Desmentimos as estranhezas inventadas para dizer que fotos de Flávio e Trump são de IA

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Em uma das últimas edições da A Que Ponto Checamos de 2025, falamos sobre um vídeo feito por IA que mostrava uma pastora chorando no meio de uma avenida e que enganou muita gente na internet.

Desta vez, faremos o contrário: vamos contar como diversas pessoas estão enxergando anomalias comuns em conteúdos sintéticos nas fotos do encontro do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente americano Donald Trump, na semana passada.

Imagem mostra o presidente americano Donald Trump — homem de pele clara, cabelo loiro penteado para trás, usando terno escuro e gravata vermelha — sentado atrás da mesa presidencial no Salão Oval da Casa Branca. Ao lado dele, está Flávio Bolsonaro — homem de pele clara, cabelo curto escuro, usando terno azul-marinho, camisa branca e gravata amarela — em pé com as mãos cruzadas à frente do corpo. Sobre a mesa, há pilhas de livros, telefones, molduras com fotografias e outros objetos decorativos. Ao fundo, aparecem bandeiras dos Estados Unidos e de forças militares, cortinas douradas, janelas com vista para árvores e esculturas posicionadas nas laterais da sala.
Foto publicada no perfil oficial de Flávio no Instagram não possui indícios de artificialidade (Reprodução/Instagram)

Conforme explicamos em checagem anterior, não, as fotos não têm indícios de terem sido geradas por IA:

  1. Não há anomalias visíveis, como textos com caracteres estranhos, dedos a mais nas mãos, distorções no cenário ou texturas plásticas;
  2. As imagens também não têm marcas d’água verificáveis por ferramentas de empresas como Google e OpenAI;
  3. A ausência de reflexo do comentarista Paulo Figueiredo Filho em um dos registros é explicável pelo ângulo da foto.

Enfim, a explicação está toda aqui para quem quiser ler.

Publicamos o texto nas redes na quarta (27) e dezenas de leitores vieram dizer que tínhamos errado. Alguns, inclusive, enviaram mais “indícios” de que a foto teria sido gerada por IA. Vamos reservar esta edição da A Que Ponto Checamos para explicar por que nenhum deles se sustenta.

1. ‘A foto do Cristiano Ronaldo é a original’

Uma das alegações feitas pela peça de desinformação que checamos nesta semana é que a foto de Flávio foi gerada a partir de uma imagem real de um encontro de Trump com o escritor Robert Hardman. Mostramos no texto que isso não se sustenta.

Agora, usuários alegam que comparamos a foto com a imagem errada. Segundo eles, a original — que teria sido editada para inserir o senador — seria um registro da visita do jogador Cristiano Ronaldo à Casa Branca em novembro de 2025.

Imagem mostra duas fotografias comparativas do Salão Oval da Casa Branca, posicionadas uma acima da outra, com círculos laranja destacando diferenças entre os cenários. Na imagem superior, Donald Trump — homem de pele clara, cabelo loiro penteado para trás, usando terno azul e gravata rosa — aparece sentado atrás da mesa presidencial, enquanto Flávio Bolsonaro — homem de pele clara, cabelo curto escuro, usando terno azul-marinho e gravata listrada em amarelo e azul — está em pé ao lado da mesa. Na imagem inferior, Trump aparece na mesma posição e com roupas semelhantes, mas ao lado dele está Cristiano Ronaldo — homem de pele clara, cabelo curto escuro, usando roupa preta com gola alta — segurando um objeto dourado. Os círculos laranja destacam mudanças em bandeiras, objetos sobre a mesa e detalhes do fundo entre as duas imagens.

Separadas, as imagens podem até parecer iguais. Mas, ao analisarmos elas juntas, é possível perceber diferenças nas roupas e no cabelo de Trump, na posição da cadeira do presidente americano e na disposição da mesa do Salão Oval. Até o ângulo da fotografia é diferente, como é possível verificar pelo canto da mesa e pela altura dos móveis atrás da imagem.

O fundo da imagem do jogador de futebol também é mais escuro do que a de Flávio, o que sugere que a imagem foi registrada em um período com menor luminosidade.

2. ‘É um souvenir’

Outras pessoas argumentaram que a foto seria um tipo de “brinde” vendido na Casa Branca, porque dezenas de outras imagens mostrariam o presidente Donald Trump na mesma posição. A loja de presentes oficial da Casa Branca, no entanto, não oferece fotos com Trump.

Por mais inacreditável que pareça, a estranheza apontada pelos usuários pode ser explicada por uma habilidade única do presidente americano: a de fazer a mesma pose e o mesmo sorriso em praticamente todas as fotos no Salão Oval.

Imagem mostra montagem com seis fotografias de Donald Trump — homem de pele clara, cabelo loiro penteado para trás, usando ternos escuros e gravatas em tons de azul, roxo e vermelho — sentado atrás da mesa presidencial no Salão Oval da Casa Branca. Em todas as imagens aparecem pessoas parcialmente visíveis em pé atrás dele, usando roupas formais e casuais em diferentes cores. As fotografias apresentam mudanças na disposição de objetos sobre a mesa, nas cores das gravatas de Trump e nas pessoas posicionadas ao fundo.


3. ‘Olhem o telefone!’

Olhamos, e não tem nada de errado com nenhum dos dois.

O presidente Trump de fato tem dois aparelhos em cima de sua mesa, como é possível verificar em registros mais recentes (veja abaixo).

Imagem mostra Donald Trump — homem de pele clara, cabelo loiro penteado para trás, usando terno azul e gravata listrada em azul claro — sentado atrás da mesa presidencial no Salão Oval da Casa Branca, olhando para um grupo de pessoas em pé ao lado da mesa. Entre elas estão homens e mulheres de diferentes idades e tons de pele, usando roupas sociais e camisas polo em cores como preto, azul, vermelho, verde e amarelo. Sobre a mesa aparecem telefones, moedas, porta-retratos, uma pasta preta fechada e uma bandeja com imagem de paisagem. Ao fundo, há bandeiras militares dos Estados Unidos, cortinas douradas e medalhas penduradas.
É tradição que os presidentes americanos tenham dois telefones no Salão Oval (Joyce Boghosian/Casa Branca)

4. ‘Ninguém da Casa Branca postou a foto’

É verdade que as imagens publicadas por Flávio Bolsonaro não constam nos sites da Casa Branca nem foram publicadas pelo presidente americano. Mas isso não prova que os registros são falsos: diversos encontros que constam na agenda do presidente acabam não aparecendo nas redes do governo.

A reunião com Flávio, Eduardo e Paulo Figueiredo foi confirmada pela imprensa internacional, como o Washington Post, e por personalidades como o ex-assessor de Trump, Jason Miller.

Flávio, inclusive, também se reuniu posteriormente com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que designou na última quinta (28) as facções criminosas CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas estrangeiras.

Imagem mostra dois homens de pele clara usando ternos escuros posando lado a lado em um ambiente interno com móveis de madeira escura. À esquerda, está Marco Rubio — homem de cabelo curto escuro, usando terno azul, camisa branca e gravata azul clara com estampa geométrica. À direita está Flávio Bolsonaro — homem de cabelo curto escuro, usando terno azul-marinho, camisa branca e gravata vinho com pequenos pontos claros. Os dois estão de pé sobre um carpete cinza, com os braços próximos ao corpo. Ao fundo, há um armário com portas de vidro contendo pratos decorativos verdes, além de duas luminárias com base azul e branca posicionadas sobre mesas laterais.
Flávio se encontrou com Marco Rubio na quinta-feira (28) (Reprodução/Instagram)

5. ‘Ferramentas de identificação dizem que é IA’

Por fim, diversos usuários mostraram prints de análises feitas por ferramentas online de detecção, como a HiveAI, apontando que as imagens teriam alta probabilidade de terem sido geradas por IA.

É quase consenso que esse tipo de ferramenta não é confiável.

Perguntar para o ChatGPT ou para o Grok, então, é pior ainda: suas análises costumam ser genéricas e imprecisas. Para ilustrar o problema, pedimos para a ferramenta da OpenAI analisar uma imagem publicada pela própria Casa Branca, com crédito para o fotógrafo e nenhum indício de geração artificial aparente.

Imagem mostra captura de tela de conversa sobre inteligência artificial. Na parte superior, aparece uma fotografia de um grupo de homens caminhando ao ar livre em um caminho molhado cercado por árvores. Entre eles está Donald Trump — homem de pele clara, cabelo loiro, usando terno escuro e gravata vermelha — acompanhado por outros homens de terno e militares uniformizados. Abaixo da imagem, há a mensagem: ‘Chat, isso é IA né?’. Em seguida, aparece um longo texto em português afirmando que a imagem apresenta sinais típicos de geração por inteligência artificial, como ‘pele e rostos muito limpos’, ‘iluminação extremamente cinematográfica’ e ‘fundo com profundidade de campo exagerada’. O texto também cita modelos de IA como ‘OpenAI DALL·E’, ‘Midjourney’ e ‘Stable Diffusion’.


Entendemos que, com a popularização da IA, está cada vez mais difícil descobrir o que é, de fato, uma fotografia real. Mas isso não significa que qualquer “estranheza” seja prova de geração sintética.

Em todos os casos em que há dúvidas de que a foto é real, é preciso analisar também o contexto: Flávio estava na Casa Branca naquela data e a imprensa confirmou o encontro. O possível dano de forjar não uma, mas várias fotos com o presidente dos EUA também não seria trivial.

Na edição em que falamos do vídeo da pastora feito por IA, terminamos a newsletter com a dica: “se estiver com dúvidas se aquele conteúdo é real, não compartilhe”. Agora vamos adicionar mais uma: se não tiver certeza de que a imagem é falsa, não saia acusando por aí, porque isso também é desinformação.

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