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Em dez anos, PM paulista mata três vezes mais que guerrilhas latino-americanas

Por Bárbara Libório

9 de junho de 2016, 01h15

Juntos, nem as Farc (Forças Armadas Revolucionarias de Colombia) e o Exército de Libertação Nacional, principais guerrilhas armadas da América do Sul, foram mais letais que a polícia militar de São Paulo em dez anos.

De 2004 a 2014, 5.097 pessoas morreram em enfrentamentos com policiais militares em serviço no Estado de São Paulo, segundo as estatísticas trimestrais da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Já grupos considerados terroristas na América do Sul, durante o mesmo período, resultado de ataques de ao menos 10 grupos, matou 1.256 pessoas, segundo dados do GTD (Global Terrorism Database). Ou seja, a Polícia Militar de São Paulo mata em dois anos e meio o que o terrorismo na América do Sul mata em dez.

As estatísticas da secretaria não incluem os enfrentamentos com policiais militares de folga porque, segundo a pasta, até março de 2015, a Corregedoria da Polícia Militar utilizava uma categoria específica denominada “Homicídio doloso — fora de serviço (reações)”, que excluía homicídios dolosos e culposos. Esses números eram divulgados no "Diário Oficial do Estado". Somente a partir de abril de 2015, a PM começou a contabilizar todos os casos de morte em decorrência de qualquer intervenção considerada lícita do policial militar em folga.

Ainda assim, continuam excluídos das estatísticas os homicídios dolosos, inclusive “homicídios múltiplos” — caso das chacinas de 2015 em Osasco e Barueri, na região metropolitana de São Paulo.

Veja, em tabelas, a íntegra da apuração.

Mais letal que as Farc. A guerrilha armada que opera na Colômbia desde 1964 contra o governo baseado em Bogotá — e que é diretamente ligada à produção e ao tráfico de cocaína — foi responsável por 879 mortes no período de 2004 a 2014.

O auge da guerrilha, no entanto, foi 2002, ano em que 325 pessoas foram mortas. No mesmo ano, a Polícia Militar paulista matou 541 pessoas — se incluirmos também as pessoas mortas em decorrência de ação de policiais de folga, o número sobe para 673.

Se considerarmos a média de mortes anuais por enfrentamentos com a polícia militar paulista nesse período (de 2004 a 2014), que é de 476, veremos que a PM de São Paulo mata em menos de dois anos o que as Farc mata em dez. A média de mortos por terrorismo na América do Sul de 2004 a 2014 é de 114.

Os dados da Secretaria de Segurança Pública também mostram que 215 policiais foram mortos em serviço entre os anos de 2004 e 2014.

2015 foi pior que 2006. Em 2015, o número de pessoas mortas pela Polícia Militar de São Paulo superou o ano de 2006, em que o embate entre o grupo de crime organizado PCC (Primeiro Comando da Capital) e a Polícia Militar paulista deixaram 107 pessoas foram mortas em cinco dias. É a quarta vez que isso acontece desde então (o número foi superado em 2009, 2012 e 2014).

Foram 750 pessoas mortas em confronto com policiais militares em serviço e em folga, segundo as estatísticas trimestrais divulgadas pela SSP.

No primeiro trimestre de 2016, 187 pessoas já morreram nesses enfrentamentos.

Metodologia. A base de dados utilizada para elaborar essa reportagem pertence ao National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism, de sigla Start, da Universidad de Maryland, nos EUA, e reúne informações sobre os atentados terroristas que ocorreram entre 1970 e 2014.

O consórcio afirma que a recompilação de dados passou por quatro fases em que se aplicaram diferentes definições de terrorismo. Estão entre elas atos violentos com o objetivos políticos, econômicos, religiosos ou sociais; que incluem a intenção de coagir, intimidar ou transmitir alguma mensagem para um público maior que não as vítimas imediatas; ou que está fora dos preceitos do direito internacional humanitário.

Para esta reportagem também foram utilizadas as estatísticas trimestrais divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Segundo o órgão, nas estatísticas, o item pessoas mortas em confronto correspondem a ocorrências de resistência seguida de morte, registradas pelas polícias. “Ou seja, os criminosos resistem à prisão, entram em confronto com a polícia e acabam mortos durante a troca de tiros”, afirma a pasta em seu site.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa da Polícia Militar de São Paulo na última terça-feira (7) e perguntou qual o posicionamento da instituição em relação os dados apresentados e o alto número de mortes em enfrentamentos com policiais militares comparado ao número de mortos pelo terrorismo na América do Sul. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

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