Estudo coreano não concluiu que distanciamento social é inútil contra Covid-19

Por Luiz Fernando Menezes

31 de julho de 2020, 17h12


Publicações nas redes sociais enganam ao sugerir que uma pesquisa sul-coreana provaria que o distanciamento social é inútil para conter a transmissão da Covid-19 (veja aqui). Na realidade, o estudo concluiu que pessoas que moravam com um infectado contraíram a doença mais do que as que não viviam na mesma casa. Segundo os pesquisadores, esse resultado reforça a importância das medidas de proteção, inclusive dentro das residências.

A pesquisa foi citada em um tweet contra a quarentena postado pelo deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e em postagens de teor similar no Facebook. O conteúdo enganoso foi marcado com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).

Confira abaixo, em detalhes, o que checamos.


FALSO

Pois é… #quarentenainútil
ATENÇÃO: Maior pesquisa feita até hoje, acompanhando todos os contágios dos primeiros dois meses de Covid-19 na Coreia, divulgada pelo CDC americano, mostra que a contaminação dentro de casa foi 6 vezes maior do que fora de casa.

O estudo da Coreia do Sul citado pelo deputado Osmar Terra (MDB-RS) não prova nem indica que as quarentenas são inúteis. A pesquisa, publicada na revista do CDC (Center for Disease Control and Prevention, autoridade sanitária dos EUA), monitorou 59.073 pessoas que tiveram contato com pacientes de Covid-19, divididas entre as que moravam ou não com eles. A análise concluiu que 11,8% dos que viviam com um infectado foram diagnosticados com a doença ante 1,9% dos contatos que não residiam na mesma casa.

Ou seja, o estudo não mediu o grau de contaminação pelo novo coronavírus em todas as situações possíveis, mas somente entre pessoas que tiveram contato com um doente. Nesse cenário, os diagnósticos de Covid-19 entre os que moravam na mesma residência do infectado foram cerca de seis vezes superiores aos dos que não viviam.

“O resultado [do estudo] não sugere que o distanciamento social não seja eficaz, mas que ele provavelmente reduziu a transmissão não residencial (quando comparada à transmissão doméstica)”, afirmou ao Aos Fatos, por e-mail, um dos autores da pesquisa, Young June Choe, professor assistente da Hallym University.

Quarentena. O período de isolamento social pode ter contribuído para a maior incidência de contaminação no grupo que morava com o paciente, pois as famílias passaram a ficar mais tempo juntas, segundo os pesquisadores. Eles, porém, reforçam a importância das medidas de distanciamento, higiene e proteção, inclusive dentro das residências, e sugerem ainda o isolamento de pacientes fora do ambiente doméstico.

“Dada a alta taxa de infecção nas famílias, medidas de proteção individual devem ser usadas em casa para reduzir o risco de transmissão. Se possível, o isolamento de coorte [pacientes de Covid-19] fora dos hospitais, como em um Centro de Tratamento Comunitário, pode ser uma opção viável para gerenciar a transmissão doméstica”, diz trecho do estudo.

O estudo também não permite afirmar se as pessoas que foram diagnosticadas durante o monitoramento pegaram a doença em casa ou fora dela, como reconhecem os pesquisadores no documento. Assim, mesmo entre os casos de familiares que vivam com um paciente, não se pode determinar exatamente a origem da contaminação.

Procurado, Osmar Terra não respondeu ao pedido de entrevista de Aos Fatos. Em levantamento realizado pelo Radar Aos Fatos em meados de abril, ele foi apontado como o congressista que mais publicou informações falsas ou distorcidas sobre a pandemia no Twitter: 38 de seus 159 posts continham algum tipo de desinformação (cerca de 24%).

Colaborou: Priscila Pacheco

Referências:

1. Aos Fatos

2. CDC


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