em estado grave não sobreviveriam sem a intervenção de um respirador em primeiro lugar.

Conduzido por pesquisadores da Northwestern University, o estudo, publicado em abril deste ano, analisou dados de 585 pacientes com pneumonia ou insuficiência respiratória — 190 deles diagnosticados com Covid-19 — que precisaram de ventilação mecânica. A análise identificou que a maior mortalidade entre os pacientes infectados foi registrada entre os que tiveram pneumonia bacteriana causada pelo uso de respiradores e não receberam o tratamento adequado para a infecção.

Isso, no entanto, não significa que os respiradores foram os responsáveis pela morte dos pacientes. Em artigo publicado no site da universidade, Benjamin Singer, um dos autores da pesquisa, disse que “o estudo destaca a importância de prevenir, procurar e tratar agressivamente a pneumonia bacteriana secundária em pacientes críticos com pneumonia grave, incluindo aqueles com Covid-19”.

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Frederico Fernandes, pneumologista e ex-presidente da SPPT (Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia), ressaltou que os posts enganam por ignorar que os pacientes com casos graves de Covid-19 dependiam de respiradores para sobreviver. “Seria a mesma coisa de ver um estudo mostrando que acidentes de automóvel matam mais quando a pessoa é ejetada pelo vidro e concluir que o que mata é o vidro e não o acidente”, ele explicou. O médico apontou, no entanto, que é fato que a ventilação mecânica deixa os doentes vulneráveis às complicações inerentes à UTI.

Arthur Viana, pneumologista e coordenador da Comissão Científica de Terapia Intensiva da SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia), disse que pacientes com quadros graves de Covid-19 ficam mais expostos a esse tipo de pneumonia porque precisam ficar intubados por muito tempo.

“A gente sabe que os doentes de Covid-19 tiveram mais pneumonia associada à ventilação mecânica. Por conta da dificuldade de fazer diagnóstico, como o próprio artigo falou, porque a broncoscopia não era acessível, porque era de muito risco, o tratamento era empírico. Muitas vezes, o médico não sabia qual era a bactéria responsável pela infecção e não conseguia fazer o tratamento correto”, explicou.

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