Em vídeo, virologista falseia ao dizer que vacinas de mRNA são tóxicas para crianças

Por Luiz Fernando Menezes

16 de dezembro de 2021, 20h08

Não é verdade que proteínas tóxicas contidas em vacinas contra Covid-19 que usam a tecnologia de mRNA (RNA mensageiro) causam danos ao organismo de crianças, como alega o virologista americano Robert Malone em vídeo que circula nas redes (veja aqui). Os imunizantes induzem a produção de uma versão modificada, e inofensiva, da proteína Spike do novo coronavírus, que não se espalha pelo corpo e é eliminada semanas após a aplicação, segundo as evidências disponíveis e as avaliações de autoridades sanitárias.

Este conteúdo enganoso acumulava ao menos 2.000 compartilhamentos no Facebook nesta quinta-feira (16).


Selo falso

Este gene [contido na vacina de mRNA] força o corpo do seu filho a produzir proteínas spike tóxicas. Estas proteínas costumam causar danos permanentes nos órgãos críticos das crianças.

As evidências disponíveis hoje desmentem a declaração do virologista Robert Malone de que proteínas tóxicas contidas nas vacinas de mRNA causam danos permanentes ao cérebro, ao coração ou aos órgãos reprodutivos de crianças. Esses imunizantes, na realidade, induzem a produção de uma versão modificada e inofensiva da proteína Spike que é encontrada no novo coronavírus para suscitar a resposta imunológica do organismo.

As vacinas de mRNA contém um trecho do material genético do novo coronavírus que, no corpo, leva instruções para que as células produzam em suas superfícies uma proteína Spike semelhante à do Sars-CoV-2. O sistema imunológico, então, detecta a substância e passa a produzir anticorpos para reagir a ela, gerando proteção contra a doença.

A proteína Spike contida na vacina é geneticamente modificada para ser segura e não permanecer por muito tempo no organismo, sendo eliminada em poucas semanas após a aplicação. Deste modo, não é possível afirmar que ela seria tóxica.

“A produção da proteína Spike é limitada e localizada. Os níveis detectáveis da proteína no sangue caem rapidamente conforme os anticorpos começam a ser produzidos pelo organismo”, afirmou Ana Paula Hermann, professora de Farmacologia do ICBS/UFRGS (Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O virologista americano ainda engana ao dizer que essas proteínas modificam geneticamente o vacinado. Nenhuma vacina, incluindo a de mRNA, tem capacidade de penetrar o núcleo das células, portanto, elas não alteram o genoma dos imunizados.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou nesta quinta-feira (16) o uso do imunizante da Pfizer, que utiliza RNA mensageiro, em crianças de 5 a 11 anos. De acordo com o órgão regulador, as informações avaliadas por sua equipe técnica em dados e estudos clínicos indicaram que a vacina é “segura e eficaz” para o público infantil.


Selo falso

Não há benefício para seus filhos ou sua família em vacinar seus filhos contra os pequenos riscos do vírus.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou em comunicado recente que, ainda que as mortes de menores de 25 anos correspondam a menos de 0,5% dos óbitos pela Covid-19 no mundo, a vacinação desse público é importante para evitar a contaminação de crianças com condições preexistentes e diminuir a transmissão do vírus dentro das famílias.

O CDC (Centers for Disease Control and Prevention, órgão do governo dos EUA) também recomenda a vacinação de crianças maiores de 5 anos. Segundo a instituição, a imunização desta faixa etária ajuda a proteger a família – principalmente pessoas que não podem tomar a vacina –, previne casos graves e pode permitir o retorno seguro às atividades presenciais coletivas, como ir à escola ou praticar esportes.

De acordo com o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, publicado no dia 15 de dezembro, o país já registrou 626 óbitos por Covid-19 em crianças menores de cinco anos e 796 óbitos entre 6 e 19 anos, em 2021. A mortalidade da Covid-19 é maior do que a de outras doenças com campanhas vacinais ativas no Brasil, como o sarampo (dois óbitos em 2021) e a meningite pneumocócica (86 óbitos em todas as idades em 2020).


Selo distorcido

Eu queria que você conhecesse os fatos científicos sobre essa vacina genética que é baseada na tecnologia de vacina de mRNA que eu criei.

No começo do vídeo, Robert Malone se identifica como o “criador da tecnologia de vacina de mRNA”. Por mais que, de fato, o virologista tenha sido autor de estudos preliminares sobre a indução de resposta imunológica por meio da injeção de material genético, isso não quer dizer que ele tenha sido o criador da vacina ou da tecnologia, resultados de diversos estudos.

Segundo a revista americana The Atlantic, na década de 1980, Malone foi autor de um artigo sobre a injeção de material genético em células de ratos. Na época, ele era estudante de biologia no Salk Institute, em San Diego. Em 1990, ele também foi co-autor de um outro estudo semelhante. Os artigos produzidos por Malone são considerados referências iniciais dos estudos que, mais tarde, desenvolveram a tecnologia.

Em nenhum momento, no entanto, o pesquisador fez experimentos com humanos. Conforme explica um artigo da publicação científica Nature, as vacinas usadas hoje em dia “têm inovações que foram inventadas anos após o tempo de Malone no laboratório, incluindo RNA quimicamente modificado e diferentes tipos de bolha de gordura para transportá-los para as células”.


Origem. O vídeo que vem circulando nas redes sociais foi gravado originalmente em 12 de dezembro durante o Global Covid Summit, o que se autodenomina uma “associação de médicos que reconhecem o iminente perigo à humanidade trazido pelas políticas da Covid-19”.

Declarações semelhantes de Malone já foram escrutinadas fora do Brasil. O site de checagem americano Politifact, por exemplo, desmentiu uma afirmação do médico de que a proteína Spike era tóxica para as células. Já a rede de informações médicas verificadas Health Feedback esclareceu que ele não é o criador das vacinas de mRNA.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
2. CDC (Fontes 1 e 2)
3. Anvisa
4. OMS
5. Ministério da Saúde (Fontes 1, 2 e 3)
6. FDA
7. Reuters
8. Conass
9. Health Feedback
10. The Atlantic
11. Science
12. Nature (Fontes 1 e 2)


Aos Fatos integra o Third-Party Fact-Checking Partners, o programa
de verificação de fatos da Meta. Veja aqui como funciona a parceria.


De acordo com nossos esforços para alcançar mais pessoas com informação verificada, Aos Fatos libera esta reportagem para livre republicação com atribuição de crédito e link para este site.

Usamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concordará com estas condições.