É falso que vacinas podem gerar reação letal em 30% dos imunizados

Por Marco Faustino

29 de março de 2021, 13h41


Publicações nas redes sociais compartilham um texto que afirma que vacinas contra a Covid-19 devem causar a morte de 30% dos imunizados porque provocam uma "tempestade de citocinas" no corpo (veja aqui). Segundo especialistas ouvidos pelo Aos Fatos, esse fenômeno é uma reação exagerada do sistema imunológico que só ocorre quando há o contato com o vírus vivo, não com vacinas que usam apenas parte de seu material genético, como as citadas no texto. Além disso, esses imunizantes começaram a ser testados em humanos em maio de 2020 e desde então não geraram mortes.

O conteúdo enganoso reunia ao menos 5.300 compartilhamentos no Facebook nesta segunda-feira (29) e foi marcado como FALSO na ferramenta de checagem da rede social (entenda como funciona). A peça de desinformação também circula no WhatsApp, mas, devido à natureza do aplicativo, não é possível estimar seu alcance.


Trinta por cento dos vacinados morrerão dentro de três meses, diz o Dr. Sherri Tempenny

Não é verdade que os imunizantes de tecnologia mRNA contra a Covid-19 provocarão a morte de 30% dos vacinados, como dizem posts nas redes. As publicações compartilham texto do site Tierra Pura que afirma que os óbitos serão causados por “tempestades de citocinas”, o que é falso, porque esta reação grave do sistema imunológico é gerada pelo vírus vivo, não pela vacina. Até o momento, não há registros de mortes causadas pelos imunizantes contra Covid-19, que começaram a ser administrados em humanos em maio de 2020, ou seja, há cerca de dez meses.

Segundo especialistas ouvidos pelo Aos Fatos, as vacinas de mRNA, como as produzidas pela Pfizer e pela Moderna, não dão início a uma “tempestade de citocinas”, que nada mais é do que uma resposta inflamatória excessiva do sistema imunológico frente a uma infecção grave, como a da Covid-19. “Diferentemente da infecção viral, que gera tal tempestade, as vacinas não provocam essa reação. Quem gera a tempestade é o vírus vivo, não qualquer vacina”, disse Rodolfo Bacelar, pneumologista e médico do sono pelo HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

A peça de desinformação diz que as vacinas fazem com que a proteína spike (elemento pelo qual o vírus se conecta às células do corpo humano) se replique indefinidamente e em grande quantidade. Porém, de acordo com o pneumologista Rodolfo Bacelar, apenas uma parte da proteína é replicada de maneira isolada, por um período limitado, e não tem qualquer papel na infecção. “O risco é o vírus vivo, ativo. Não apenas parte dele, que, isolada, serve somente para este treinamento do sistema imune”, diz.

Conforme já checado pelo Aos Fatos, os imunizantes fornecem apenas instruções temporárias para que nossas células produzam um pedaço inofensivo da proteína spike, que é encontrada na superfície do novo coronavírus. Essa proteína gera uma resposta do organismo contra o vírus, produzindo anticorpos para combatê-lo.

O biólogo molecular e membro do Observatório Covid-19 BR Raphael Parmigiani também reforçou que o mRNA é introduzido de maneira limitada no corpo por meio da vacina. “Não tem como o corpo sair produzindo mais resposta contra o vírus do que o desejado. A dose da vacina foi calculada justamente para evitar uma super resposta imune”, diz o biólogo.

Ensaios clínicos. A microbiologista e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) Laura de Freitas disse ao Aos Fatos que se existisse qualquer possibilidade de uma vacina de mRNA causar a reação citada na peça de desinformação, isso teria sido observado nas fases de testes do imunizante, que começaram em maio de 2020 em humanos.

“Juntando todas as pessoas envolvidas nos testes da Pfizer e Moderna dá mais de 100 mil pessoas, e não tem um caso sequer desses problemas relatados. Apenas alguns poucos casos de reação alérgica, que foi uma reação ao polietilenoglicol, um conservante, e não à vacina em si”, diz.

Mortes. Segundo o CDC (Centers for Disease Control, órgão de saúde do governo americano) já foram aplicadas mais de 126 milhões de doses de imunizantes contra a Covid-19 nos EUA e, de 14 de dezembro de 2020 a 22 de março de 2021, foram relatados 2.216 casos de morte (0,0018%) entre os vacinados.

Porém, uma revisão das informações clínicas disponíveis, incluindo atestados de óbito, autópsia e registros médicos, feita por médicos do órgão e da FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora de medicamentos e alimentos do governo americano), não revelou evidências de que a vacinação tenha contribuído para a morte dessas pessoas.

Desinformação. O texto do Tierra Pura atribui a desinformação sobre a morte de vacinados à médica americana Sherri Tempenny, uma conhecida ativista antivacina. Em fevereiro, ela teceu comentários enganosos sobre o funcionamento de imunizantes de mRNA em uma entrevista publicada na plataforma de vídeo BiChute, que já foi apontada por pesquisadores norte-americanos como uma alternativa utilizada pela extrema-direita no país. Durante a entrevista, no entanto, Sherri não fornece uma porcentagem específica sobre mortes.

Outro lado. Procurado pelo Aos Fatos, o site Tierra Pura não retornou o contato.

Esta peça de desinformação também foi checada pela Agência Lupa e Boatos.org

Referências:

1. Aos Fatos
2. CDC (Fontes 1 e 2)
3. Mashable
4. Agência Lupa
5. Boatos.org


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