Em uma das últimas edições da A Que Ponto Checamos de 2025, falamos sobre um vídeo feito por IA que mostrava uma pastora chorando no meio de uma avenida e que enganou muita gente na internet.
Desta vez, faremos o contrário: vamos contar como diversas pessoas estão enxergando anomalias comuns em conteúdos sintéticos nas fotos do encontro do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente americano Donald Trump, na semana passada.

Conforme explicamos em checagem anterior, não, as fotos não têm indícios de terem sido geradas por IA:
- Não há anomalias visíveis, como textos com caracteres estranhos, dedos a mais nas mãos, distorções no cenário ou texturas plásticas;
- As imagens também não têm marcas d’água verificáveis por ferramentas de empresas como Google e OpenAI;
- A ausência de reflexo do comentarista Paulo Figueiredo Filho em um dos registros é explicável pelo ângulo da foto.
Enfim, a explicação está toda aqui para quem quiser ler.
Publicamos o texto nas redes na quarta (27) e dezenas de leitores vieram dizer que tínhamos errado. Alguns, inclusive, enviaram mais “indícios” de que a foto teria sido gerada por IA. Vamos reservar esta edição da A Que Ponto Checamos para explicar por que nenhum deles se sustenta.
1. ‘A foto do Cristiano Ronaldo é a original’
Uma das alegações feitas pela peça de desinformação que checamos nesta semana é que a foto de Flávio foi gerada a partir de uma imagem real de um encontro de Trump com o escritor Robert Hardman. Mostramos no texto que isso não se sustenta.
Agora, usuários alegam que comparamos a foto com a imagem errada. Segundo eles, a original — que teria sido editada para inserir o senador — seria um registro da visita do jogador Cristiano Ronaldo à Casa Branca em novembro de 2025.

Separadas, as imagens podem até parecer iguais. Mas, ao analisarmos elas juntas, é possível perceber diferenças nas roupas e no cabelo de Trump, na posição da cadeira do presidente americano e na disposição da mesa do Salão Oval. Até o ângulo da fotografia é diferente, como é possível verificar pelo canto da mesa e pela altura dos móveis atrás da imagem.
O fundo da imagem do jogador de futebol também é mais escuro do que a de Flávio, o que sugere que a imagem foi registrada em um período com menor luminosidade.
2. ‘É um souvenir’
Outras pessoas argumentaram que a foto seria um tipo de “brinde” vendido na Casa Branca, porque dezenas de outras imagens mostrariam o presidente Donald Trump na mesma posição. A loja de presentes oficial da Casa Branca, no entanto, não oferece fotos com Trump.
Por mais inacreditável que pareça, a estranheza apontada pelos usuários pode ser explicada por uma habilidade única do presidente americano: a de fazer a mesma pose e o mesmo sorriso em praticamente todas as fotos no Salão Oval.

3. ‘Olhem o telefone!’
Olhamos, e não tem nada de errado com nenhum dos dois.
O presidente Trump de fato tem dois aparelhos em cima de sua mesa, como é possível verificar em registros mais recentes (veja abaixo).

4. ‘Ninguém da Casa Branca postou a foto’
É verdade que as imagens publicadas por Flávio Bolsonaro não constam nos sites da Casa Branca nem foram publicadas pelo presidente americano. Mas isso não prova que os registros são falsos: diversos encontros que constam na agenda do presidente acabam não aparecendo nas redes do governo.
A reunião com Flávio, Eduardo e Paulo Figueiredo foi confirmada pela imprensa internacional, como o Washington Post, e por personalidades como o ex-assessor de Trump, Jason Miller.
Flávio, inclusive, também se reuniu posteriormente com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que designou na última quinta (28) as facções criminosas CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas estrangeiras.

5. ‘Ferramentas de identificação dizem que é IA’
Por fim, diversos usuários mostraram prints de análises feitas por ferramentas online de detecção, como a HiveAI, apontando que as imagens teriam alta probabilidade de terem sido geradas por IA.
É quase consenso que esse tipo de ferramenta não é confiável.
Perguntar para o ChatGPT ou para o Grok, então, é pior ainda: suas análises costumam ser genéricas e imprecisas. Para ilustrar o problema, pedimos para a ferramenta da OpenAI analisar uma imagem publicada pela própria Casa Branca, com crédito para o fotógrafo e nenhum indício de geração artificial aparente.

Entendemos que, com a popularização da IA, está cada vez mais difícil descobrir o que é, de fato, uma fotografia real. Mas isso não significa que qualquer “estranheza” seja prova de geração sintética.
Em todos os casos em que há dúvidas de que a foto é real, é preciso analisar também o contexto: Flávio estava na Casa Branca naquela data e a imprensa confirmou o encontro. O possível dano de forjar não uma, mas várias fotos com o presidente dos EUA também não seria trivial.
Na edição em que falamos do vídeo da pastora feito por IA, terminamos a newsletter com a dica: “se estiver com dúvidas se aquele conteúdo é real, não compartilhe”. Agora vamos adicionar mais uma: se não tiver certeza de que a imagem é falsa, não saia acusando por aí, porque isso também é desinformação.





