Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

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Ethel Rudnitzki, da Agência Pública

A candidata a deputada federal Rebeca Ramagem (PL-RJ) usou verba de campanha para contratar associados de seu marido, o ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), condenado por participação na trama golpista e hoje foragido. Rebeca está autoexilada nos EUA desde 2025 com a família.

Segundo levantamento da Agência Pública na plataforma DivulgaCand Contas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a campanha repassou mais de R$ 150 mil a ex-assessores e colegas de trabalho de Ramagem.

Os recursos são provenientes de verba pública, a partir do fundo partidário do PL, que repassou R$ 1,5 milhão à campanha de Rebeca.

Desses, R$ 10 mil foram para Aline Laudelina Lopes dos Santos Pires, contratada como coordenadora de equipe. A empresária é irmã do blogueiro Allan dos Santos, condenado por calúnia e indiciado no âmbito dos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos no STF (Supremo Tribunal Federal), sob acusação de lavagem de dinheiro, organização criminosa e incitação ao crime. Aline não é investigada em nenhum procedimento judicial.

Rebeca Ramagem contratou irmã de Allan dos Santos como coordenadora de equipe de sua campanha à deputada federal

Allan dos Santos, que vive nos Estados Unidos e também é foragido da Justiça brasileira, é parceiro de Alexandre Ramagem. Os dois apresentam juntos o canal Revista TimeLine, onde comentam a política brasileira sob a ótica bolsonarista. O canal funciona no YouTube e tem mais de 440 mil inscritos. Em 2025, o canal foi bloqueado no Brasil por ordem judicial e, desde então, só pode ser acessado por VPN. Allan dos Santos e Ramagem compartilham também o endereço de suas empresas nos Estados Unidos: a Timeline US Corporation e a ARBN Villa Corporation estão registradas no mesmo escritório na Flórida.

Aline, que mora no Brasil, também presta serviços para o canal. Em agosto, ela realizou a cobertura da TimeLine do lançamento da candidatura à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL) no Rio de Janeiro, enquanto seu irmão e Ramagem acompanhavam do estúdio na Flórida. Na ocasião, a campanha de Rebeca enviou bonecos de papelão dela e do marido para representá-los no ato.

Contratada pela equipe de Rebeca Ramagem, Aline dos Santos participa do canal de seu irmão Allan dos Santos e de Alexandre Ramagem (Reprodução)

Outros R$ 80 mil da campanha de Rebeca Ramagem foram repassados para a empresa Farol Comunicação Integrada Ltda, para “serviços de marketing”. A empresa pertence a Elisa Brom de Freitas, influenciadora com mais de 580 mil seguidores no X, e também presta serviços para a campanha de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado em Santa Catarina.

Em 2022, Brom foi alvo de ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por publicar desinformação contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na ocasião, seu perfil foi um dos responsáveis por disseminar o boato de que o petista teria desviado presentes dados por chefes de Estado à Presidência durante seus primeiros mandatos.

Rebeca Ramagem contratou empresa de ex-assessora de seu marido acusada de desinformação em 2022

Na época, ela era secretária parlamentar de Alexandre Ramagem, cargo que ocupou até dezembro do ano passado, quando foi exonerada após a cassação dele. Além de Brom, outros seis ex-funcionários do gabinete foram contratados pela campanha de Rebeca Ramagem, com repasses entre R$ 10 mil e R$ 15 mil cada, totalizando R$ 150 mil.

Os contratados operam a campanha de Rebeca do Brasil enquanto ela e o marido estão nos Estados Unidos. A família saiu do país no final de 2025 e se estabeleceu na Flórida, onde aguardam pedido de asilo político. Lá, mesmo com as contas bloqueadas no Brasil, moram em uma casa de alto padrão e abriram empresa para venda de cursos.

Em abril, Ramagem chegou a ser detido pelo Serviço de Imigração dos EUA (ICE, na sigla em inglês) por questões migratórias, mas foi solto dias depois. Em junho, depois de 150 dias sem trabalhar, Rebeca pediu licença de seu cargo de procuradora do Estado de Roraima para se candidatar a deputada.

A candidatura está sob análise do TRE-RJ (Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro). Para o relator do processo, Paulo César Salomão Filho, aceitar a candidatura de Rebeca seria um “tapa na cara no Poder Judiciário”, devido à ligação com o marido condenado. Outros três ministros, no entanto, já votaram pela manutenção da candidatura, formando maioria. O julgamento foi adiado na segunda-feira (15) após pedido de vistas da desembargadora Tathiana de Carvalho Costa.

Outro lado. A Pública questionou a assessoria de Rebeca sobre as contratações de acusados por desinformação, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação.


Esta reportagem faz parte do LIE - Laboratório de Investigação Eleitoral, uma coalizão dos sites Agência Pública, Amado Mundo, Aos Fatos e Núcleo para investigar a desinformação nas eleições de 2026.

Referências

  1. Agência Pública (1 e 2)
  2. CNN Brasil (1 e 2)
  3. STJ
  4. STF
  5. O Estado de S. Paulo
  6. O Globo (1, 2 e 3)
  7. TSE
  8. Aos Fatos
  9. Metrópoles
  10. g1
  11. Uol

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