Em reação à CPI, bolsonaristas exaltam Pazuello, criticam Renan e defendem 'kit covid' no Twitter

Por Bruno Fávero, Débora Ely e João Barbosa

21 de maio de 2021, 16h54

Na semana em que o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello falou —e mentiu— à CPI da Covid-19, perfis bolsonaristas adotaram duas estratégias predominantes no Twitter para reagir à investigação: retrataram o general como grande vencedor do embate com os senadores e criticaram os membros da comissão, em especial o relator Renan Calheiros (MDB-AL). O grupo ainda usou a aparição do ex-ministro para defender a política do governo federal de promover drogas ineficazes contra o novo coronavírus, aponta levantamento do Radar Aos Fatos.

A análise, baseada em 675.734 tweets publicados entre 19 e 20 de maio, mostra que os perfis alinhados ao presidente Bolsonaro estiveram em minoria no debate sobre a comissão que investiga a atuação do governo federal na pandemia. No total, bolsonaristas (em verde no gráfico abaixo) representaram 22% dos perfis e 35% das interações sobre o tema nos dois dias. O restante da discussão ficou concentrada em outros três grupos, majoritariamente críticos a Pazuello, que reuniram principalmente perfis da oposição, de influenciadores e de veículos da imprensa:

Na esfera bolsonarista, o discurso mais comum foi o de exaltação ao desempenho de Pazuello na comissão, presente em 72 dos cem tweets com mais interações. O tom dessas mensagens foi de reverência ao ex-ministro, chamado de “herói” e “orgulho nacional” por alguns usuários, e de comemoração às suas respostas, que, segundo seus apoiadores, “destruíram narrativas”.

O tweet do influenciador Kim Paim, autor da mensagem mais popular deste grupo, ilustra esse argumento.

Os ataques a senadores de oposição a Bolsonaro também marcaram o discurso de apoiadores do presidente. Das cem mensagens mais populares, 41% dispararam críticas a parlamentares adversários, repetindo o tom adotado pelo próprio presidente. Em sua live semanal na última quinta-feira (20), Bolsonaro disse que senadores “integram uma verdadeira súcia” e os chamou de “jumentos”.

Como ilustra a mensagem acima, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) foi o parlamentar que recebeu o maior número de investidas bolsonaristas no Twitter durante o depoimento de Pazuello. Calheiros foi alvo de 21 tweets críticos entre as publicações mais populares, seguido do presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), de Mara Gabrilli (PSDB-SP) e de Tasso Jereissati (PSDB-CE), com dois ataques.

Já Fabiano Contarato (Rede-ES), Otto Alencar (PSD-BA), Rogério Carvalho (PT-SE) e Simone Tebet (MDB-MS) receberam uma crítica cada. Outros 11 tweets criticaram a CPI de forma genérica, sem mencionar um nome.

'TRATAMENTO PRECOCE'

Parte dos perfis analisados ainda usou o depoimento de Pazuello para defender drogas sem comprovação contra a Covid-19 que são promovidas pela administração de Jair Bolsonaro. O discurso favorável ao "tratamento precoce" apareceu em 12 dos cem posts analisados – alguns deles atribuindo a governadores o estímulo aos medicamentos.

Na CPI, o ex-ministro afirmou que tomou “tudo o que qualquer um podia me falar que tinha que tomar” quando contraiu o coronavírus e justificou os gastos do governo com a cloroquina afirmando, sem apresentar evidências, que ele é usado em 29 países "como Índia, República Tcheca, Venezuela e Cuba".

OPOSIÇÃO

Ao contrário do que aconteceu entre bolsonaristas, o tom dos outros grupos de discussão que se formaram no Twitter foi majoritariamente negativo em relação ao general Eduardo Pazuello. O maior (em laranja no gráfico do começo da reportagem), com 27% do total de perfis, reuniu influenciadores críticos ao governo Bolsonaro, como o advogado Thiago Amparo e o perfil Camarote da CPI.

Já o grupo em azul (19% dos perfis) também foi crítico a Pazuello, mas adotou um tom mais neutro, compartilhando principalmente notícias sobre a comissão. Ele concentrou nomes da grande imprensa, como a jornalista Vera Magalhães, apresentadora da TV Cultura, e o perfil do site G1.

Por fim, em marrom, ficaram 15% dos perfis analisados, vários deles nomes da oposição, como a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-RJ), que chamou Pazuello de "genocida" em um dos tweets mais populares do grupo.

METODOLOGIA

Os tweets foram obtidos por meio de uma busca na API do Twitter por termos relacionados à CPI da Covid-19 e ao ex-ministro Eduardo Pazuello.

Em seguida, os perfis dos autores das mensagens foram divididos em grupos (clusters) por meio do Gephi, software que agrupa usuários de acordo com o nível de interação entre eles — com esse algoritmo, perfis que se retweetaram com frequência tendem a ficar no mesmo grupo.

Depois, foram analisadas individualmente e classificadas as cem mensagens com mais interações (curtidas e retweets) do grupo de apoiadores do governo Jair Bolsonaro.

Referências:
1. Aos Fatos
2. Folha de S.Paulo

sobre o

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