É falso que Michigan registrou 138 mil votos consecutivos para Biden e nenhum para Trump

Por Luiz Fernando Menezes

5 de novembro de 2020, 14h53

A apuração das eleições americanas em Michigan não registrou 138 mil votos a mais de uma só vez para o candidato democrata, Joe Biden, e nenhum para o presidente Donald Trump, como afirmam posts nas redes sociais (veja aqui). A imagem compartilhada com esta alegação mostra, na realidade, um erro de digitação: um zero a mais foi inserido no número enviado pelos contadores de um condado do estado à plataforma Decision Desk HQ, que traz a apuração em tempo real. O dado foi corrigido em seguida.

Nos EUA, esta peça de desinformação chegou a ser compartilhada por Trump e, aqui no Brasil, foi amplificada pelo youtuber bolsonarista Bernardo Kuster. No Facebook, publicações com a informação enganosa acumulavam ao menos 1.500 compartilhamentos na tarde desta quinta-feira (5) e foram marcadas pelo Aos Fatos com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

Se isto não é fraude, eu não sei o que é. Do nada, foram computados 138.000 votos SOMENTE para Biden em Michigan, onde Trump vencia com boa margem. Deste lote de votos, nenhumzinho foi para qualquer outro candidato. Isso é impossível. Trump TEM DE judicializar Michigan.

Ao sustentar que há fraude nas eleições presidenciais dos EUA, publicações enganam ao dizer que dados da apuração em Michigan indicariam que Joe Biden ganhou 138 mil votos consecutivos e Donald Trump, nenhum. Os dados destacados na imagem veiculada pelos posts são fruto de um erro de digitação ⏤ já corrigido ⏤ da contadora, que botou um zero a mais no número enviado para uma plataforma que acompanha a apuração em tempo real.

A Decision Desk HQ, que exibiu o dado apontado na peça de desinformação, explicou que os 138 mil votos foram decorrentes de um erro ocorrido na manhã da última quarta-feira (4): “Houve um erro administrativo nos dados presidenciais do condado de Shiawassee, MI. Assim que identificamos o erro, limpamos os dados incorretos e os atualizamos com os dados corretos fornecidos pelos funcionários”.

Segundo o New York Times, uma das contadoras colocou um zero a mais nos dados enviados para a plataforma. Quando ela foi reportar o total de votos democratas, enviou 153.710 votos em vez de 15.371. Cerca de 20 minutos depois da atualização, os oficiais eleitorais alertaram sobre o erro, que foi corrigido.

O jornal americano lembrou ainda que, mesmo se os dados não tivessem sido corrigidos, eles não são oficiais. Na contagem oficial, um time de dois republicanos e dois democratas revisam os números e confirmam os votos antes de serem computados.

Outro indício de que não houve o registro de 138 mil votos para Biden é que outras fontes não mostraram esse aumento. A AP, que atualiza os números estaduais de hora em hora, não registrou dados similares entre o dia da eleição e a última quarta-feira (4). Até a última atualização da agência, Biden tinha uma vantagem de quase 150 mil votos.

Os resultados das eleições americanas divulgados também não são oficiais. Os números são projeções de veículos de imprensa e plataformas com base nas informações apuradas pelas suas equipes. Com a pandemia, houve recorde de votos por correio neste ano, o que pode atrasar a atualização das estimativas.

Algumas versões da peça de desinformação citam como fonte um artigo do site conservador Red State, que afirmava que os 138 mil votos encontrados seriam um “milagre” para Biden. O texto, no entanto, foi atualizado para acrescentar que se tratava de um erro da plataforma utilizada para visualizar os dados.

A mesma peça de desinformação foi desmentida nos EUA por diversos veículos, como Vox, New York Times e Lead Stories. No país, a desinformação começou a circular na manhã da quarta-feira (4) e chegou a ser compartilhada pelo próprio presidente Donald Trump.

Aqui no Brasil, postagens com o conteúdo enganoso ganharam força principalmente após terem sido publicadas pelo youtuber Bernardo Küster em suas redes sociais e, mais tarde, compartilhada pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Procurado pelo Aos Fatos, Küster discordou da classificação da checagem e disse que a informação divulgada seria “no máximo sem contexto”.

Referências:

1. DDHQ
2. Twitter (@DecisionDesqHQ)
3. New York Times
4. Red State
5. Twitter (@realDonaldTrump)

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