A nova ordem de prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, na quarta-feira (4), e as mensagens vazadas pela imprensa sobre o caso do Banco Master colocaram as redes em estado de fervura. De um lado, a esquerda tenta jogar o escândalo no colo de Jair Bolsonaro (PL) e do ex-presidente do BC (Banco Central), Roberto Campos Neto; do outro, a direita pinça os nomes de petistas e ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) para tentar ocultar o possível envolvimento de oposicionistas.
Ignorando o fato de que a menção a pessoas públicas nas mensagens não necessariamente as vincula ao esquema criminoso, multiplicam-se nas redes as alegações de que políticos teriam recebido dinheiro de Vorcaro em troca de favores, o que ainda está sendo investigado.
Como o trabalho da PF (Polícia Federal) ainda está em andamento e boa parte do processo tramita sob sigilo, não é possível afirmar, hoje, quem de fato está envolvido nas fraudes do Master. Reportagens publicadas na imprensa, entretanto, apontam que Vorcaro e seus familiares mantinham uma extensa rede de amigos e parceiros de negócios, que incluía políticos, membros do Judiciário e outros empresários.
Aos Fatos reuniu as principais alegações que têm circulado nas redes desde ontem para explicar o que, de fato, se sabe até o momento.
‘BolsoMaster’
Diversas publicações de esquerda usam o termo ‘BolsoMaster’ para se referir a supostas relações criminosas entre Vorcaro, Bolsonaro e outros nomes da direita, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Os posts alegam que o banqueiro teria doado dinheiro para as campanhas eleitorais dos políticos em troca de favores.
É fato que Bolsonaro e Tarcísio receberam doações vindas da rede de contatos de Vorcaro. O pastor Fabiano Zettel, cunhado do empresário e também preso pela PF na quarta (4), foi o maior doador das campanhas do governador de São Paulo (R$ 3 milhões) e do ex-presidente (R$ 2 milhões) em 2022.
Usuários nas redes, no entanto, têm partido dessas informações para fazer alegações não comprovadas:
- Os posts alegam que Tarcísio teria recebido a doação em troca de uma venda de ações abaixo do valor real da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), privatizada em 2024;
- As peças também sugerem que o dinheiro recebido por Bolsonaro seria fruto de desvios.
Para sustentar as alegações sem provas, alguns usuários têm compartilhado um vídeo gerado por IA em que Vorcaro, Tarcísio, Bolsonaro e outros políticos admitem os supostos esquemas criminosos.

Lista telefônica. Diversas contas também têm replicado uma parte da lista de contatos extraída pela PF do celular de Vorcaro para alegar que apenas políticos de direita mantinham relações com o banqueiro.
Os posts citam deputados como Nikolas Ferreira (PL-MG), Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG) e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Os nomes citados pelas publicações foram retirados de uma reportagem publicada pelo ICL Notícias, mas ignoram informações que o próprio texto destaca:
- O material não permite concluir que houve troca de mensagens entre Vorcaro e os parlamentares;
- Em alguns casos, como o de Nikolas e Motta, a presença na lista de contatos é “unilateral”: o número do parlamentar está salvo no celular de Vorcaro, mas os dados do banqueiro não constam no aparelho dos políticos;
- E, conforme explica a própria reportagem, o fato de o número estar salvo na agenda não significa necessariamente que houve comunicação entre o político e o empresário.
O SBT News também divulgou telas de uma suposta lista de contatos extraída dos telefones de Vorcaro. Nelas, há pessoas de todos os espectros políticos e de diversas esferas: constam, por exemplo, o ex-ministro José Dirceu (PT) e os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
A imprensa também já divulgou uma troca de mensagens entre o senador e ex-ministro de Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP-PI), e Vorcaro. Os investigadores apuram se o parlamentar recebeu pagamentos do banqueiro, mas ainda não há uma investigação formal instaurada contra o político, que nega irregularidades.
Jatinho. Publicações nas redes também acusam Nikolas de conluio com Vorcaro com base em uma informação divulgada na terça (3) pela imprensa: a de que o parlamentar viajou em um jatinho do empresário para fazer campanha para Bolsonaro em 2022.
A aeronave foi usada pela caravana Juventude pelo Brasil, liderada por Nikolas e pelo pastor Guilherme Batista, ligado à Igreja Lagoinha, para buscar votos em regiões onde Lula teve maioria no primeiro turno.
Em foto compartilhada nas redes na época (veja abaixo), o deputado posa em frente à aeronave ao lado da influenciadora Jey Reis, além de Batista e sua mulher, Mariel Batista.

Nikolas admitiu ter viajado na aeronave, mas afirmou que, na época, não tinha conhecimento sobre quem era o proprietário. A Prime You, operadora do avião, afirmou que Vorcaro não era e não é proprietário do veículo, mas que o empresário foi sócio minoritário da empresa até setembro de 2025.
Vale ressaltar que a Igreja Batista da Lagoinha tem relações conhecidas com o banqueiro: a irmã do cunhado de Vorcaro é pastora de uma unidade em Belo Horizonte. Além disso, o empresário apoiou financeiramente a Rede Super, emissora de televisão ligada à igreja.
Montagens. Também passaram a circular nas redes imagens falsas que sugerem a ligação de políticos de direita com Vorcaro.
Em uma delas, o banqueiro supostamente aparece ao lado do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", na inauguração do Master. Trata-se de uma imagem gerada por IA.

‘Mais um escândalo de corrupção do PT’
Diversas publicações de direita têm resgatado os episódios do Mensalão e do Petrolão para alegar que o caso Master seria um novo escândalo de corrupção do PT.
Essas alegações ignoram que a investigação apura crimes ocorridos desde antes do atual governo: Vorcaro assumiu o comando do banco em 2017 e, desde então, a instituição foi enriquecendo por meio de um esquema de comercialização de CDBs com taxas de retorno muito superiores às da concorrência.
Os altos índices de rentabilidade atraíram muitos clientes e acabaram deteriorando a situação financeira do banco, que se tornou insustentável entre 2023 e 2024. Para evitar a insolvência, o Master passou a tentar maquiar seus balanços por meio de triangulações — a instituição financiava a si mesma e usava títulos inflados para isso.
Outro fato omitido pelas peças de desinformação é o possível envolvimento de servidores indicados a cargos de chefia durante o governo Bolsonaro.
Paulo Sérgio Neves de Sousa, ex-diretor de fiscalização do BC e um dos alvos da operação de quarta (4), por exemplo, esteve na diretoria da gestão Campos Neto e foi nomeado ao cargo por Bolsonaro. Ele é acusado de ser cúmplice de Vorcaro.

Moraes e Toffoli. Outro ponto que tem sido destacado pela direita são as acusações envolvendo ministros do STF — especificamente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli —, considerados “esquerdistas” pelos bolsonaristas.
Em relação a Moraes, as informações disponíveis sobre o caso são fruto de vazamentos divulgados por jornais. Segundo O Globo, a mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, tinha um contrato milionário para defender juridicamente o Master.
Também foi revelado pela imprensa que Vorcaro teria dito em mensagens ser próximo de Moraes e, inclusive, ter se encontrado com o ministro mais de uma vez em 2025.
Já Toffoli admitiu ser sócio de uma empresa que vendeu sua participação em um resort para uma companhia ligada ao cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel. O ministro nega qualquer irregularidade na transação e disse que não recebeu nenhum dinheiro de Vorcaro ou Zettel.
A imprensa também divulgou que o nome de Toffoli aparece em mensagens encontradas no celular do banqueiro.
‘Boa reunião’ com o Lula. Nas mensagens entre Vorcaro e sua namorada, Martha Graeff, obtidas pela CPMI do INSS e divulgadas pelo UOL, há uma conversa em que o banqueiro diz ter participado de uma reunião com o presidente Lula. Nas palavras dele, o encontro teria sido “ótimo”.
A princípio, as mensagens não revelam nenhuma irregularidade — segundo a Folha de S.Paulo, Vorcaro teria reclamado ao presidente sobre a concentração do mercado bancário no Brasil; Lula, em contrapartida, teria respondido que o assunto cabia ao Banco Central. Ainda assim, o registro tem sido compartilhado como se mostrasse algum indício de conluio criminoso entre o petista e o banqueiro.

Algumas publicações vão além e ainda comparam a mensagem a outra, na qual Vorcaro teria chamado Bolsonaro de “beócio” e “idiota”. Na conversa em questão, o banqueiro reclamava de um post feito pelo ex-presidente sobre uma operação de compra de títulos do Master. O objetivo é alegar que, diferente de Lula, Bolsonaro não teria nenhuma relação com Vorcaro.
INSS. Há ainda quem tente desviar do assunto do Master abordando uma outra investigação: a das fraudes em benefícios previdenciários do INSS. A principal notícia compartilhada pelos usuários foi publicada pelo Metrópoles e alega que o filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, teria movimentado R$ 19,3 milhões entre 2022 e 2025.
O título da matéria tem sido compartilhado como se fosse uma prova de que parte desse dinheiro teria origem na fraude do INSS, afirmação que não é feita pela reportagem.
“As maiores fontes de pagamentos para Lulinha no período da quebra de sigilo são as próprias empresas dele: a LLF Tech Participações (R$ 2,37 milhões) e a G4 Entretenimento e Tecnologia (R$ 772 mil). Do restante, a maior parte veio de rendimentos de aplicações do próprio Lulinha”, explica o texto.
O filho do presidente teve seu sigilo quebrado por decisão do ministro do STF André Mendonça. Segundo a PF, uma das suspeitas é a de que ele seria um sócio oculto do “Careca do INSS”, lobista apontado como o principal nome do esquema de descontos indevidos de benefícios previdenciários.
Os próprios investigadores, no entanto, afirmam que não há elementos que comprovem uma participação direta de Lulinha no esquema e que seu nome só apareceu na investigação por meio de terceiros.
‘Sicário’
Na noite de quarta (4), foi noticiado que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, um dos acusados de integrar uma milícia pessoal de Vorcaro, teria tentado se matar na prisão da superintendência da PF em Belo Horizonte. As autoridades divulgaram informações conflitantes sobre seu estado de saúde:
- Em um primeiro momento, a PF informou que os médicos haviam iniciado o protocolo de morte cerebral;
- A Secretaria de Saúde, no entanto, disse que ele permanecia em estado grave, mas vivo;
- Mais tarde, a PF voltou atrás e disse que não confirmava o estado de saúde de Mourão;
- O advogado de Mourão também negou que seu cliente tenha morrido. Segundo a defesa, ele continua em estado grave no hospital;
- Procurada nesta sexta-feira, Secretaria de Saúde informou que não poderia fornecer informações sobre o quadro do paciente em respeito à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados). O advogado de Mourão não respondeu aos contatos da reportagem.
A própria PF informou que ele “atentou contra a própria vida enquanto se encontrava sob custódia” e abriu um inquérito para investigar o caso. Segundo o diretor-geral da instituição, Andrei Rodrigues, o atendimento dos policiais foi filmado “sem pontos cegos”.
Mesmo com posicionamento oficial da PF, perfis de direita e de esquerda nas redes passaram a lançar dúvidas sobre a afirmação de que o caso teria sido um suicídio.
Sem apresentar provas, os dois lados alegam que teria se tratado de uma “queima de arquivo”, realizada pela para esconder verdades que manchariam a reputação de políticos do espectro contrário.


A alegação sem comprovação foi compartilhada, inclusive, pelo presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG).
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou publicações virais nas redes sobre o caso do Banco Master e checou quais informações eram baseadas em documentos ou vazamentos da imprensa. No caso de trechos de reportagens destacados de forma descontextualizada, procuramos o texto original e complementamos com informações divulgadas oficialmente.
A reportagem também procurou os documentos oficiais da PF e do STF, mas a maioria está sob sigilo.
ATUALIZAÇÃO: Esta reportagem foi alterada no dia 6.mar.2026, às 12h25, para esclarecer as versões conflitantes sobre o estado de saúde de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão.





