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É falso que ivermectina seja mais eficaz que vacinas contra Covid-19

Por Luiz Fernando Menezes

24 de março de 2021, 15h28

Não é verdade que um estudo publicado por pesquisadores britânicos mostrou que a ivermectina seja mais eficaz do que as vacinas no combate à Covid-19. A peça de desinformação que circula nas redes (veja aqui) distorce as conclusões de uma metanálise que, além de ainda não ter passado por revisão científica por pares, afirma que não é possível garantir a eficácia da droga. Consultados pelo Aos Fatos, especialistas explicaram que é duvidosa a comparação entre remédios e imunizantes.

O texto ainda desinforma ao deturpar outros dois estudos e os posicionamentos do FDA (Food and Drugs Administration, órgão regulador do governo americano) e da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a ivermectina para tentar sugerir um consenso entre cientistas. Até o momento, não há evidências científicas de que a droga seja benéfica no tratamento da Covid-19.

A peça de desinformação conta com ao menos 2.000 compartilhamentos nesta quarta-feira (24) no Facebook e foi marcada com o selo FALSO na ferramenta de verificação da plataforma (saiba como funciona).


IVERMECTINA supera vacinas: mais de 83% de eficácia contra a Covid-19, revela a ciência

Circula nas redes sociais um texto que afirma que a ciência teria provado que a ivermectina seria mais eficaz do que as vacinas no combate à Covid-19. A afirmação se baseia em uma metanálise - síntese que compila resultados de outros estudos - que ainda não passou por revisão científica e não pode ser considerada conclusiva para tecer comparações ou estabelecer a eficácia da droga. O próprio estudo também conclui que não há evidências robustas para determinar que o remédio funcione contra a infecção.

A metanálise em questão foi compilada pelo grupo International Ivermectin Project Team e publicada em janeiro de 2021 no Research Square, plataforma de estudos ainda não revisados por pares. Por mais que a pesquisa citada tenha, de fato, apontado certos benefícios da ivermectina no tratamento da Covid-19, em nenhum momento o medicamento é apresentado como mais eficaz do que as vacinas.

O artigo difundido nas redes afirma que “esta metanálise de 18 ensaios clínicos randomizados em 2.282 pacientes mostrou uma melhora de 75% na sobrevida, tempo mais rápido para a recuperação clínica e sinais de um efeito dependente da dose de depuração viral para pacientes que receberam ivermectina versus tratamento de controle”. A análise sustenta ainda que pessoas que tomaram o medicamento teriam taxa de sobrevivência 83% maior do que as que não tomaram.

Mas, diferentemente do que afirmam as postagens, a metanálise deixa claro que não há evidências robustas para determinar a eficácia da ivermectina no tratamento da Covid-19 e sinaliza a necessidade de mais estudos.

Problemas. Especialistas consultados pelo Aos Fatos apontaram que a metanálise tem falhas metodológicas. O primeiro problema é a utilização de artigos que não passaram por revisão por pares e de outros que sequer foram disponibilizados como preprints. Dos 18 estudos incluídos na revisão, apenas cinco haviam sido publicados em revistas científicas.

Consultado pelo Aos Fatos, Márcio Bittencourt, cardiologista da USP (Universidade de São Paulo) e colaborador do IQC (Instituto Questão de Ciência), aponta outra limitação do estudo britânico: os artigos analisados são muito diferentes e não poderiam ser comparados entre si. A análise agrega, por exemplo, pesquisas que analisaram a duração de hospitalizações a estudos sobre mortalidade.

A comparação feita pela peça de desinformação, publicada originalmente pelo site Coletividade Evolutiva, também é incorreta: ainda que a metanálise não apresentasse falhas metodológicas, não é possível comparar a taxa de sobrevivência à Covid-19 ao índice de eficácia das vacinas.

“Não é simples avaliar a eficácia de um medicamento em comparação com uma vacina, pois necessariamente elas precisariam fazer parte de um mesmo estudo que comparasse seus valores de eficácia dentro da mesma amostragem populacional”, explicou o microbiólogo e colaborador do Rede Análise Covid Mateus Falco.

OUTROS ESTUDOS

Além da metanálise dos pesquisadores britânicos, o texto do Coletividade Evolutiva usa outros dois estudos para sustentar que a ciência já teria demonstrado a eficácia da ivermectina no tratamento da Covid-19. Nenhum deles, no entanto, é suficiente para provar que o medicamento consegue tratar a infecção.

Um deles é um artigo que Aos Fatos já abordou em checagem anterior. É uma metanálise de 30 estudos produzida pelo FLCCC (Front Line Covid-19 Critical Care Alliance), grupo de médicos americanos que defende "tratamento precoce", que diz que a ivermectina teria sido capaz de reduzir em 75% os casos de Covid-19. A pesquisa, no entanto, não foi publicada em revista científica e chegou a ser recusada pelo periódico Frontiers of Pharmacology por citar artigos sem relevância e com falhas metodológicas.

O outro estudo citado teria sido publicado “há poucos dias” por um grupo de pesquisadores australianos na revista Antiviral Research. De acordo com a peça de desinformação, a pesquisa teria comprovado “a capacidade da ivermectina de eliminar o vírus Covid-19 em 48 horas após a infecção em células humanas”. Tal estudo, no entanto, não é recente, mas de abril de 2020 e foi feito apenas com células humanas em um ambiente controlado de laboratório, o que não garante eficácia clínica.

Conforme o próprio artigo australiano explica, os resultados encontrados não indicam a eficácia ou sequer a segurança da ivermectina no tratamento da Covid-19. Os autores apenas sugerem que devem ser realizadas outras investigações para identificar possíveis benefícios aos seres humanos.

ENTIDADES

Além de distorcer o conteúdo de estudos, o Coletividade Evolutiva ainda deturpa o posicionamento de entidades como a FDA e a OMS sobre a ivermectina. Segundo o texto, “em 2020 a própria agência reguladora americana, FDA, reconheceu a Ivermectina como um tratamento eficaz contra a Covid-19”. Isso, no entanto, não é verdade: a recomendação da agência é de que as pessoas não tomem o medicamento, porque ele não tem ação antiviral e pode ser danoso em grandes doses.

Já a OMS aparece no texto quando é citada a Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da Organização. De acordo com o Coletividade Evolutiva, o fato de a ivermectina constar na lista provaria que o medicamento seria “essencial para a saúde”. Mas o composto é listado somente como indicação contra vermes e parasitas, sem qualquer menção à Covid-19.

Outro lado. Em nota enviada ao Aos Fatos, o Coletividade Evolutiva afirma que a ivermectina já possui eficácia comprovada contra a Covid-19 e que é possível comparar o efeito do medicamento com as vacinas. “Qualquer um que tenha um mínimo de raciocínio lógico, pode ver através da medicina por evidências, que a ivermectina cura a Covid-19 além de prevenir, enquanto que as vacinas simplesmente possuem uma taxa medíocre e ridícula de suposta proteção”, afirmou.

Referências:

1. Research Square
2. CNN Brasil
3. Aos Fatos
4. Frontiers in Pharmacology
5. Science Direct
6. FDA
7. OMS (1 e 2)


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