Entenda por que casos de Covid-19 em vacinados não provam que imunização é ineficaz

Por Priscila Pacheco

30 de setembro de 2021, 16h31

Não é verdade que casos de Covid-19 em pessoas já vacinadas demonstram que a imunização é ineficaz para impedir o contágio. Esse argumento falacioso cresceu entre bolsonaristas após integrantes da comitiva presidencial que foi à abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), nos EUA, terem se infectado. Já imunizados, o ministro Marcelo Queiroga (Saúde) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) foram diagnosticados com a doença depois da viagem.

O presidente Jair Bolsonaro, então, passou a usar esse episódio em uma nova rodada de questionamentos sobre a eficácia das vacinas. "O Queiroga podia tá andando por aí à vontade. Outras pessoas, não. Quem tem mais chances de transmitir o vírus? Eu, atualmente sem vacina, ou o Queiroga, vacinado?", perguntou em uma live no dia 23.

Nenhuma vacina oferece 100% de proteção contra a Covid-19 e isso é informado por todos os fabricantes na documentação entregue aos órgãos reguladores para avaliação. Entre os imunizantes aprovados para uso no Brasil, a CoronaVac tem uma taxa global de eficácia de 50,38% – ou seja, quem recebe as duas doses fica 50,38% menos suscetível à contaminação, em média. A AstraZeneca alcança uma taxa de 82,4%, o imunizante da Pfizer, 95%. A Janssen, imunizante de dose única, tem 66,9% de eficácia.

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Uma série de estudos publicados até o momento indica que vacinados têm menos chance de contrair e disseminar a doença e que, uma vez infectados, a possibilidade de desenvolverem quadros graves ou morrerem é inferior à de indivíduos não imunizados.

Um estudo publicado na revista científica The Lancet em 15 de setembro explica que, como a vacina limita a infecção do vírus - reduzindo a carga viral e os sintomas, como espirros e tosses, que dispersam gotículas que podem conter vírus -, os imunizantes contribuem para prevenir a transmissão da doença.

Embora a imunização contra a Covid-19 seja recente, já existem pesquisas que indicam queda na transmissão do Sars-CoV-2 por causa dela. Um estudo realizado na Escócia avaliou que, em profissionais de saúde, a taxa de contágio caiu de 20,13 a cada 100 pessoas não vacinadas para 8,51 a cada 100 vacinados. Avaliando indivíduos que moram na mesma casa dos profissionais de saúde, a queda foi de 9,40 para 5,93.

Uma pesquisa feita na Inglaterra apontou que a probabilidade de transmissão domiciliar foi até 50% menor em residências de pacientes que tinham sido vacinados 21 dias ou mais antes do teste positivo do que nas casas de não vacinados. Outro estudo, conduzido pelo Imperial College britânico, concluiu que pessoas com as duas doses têm três vezes menos chance de transmitir a doença do que as não imunizadas.

As vacinas também apresentaram resultados positivos para conter o risco de agravamento da doença e de mortes quando usadas massivamente na população. Um estudo realizado pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas) em parceria com a Universidade de Harvard e o Ministério da Saúde, com base em dados de janeiro a maio, concluiu que o avanço da vacinação está relacionado a quedas na proporção de mortes por Covid-19 em idosos no Brasil. Estima-se que 43.802 óbitos podem ter sido evitados na faixa etária a partir de 70 anos por causa da queda na taxa de mortalidade.

Uma análise publicada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em 15 de setembro, ainda sob revisão de pares, apontou variação da efetividade de acordo com a faixa etária para conter casos graves. Entre idosos com mais de 80 anos, por exemplo, as duas doses da CoronaVac são 29,6% efetivas enquanto que a AstraZeneca atinge 66,7%. Por outro lado, entre adultos de 40 a 59 anos, as taxas podem atingir 71% e 90,4%, respectivamente.

Já um estudo feito em Serrana (SP) mostra que, após a imunização de quase 75% da população adulta da cidade com a CoronaVac, foi possível controlar transmissão, internações e óbitos. Segundo o Instituto Butantan, os casos sintomáticos caíram 80%, as hospitalizações foram reduzidas em 86% e, por fim, houve queda de 95% no número de mortes. O projeto ainda deve avaliar a imunidade de longo prazo da vacina.

Em Botucatu (SP), a vacinação em massa com a AstraZeneca resultou em queda de 86,7% de internações em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) no início de agosto. Entre os dias 19 e 25 de setembro, o município registrou a menor média diária de casos da doença desde novembro do ano passado. Foram 15 casos confirmados.

Já um estudo do Ministério da Saúde e Proteção Social da Colômbia com CoronaVac, AstraZeneca, Pfizer e Janssen também apresentou bons resultados na população com mais de 60 anos. De acordo com a publicação, a efetividade das vacinas foi de 69,9% para prevenir hospitalizações e 79,4% para evitar mortes em hospitalizados.

As vacinas da Janssen e da Pfizer já indicavam eficácia contra ocorrências graves, segundo as bulas aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A eficácia da Janssen varia entre 81,6% e 87,6%. A Pfizer apresentou taxa de 95,3%.

Além dessas evidências, o avanço da vacinação não pode servir de pretexto para abrir mão das outras medidas básicas de prevenção contra a Covid-19, como o uso de máscaras, a higienização das mãos e o distanciamento social. Cenas da viagem presidencial a Nova York mostram que essas regras não foram cumpridas à risca.

No dia do discurso na ONU, por exemplo, Bolsonaro cumprimentou e tirou fotos sem máscara aglomerado com apoiadores quando já sabia que Queiroga estava infectado. O presidente e a comitiva, com exceção da primeira-dama Michelle Bolsonaro, também dispensaram as máscaras na visita ao memorial do 11 de Setembro.

Referências:

1. Instituto Butantan (Fontes 1, 2 e 3)
2. Anvisa (Fontes 1, 2, 3 e 4)
3. The Lancet (Fontes 1 e 2)
4. NEJM (Fontes 1 e 2)
5. Imperial College
6. Fiocruz
7. CNN Brasil
8. G1
9. IDS Colômbia
10. IBGE
11. Pfizer
12. Aos Fatos
13. Folha de S. Paulo
14. Poder 360

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