Não é verdade que a infecção pelo vírus Nipah se assemelha a uma gripe e pode ser curada com o uso do antiparasitário ivermectina ou que as vacinas contra a Covid-19 reduzem a imunidade. Especialistas consultados pelo Aos Fatos desmentiram essas e outras alegações feitas em vídeo publicado nas redes pelo médico Djalma Marques.
As publicações que compartilham o vídeo enganoso somavam 105 mil curtidas no Instagram até a tarde desta quinta-feira (29).
Não é que o vírus [Nipah] é violento, é que as pessoas foram inoculadas [com a vacina contra a Covid-19] com algo que fez o sistema imunológico delas para baixo.

Em vídeo que circula nas redes, o médico Djalma Marques, conhecido como dr. Kefir, dissemina uma série de alegações falsas sobre o vírus Nipah e os imunizantes contra a Covid-19:
- Diferentemente do que alega o médico, as vacinas contra o coronavírus não enfraquecem o sistema imunológico e são uma estratégia comprovadamente eficaz para evitar formas graves da doença;
- O vírus Nipah é considerado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) um patógeno altamente perigoso, com taxas de letalidade que podem variar de 40% a 70%;
- Não há evidências de que o antiparasitário ivermectina seja capaz de combater a infecção pelo Nipah;
- Não tem base na realidade a alegação de que a versão geneticamente modificada da proteína Spike presente nas vacinas de Covid-19 seja danosa ao corpo humano.
De acordo com especialistas consultados pelo Aos Fatos, não é verdade que as vacinas contra a Covid-19 causem qualquer tipo de dano ao sistema imunológico.
“As vacinas são projetadas para estimular e treinar o sistema imune, reduzindo o risco de formas graves da doença”, explicou o médico infectologista e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Leonardo Weissmann.
O especialista afirmou ainda que não há qualquer evidência de que vacinados tenham maior risco em infecções causadas pelo Nipah.
Em entrevista ao Aos Fatos, o infectologista e vice-presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), Renato Kfouri, também negou que haja qualquer relação entre o Nipah e a Covid-19.
“É um vírus local, raro e de transmissão muito mais difícil do que os vírus respiratórios. A chance de pandemia é muito pequena. Não é um vírus que se transmite facilmente de pessoa para pessoa”, disse o especialista.
Os posts também mentem ao alegar que o vírus causa apenas casos leves, similares a uma gripe. O Nipah pode levar pacientes a quadros graves de comprometimento neurológico, com encefalite (inflamação no cérebro), diminuição do nível de consciência, convulsões e, em situações graves, insuficiência respiratória e óbito.
Em surtos anteriores da doença, que ocorrem desde 1999, países do Sul e do Sudeste Asiático registraram taxas de letalidade de 40% a 70%. Esses números são superiores aos da Covid-19.
Se você não tomou algo [vacina contra a Covid-19] você não se preocupe tanto. Você deve fortalecer seu corpo. Vitamina C, selênio, zinco, são fundamentais. E se você pegar você se lembra daquele remedinho de verme, de sarna, que criticaram na tal pandemia, pois é, ivermectina, funciona que é uma maravilha
De acordo com Weissmann, não há evidências de que a ingestão de vitaminas seja capaz de prevenir a infecção pelo Nipah ou de que a ivermectina seja um tratamento eficaz contra a doença.
Até o momento, não há vacina nem tratamento contra o patógeno. Os únicos procedimentos médicos disponíveis são o manejo dos sintomas, como febre, dor de cabeça, dor de garganta e mal-estar.
Weissmann alerta, inclusive, que o uso da ivermectina para viroses sem comprovação adequada pode trazer riscos, além de gerar falsa sensação de proteção.
Ao longo de toda a pandemia de Covid-19, o antiparasitário foi promovido enganosamente como um tratamento eficaz contra a doença.
Apesar de estudos in vitro terem indicado resultados iniciais positivos no combate à infecção, testes clínicos randomizados — considerados o padrão-ouro da pesquisa científica — não apontaram o remédio como um tratamento eficaz.
A pesquisadora Maria Helena Menezes Estevam Alves, do Laboratório de Imunopatologia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) também ressaltou ao Aos Fatos que a suplementação vitamínica só deve ser feita em caso de insuficiência. “Tomar vitaminas sem necessidade pode causar problemas de hipervitaminose e inclusive levar à falência de órgãos e à morte”.
Agora, se você já se injetou [com a vacina contra a Covid-19], então o cuidado tem que ser dobrado. Você precisa urgentemente procurar um médico que lhe ajude a limpar essas bichinhas que estão no seu corpo chamado proteína spike. Elas têm predileção pelo endotélio, que reveste os teus vasos
É mentirosa a alegação de que vacinados contra a Covid-19 têm a proteína Spike circulando em seus corpos e que isso pode ser perigoso para a saúde.
“Não temos a proteína Spike em nosso corpo. Temos um referencial viral para nosso corpo reconhecer partes de determinado vírus e combater ele. Vacinas de RNA mensageiro, por exemplo, levam pequenas informações da parte genética do vírus”, afirmou a pesquisadora Maria Helena Menezes Estevam Alves.
Conforme já explicou o Aos Fatos em outras ocasiões, as vacinas de mRNA produzidas contra a Covid-19 contém um trecho do material genético do coronavírus que, no corpo, leva instruções para que as células produzam em suas superfícies uma proteína Spike semelhante à do Sars-CoV-2.
O sistema imunológico, então, detecta a substância e passa a produzir anticorpos para reagir a ela, gerando proteção contra a doença.
A proteína Spike contida na vacina é geneticamente modificada para ser segura e não permanecer por muito tempo no organismo, sendo eliminada em poucas semanas após a aplicação. Deste modo, não é possível afirmar que ela seria tóxica.
Em entrevista ao Aos Fatos, a biomédica Mellanie Fontes-Dutra explicou que a proteína Spike é como uma peça: sozinha, ela não responde ou forma a imagem toda de uma estrutura completa do vírus.
“O vírus é quem leva a inflamação de tecidos, como o endotélio, o miocárdio, trazendo riscos para acidentes vasculares, inflamações teciduais, entre outros, tanto na fase aguda da Covid-19, quanto para riscos de sequelas”, afirmou.
Por isso, tanto infarto, tanta miocardite, tanto AVC, tanta morte. Procura para limpar você. Não é para tirar o que você injetou? Não tira, tá? Não se iluda. Mas vai ajudar a prevenir os problemas que podem surgir com isso e com o novo vírus que está surgindo.
No vídeo, o médico Djalma Marques não apresenta fontes ou provas de que os casos de morte, infarto, AVC (acidente vascular cerebral) e miocardite cresceram após a vacinação contra a Covid-19.
“‘A narrativa ‘spike = onda de AVC e miocardite’ continua sem base. O que a ciência sustenta hoje é bem mais específico. Miocardite pós-vacina é um evento raro e monitorado. Já ‘Spike causando AVC em massa’ e ‘precisar limpar o corpo’ são alegações sem evidência e típicas de desinformação”, afirmou o infectologista Leonardo Weissmann.
Benedito Fonseca, consultor da SBI e professor da USP (Universidade de São Paulo), explicou que a incidência de miocardite é muito maior em casos de Covid-19 do que em decorrência da vacinação.
O mesmo ocorre com os AVCs, já que a doença causada pelo coronavírus gera predisposição a tromboses, inclusive no sistema nervoso central.
KFR. Em entrevistas a um podcast, o médico Djalma Marques se apresenta como fundador da BioLogicus, uma empresa que fabrica suplementos alimentares à base de Kefir — um probiótico semelhante ao iogurte.
No vídeo, Marques recomenda o consumo do suplemento KFR Real, que é descrito pela própria empresa como um auxílio ao trato gastrointestinal.
O produto é apresentado em diversas combinações de vitaminas e minerais, mas nenhuma delas menciona qualquer benefício imunológico contra a Covid-19 ou o Nipah.
Outro lado. Aos Fatos tentou contato com Djalma Marques, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.
O caminho da apuração
Aos Fatos identificou as principais afirmações feitas pelo médico no vídeo e separou os trechos que tratavam da gravidade do vírus Nipah, dos efeitos das vacinas contra a Covid-19 e das supostas formas de prevenção e tratamento. A reportagem confrontou essas alegações com o conhecimento científico consolidado descrito no próprio texto.
Em seguida, ouvimos especialistas citados para esclarecer como o sistema imunológico responde às vacinas, quais são os riscos reais associados ao Nipah e quais informações não possuem respaldo científico, além de verificar o contexto em que o médico promove suplementos e as alegações associadas a esses produtos.




