Em vídeo difundido por Trump, médica engana ao dizer que cloroquina cura Covid-19

Por Priscila Pacheco, Ana Rita Cunha e Luiz Fernando Menezes

29 de julho de 2020, 18h43


Em um vídeo compartilhado pelo presidente americano Donald Trump, a médica Stella Immanuel desinforma quando diz que a hidroxicloroquina cura a Covid-19 e que o uso de máscaras é desnecessário (veja aqui). Os estudos mais confiáveis divulgados até agora apontam que o antimalárico não tem efeito sobre a doença e pesquisas indicam que máscaras podem reduzir contágio pelo novo coronavírus.

Uma versão legendada da fala de Immanuel passou a circular no WhatsApp e a ser compartilhada por páginas e perfis bolsonaristas no Facebook após Trump twittar o vídeo na segunda-feira (27). A publicação do presidente americano foi excluída pela rede social por conter "informações falsas de tratamento ou cura para a Covid-19". Publicações com o conteúdo enganoso também estão sendo excluídas por YouTube, Facebook e Instagram — caso da cantora Madonna.

No Brasil, vídeos com a fala da médica acumulam ao menos mil compartilhamentos até a tarde desta quarta-feira (29). Todas as publicações foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

Esse vírus tem cura e se chama hidroxicloroquina, zinco e azitromicina.

A médica Stella Grace Immanuel engana ao afirmar em vídeo que circula nas redes sociais que a Covid-19 pode ser prevenida e curada com uso de hidroxicloroquina associada a zinco e azitromicina. Os estudos mais abrangentes feitos até agora apontaram que a droga, sozinha ou combinada a outras, não é eficaz contra o novo coronavírus. Além disso, a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o CDC (Center for Disease Control, órgão americano de saúde) afirmam que ainda não foi descoberto nenhum medicamento que cure a doença.

Sem apresentar evidências, Immanuel disse ter aplicado o coquetel com sucesso em 350 pacientes. No entanto, estudos randomizados com milhares de infectados, que são mais confiáveis do que relatos de casos, contradizem seu argumento.

Um exemplo é o projeto Recovery, maior ensaio clínico do Reino Unido, que deu hidroxicloroquina a 1.542 pacientes com Covid-19, escolhidos aleatoriamente. A situação do grupo foi comparada à de 3.132 infectados que receberam apenas cuidados habituais, e os pesquisadores concluíram que o medicamento não teve efeito sobre a evolução clínica dos participantes. Outro estudo randomizado, feito com 821 pessoas de Estados Unidos e Canadá, testou se a hidroxicloroquina teria algum efeito profilático contra o coronavírus, mas também concluiu que a droga é ineficaz.

Além disso, o fármaco foi retirado do Solidarity Trial, programa de pesquisas com remédios que a OMS coordena com 21 países, por não ter reduzido a mortalidade de pacientes com Covid-19 que eram acompanhados pelos pesquisadores.

Formada na Universidade de Calabar, na Nigéria, e médica em um hospital de Houston, no Texas (EUA), Immanuel já divulgou outros conteúdos enganosos, incluindo teorias da conspiração, como as de que médicos usam DNA de alienígenas em pesquisas e que problemas ginecológicos são causados por sexo com demônios e bruxas.

Outras drogas. Também não há evidências de que a hidroxicloroquina seja eficaz quando associada ao antibiótico azitromicina ou ao zinco, como é citado pela médica.

O uso de azitromicina é objeto de 106 ensaios clínicos em andamento no mundo, mas nenhum resultado foi publicado até agora. Um estudo francês feito com células in vitro (em laboratório) e em primatas indicou que a combinação não funciona como antiviral contra a Covid-19.

Por ser um antibiótico, a droga é recomendada para tratar somente infecções causadas por bactérias, não por vírus, como é o caso da Covid-19. O remédio pode até ser usado em pacientes com coronavírus quando há uma infecção bacteriana associada, mas ele não afeta o Sars-Cov-2, como já explicou ao Aos Fatos o médico infectologista Gerson Salvador.

Por fim, também não há evidências de que o zinco possa curar a Covid-19, como Aos Fatos já explicou em outra reportagem. O virologista Flávio da Fonseca, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), afirma que vitaminas e minerais são componentes importantes para o sistema imunológico, mas não têm ação direta contra o Sars-CoV-2. Além disso, Fonseca ressalta que uma alimentação balanceada já é suficiente para manter um nível saudável de zinco no organismo.

Há uma pesquisa em curso nos Estados Unidos para avaliar o zinco combinado com a vitamina C na redução da duração dos sintomas do novo coronavírus. No entanto, a disponibilização dos primeiros resultados está prevista somente para dezembro de 2020.


FALSO

Você não precisa de máscara. Existe cura!

Como já mencionado, não existe nenhum tratamento específico, cura ou vacina para combater a Covid-19. O argumento da médica para negar a necessidade do uso de máscaras, portanto, não é válido. O Aos Fatos também já explicou (aqui e aqui) que autoridades como o Ministério da Saúde e a OMS recomendam que todas as pessoas, inclusive as saudáveis, usem máscara em todos os ambientes com circulação de pessoas.

Segundo os órgãos, esses equipamentos funcionam como uma barreira física contra gotículas, principais vetores do vírus, e há indícios de que seu uso contribui para a redução do contágio da Covid-19.

A OMS afirma que estudos com outras doenças infecciosas, como a influenza, mostram que “as vantagens potenciais do uso da máscara por pessoas saudáveis ​​na comunidade incluem a redução do risco potencial de exposição da pessoa infectada durante o período 'pré-sintomático'". A organização também cita que uma meta-análise feita pela Lancet que revisou 172 estudos sobre o efeito do uso de máscaras na redução da transmissão do novo coronavírus encontrou indícios que as máscaras podem ajudar a conter a disseminação do novo coronavírus. Até o momento, no entanto, foram feitos apenas estudos observacionais e, portanto, ainda não há resultados conclusivos sobre o tema.

O uso de máscaras não é a única medida essencial para prevenir a contaminação do novo coronavírus. A OMS recomenda que, além das máscaras, as pessoas adotem práticas de higiene e segurança contra a infecção, como lavar as mãos com frequência, manter distanciamento social e evitar a circulação desnecessária nas ruas e em estabelecimentos.


Repercussão. O discurso de Immanuel que circula nas redes sociais foi proferido em uma coletiva de imprensa organizada pelo movimento Tea Party, ala mais à direita do Partido Republicano, em frente à Suprema Corte, em Washington, na última segunda-feira (27). Na ocasião, oito médicos com jalecos brancos criticaram as medidas de isolamento social e defenderam a hidroxicloroquina como cura para a Covid-19.

O vídeo com os discursos dos médicos foi publicado por um site de extrema-direita norte-americano, o Breitbart. Trechos da gravação, incluindo alguns com a fala de Immanuel, foram compartilhados pelo presidente americano, Donald Trump no Twitter, na noite da última segunda-feira (27). A peça de desinformação também foi impulsionada por seu filho, Donald Trump Jr..

As publicações foram excluídas do Twitter por compartilhar "falsa informações de tratamento ou cura para a Covid-19". Por causa do compartilhamento, a rede social também suspendeu a conta de Trump Jr. por 12 horas na terça-feira (28).

No Brasil, páginas e perfis bolsonaristas compartilharam uma versão legendada do trecho com a fala de Immanuel. As gravações têm sido excluídas por Twitter, Facebook e YouTube com a justificativa de que violam as políticas de uso destas plataformas. No Instagram, um post com o vídeo publicado pela cantora Madonna foi deletado.

A exclusão do vídeo e a punição ao filho de Trump também repercutiram nas redes brasileiras entre bolsonaristas. Publicações sobre o assunto foram compartilhadas por sites como Pleno News e Brasil Sem Medo e por congressistas como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro. Em seu perfil oficial no Twitter, o deputado afirmou que “muitos usam a carapuça da ciência para dizer que cloroquina não tem estudo científico (e tem!)”.

O vídeo, que foi compartilhado nas redes sociais americanas, foi checado também por PolitiFact, FactCheck.Org e AFP.

Referências:

1. Aos Fatos 1, 2, 3, 4, 5 e 6
2. OMS 1, 2, 3 e 4
3. CDC
4. Recovery
5. Ministério da Saúde
6. Njm
7. Clinical Trials
8. Heavy
9. Pm News Nigéria
10. NPI
11. Tea Party Patriots
12. CNN
13. BBC
14. PolitiFact

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