A tomada do Estado americano por Elon Musk revela a ideologia dominante do Vale do Silício

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Na série de TV “Paradise”, do Disney+, o nome da operação para resgatar os escolhidos para sobreviver ao fim do mundo em um bunker nas montanhas do Colorado é “Versalhes”. Não há explicação para a escolha, mas o batismo é bastante apropriado. Afinal, era no palácio em Versalhes, bem longe da balbúrdia de Paris, que vivia a realeza francesa antes da guilhotina.

Tal qual Versalhes, “Paraíso” (“Paradise”, em português), na série, foi uma cidade construída para que fosse possível exercer um controle absoluto sobre tudo e sobre todos através de dispositivos tecnológicos. O presidente dos Estados Unidos ainda existe, mas o poder real está nas mãos do grupo de bilionários que construiu o lugar.

No Paraíso não há armas, não há crimes, não há conflito, não há luto. É isso que os bilionários querem que as pessoas acreditem. Mas, é claro, isso não é verdade.


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A obsessão de bilionários americanos com bunkers para enfrentar o fim do mundo não é novidade. Ao menos desde 2018 há reportagens contando sobre as obsessões de figuras como Peter Thiel, um dos criadores do PayPal e personagem-chave do alinhamento entre os donos das big techs e o governo de Donald Trump, para sobreviver ao Apocalipse.

O próprio Mark Zuckerberg comprou um bom pedaço de uma ilha no Havaí, no Oceano Pacífico, e está fazendo um investimento de US$ 100 milhões no local — o que inclui um gigantesco bunker subterrâneo. Detalhe: as aquisições de terras na região começaram em 2014. E tudo que está sendo feito ali é cercado de sigilo por contrato.

Os planos de Elon Musk para colonizar Marte ou de Jeff Bezos para ocupar a Lua parecem meio amalucados, mas são a outra face da mesma visão de mundo. É o chamado longotermismo. Em linhas gerais, funciona assim: as nossas decisões hoje são fundamentais para o bem-estar do maior número de pessoas daqui a 2 mil anos.

Se isso significar o fim das condições de vida na Terra, bem, aí é um efeito colateral daquilo que eles entendem por progresso humano.


Este é um ponto fundamental. No Vale do Silício, o longotermismo encontrou o seu parceiro ideal. Há quem chame de “iluminismo das trevas” ou de neorreacionarismo. Em resumo, pessoas muito ricas e com muita influência política acreditam que os mecanismos democráticos são um entrave ao avanço tecnológico que podemos alcançar.

A solução seria, então, substituir um presidente eleito pelos cidadãos para um mandato de quatro anos por um CEO com poderes ilimitados. Uma monarquia empresarial, com políticas econômicas conservadoras, homens no comando e mulheres submissas. Qualquer semelhança com a machosfera (Plataforma #52) não é mera coincidência.

O principal nome do neorreacionarismo é o bilionário Peter Thiel. Um de seus sócios no PayPal, e que também ficou rico quando a empresa de pagamentos foi vendida para o eBay, em 2002, era Elon Musk.

(Para quem quiser saber mais sobre o assunto, vale ouvir o episódio #132 do podcast Rádio Escafandro).


A ofensiva de Musk à frente do Doge (Departamento de Eficiência Governamental) de Donald Trump é a captura do Estado americano pelos neorreacionários. É o que alerta um grupo de pesquisadores americanos em um relatório sobre a atuação do bilionário à frente de um cargo com poderes quase ilimitados, mas que ninguém parece capaz de definir o que faz.

Musk demitiu dezenas de milhares de funcionários públicos e os substituiu por pessoas leais a ele. São jovens do Vale do Silício, muitos com menos de 25 anos, que se tornaram responsáveis por uma infraestrutura que move trilhões de dólares. Isso sem credenciais de segurança adequadas e colocando em risco à segurança nacional.

Segundo os pesquisadores, que não se identificaram por temer retaliação, o Estado americano não está sendo desmontado, mas sim privatizado.


Em outras palavras, o maior Estado nacional do Ocidente está sendo plataformizado. A infraestrutura pública, tocada por funcionários públicos, sob a chefia de um presidente eleito democraticamente e sob a supervisão do Congresso e do Judiciário, passou a funcionar sob o comando de um CEO autocrático.

As plataformas são “infraestruturas digitais (re)programáveis que facilitam e moldam interações personalizadas entre usuários finais e complementares, organizadas por meio de coleta sistemática, processamento algorítmico, monetização e circulação de dados” na definição de Poell, Nieborg e Van Dijck.

São os dados e informações sensíveis de centenas de milhões de americanos que agora estão à disposição de Musk e seus negócios. Na Era do Capitalismo de Vigilância, o bilionário sul-africano ganhou uma larga vantagem e um poder poucas vezes visto.

A ver se o futuro que nos espera será mesmo dos neorreacionários, com bunkers enterrados na Terra e colônias no espaço, ou tudo não passará de um delírio de quem leu ficção científica demais.

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