Não é verdade que a tornozeleira eletrônica de Jair Bolsonaro (PL) estava contaminada com o material radioativo césio-137. De acordo com as informações do fabricante, o composto não é usado no dispositivo. As peças de desinformação alegam que a presença do material teria sido responsável pelos danos à tornozeleira do ex-presidente, mas especialistas afirmam que isso não é possível.
As peças de desinformação acumulavam 310 mil visualizações no TikTok, 50 mil visualizações no Kwai, 15 mil visualizações no YouTube e 2.000 compartilhamentos no Facebook até a tarde desta quarta-feira (3).
QUEM TENTOU MATAR BOLSONARO NOVAMENTE? Césio-137 gera calor através do seu decaimento radioativo, e esse calor pode aquecer o ferro ou qualquer material que o contenha ou esteja próximo a ele. O que faz todo sentido dizer que Bolsonaro tentou violar a tornozeleira, o que pode ter ocorrido com a contaminação por Césio-137.

Posts nas redes têm compartilhado a mentira de que a tornozeleira eletrônica usada por Bolsonaro teria sido contaminada por césio-137. Além de a presença do material radioativo não constar nas especificações do fabricante, especialistas descartam a hipótese de contaminação.
O dispositivo usado pelo ex-presidente foi fabricado pela UE Brasil Tecnologia, que vendeu os equipamentos por meio de licitação para a Seape-DF (Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal). Entre as características do aparelho citadas pela empresa, não consta o uso de césio-137 ou de qualquer outro material radioativo.
De acordo com as peças enganosas, a presença do composto teria sido responsável pelos danos causados à tornozeleira eletrônica do ex-presidente. Os posts alegam que o material emitiria calor, o que teria gerado as marcas de queimadura na tornozeleira. Em entrevista ao Aos Fatos, no entanto, o químico Marcos Aurélio Francisco, doutorando pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), descartou a hipótese.
De acordo com o especialista, apesar de a radiação emitida pelo césio-137 ser ionizante, a substância não gera muito calor. “Você precisaria de uma massa muito grande do elemento para gerar calor suficiente para fundir um dispositivo plástico”, explicou.
O químico citou o acidente radiológico de Goiânia, ocorrido em 1987, em que milhares de pessoas foram expostas ao césio-137. Muitos sofreram radiodermites — queimaduras que apareceram dias ou semanas após a exposição em razão do efeito da absorção de energia das radiações pelas moléculas do corpo humano, não por calor (energia térmica).
Não há qualquer informação de que Bolsonaro, que usava tornozeleira eletrônica há cerca de cinco meses, tenha sofrido qualquer episódio de radiodermites ou queimaduras por calor decorrentes do uso do equipamento.
Em relatório divulgado em novembro, a Seape-DF afirmou que a tornozeleira eletrônica de Bolsonaro foi violada externamente. Questionado, o próprio ex-presidente afirmou ter usado ferro de solda para tentar romper o dispositivo.
Uso na medicina. O césio-137 pode ter um aspecto visual semelhante ao sal de cozinha e brilhar na cor azul a depender da quantidade de radiação presente no objeto. A substância é usada de forma controlada e segura em dispositivos médicos de radioterapia, em instrumentos industriais de medição de pressão e em equipamentos que medem a espessura de materiais como papel ou chapas metálicas.
O caminho da apuração
A reportagem consultou documentos oficiais da Seape-DF para verificar informações sobre o estado do dispositivo e o fabricante responsável pelo equipamento. Também analisamos dados de licitação e especificações técnicas divulgadas pela empresa que produz as tornozeleiras.
Além disso, Aos Fatos entrevistou um pesquisador da área de química para esclarecer o funcionamento do césio-137 e avaliar sua capacidade de produzir calor. A checagem incluiu ainda a pesquisa de registros e efeitos conhecidos de exposição ao material para comparar com relatos de usuários em situações documentadas.




