É falso que imagem da Nasa prova que Amazônia não está 'em chamas'

Por Luiz Fernando Menezes

31 de julho de 2020, 19h23


Uma imagem de ferramenta da Nasa que monitora focos de calor no planeta tem sido difundida como se fosse uma prova de que a Amazônia não está "em chamas" como teria sido noticiado pela imprensa (veja aqui). No entanto, a fonte dos dados destacados pela mídia, que reportou o aumento das queimadas na região em junho, não foi a agência espacial americana, mas o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que usa um número maior de satélites neste tipo de monitoramento.

Além disso, enquanto a imprensa abordou o número de focos de incêndio em todo o mês de junho, o maior para o mês desde 2007, a imagem difundida registra apenas os dados de um único dia (18 de julho). Um especialista ouvido pelo Aos Fatos explicou, ainda, que os países têm diferentes calendários de queimadas e, por isso, não faz sentido minimizar a situação da Amazônia ao compará-la com a de outros lugares, como também faz a peça de desinformação.

Publicada pelo site Revista Oeste no dia 20 de julho, a desinformação ganhou tração nas redes ao ser difundida por deputados federais da base do governo Bolsonaro. Juntas, as publicações acumulam mais de 12 mil compartilhamentos no Facebook até a tarde desta sexta-feira (31) e todas elas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação disponibilizada pela rede social (saiba como funciona).


FALSO

Imagem da Nasa prova que a Floresta Amazônica não está em chamas.

Não é verdade que uma imagem da ferramenta da Nasa que identifica focos de calor no planeta é a prova de que, diferentemente do que foi noticiado pela imprensa, a Amazônia não "está em chamas". O dado destacado na mídia de que junho teve o maior registro de queimadas para o mês na região desde 2007 foi fornecido pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que usa mais satélites que a agência espacial americana neste tipo de monitoramento.

Retirada do Firms (Fire Information for Resource Management System), a imagem que tem sido difundida também mostra apenas os pontos de queimadas em um único dia (18 de julho) enquanto a informação que foi noticiada se refere a todo o mês de junho, quando foram detectados 2.248 focos ativos no bioma, segundo o Inpe. Quando selecionado o mesmo período no sistema da Nasa, é possível ver mais pontos de calor na Amazônia, especialmente quando a imagem é aproximada sobre a região (delimitada em branco na imagem abaixo).

O Firms usa quatro satélites para monitorar pontos de calor em todo o planeta. Já o Programa Queimadas, do Inpe, reúne dados de nove satélites, incluindo os usados pela Nasa. Veja abaixo os focos de incêndio identificados pelo projeto no bioma amazônico entre os dias 1º e 30 de junho deste ano.

Comparações entre países. Publicada originalmente pelo site Revista Oeste, a peça de desinformação também minimiza a situação das queimadas na Amazônia ao comparar o volume de focos de incêndio detectados nela e em outros países. Pesquisador do Imazon, instituto de pesquisa que monitora a Amazônia e publica boletins sobre o desmatamento na região, Antônio Victor Fonseca apontou que esse é um argumento falho, porque cada região possui uma dinâmica diferente de queimadas.

Segundo Fonseca, a temporada de fogo na Amazônia é em agosto e setembro, quando o clima da região fica mais seco e quente, intensificando o incêndios florestais. Já na região central da África, por exemplo, os incêndios são comuns nesta época do ano.

Disseminação. Publicado no dia 20, o texto da Revista Oeste acumulava mais de 62 mil interações no Facebook até a tarde desta sexta-feira, segundo a ferramenta Crowd Tangle. A desinformação foi impulsionada por dois deputados: Filipe Barros (PSL-PR) e Bia Kicis (PSL-DF), que compartilharam a desinformação em suas redes sociais.

O presidente Jair Bolsonaro, em sua live do dia 23 de julho, também fez uma alegação semelhante usando fotos da ferramenta da Nasa. “Olhe uma foto aqui de satélites da Nasa. Compare aqui, está em vermelho, os focos de calor, de incêndio, compare os focos de incêndio do Brasil e a parte subsaariana. Na região amazônica não tem nada vermelho. A floresta [amazônica] não pega fogo”, disse ao mostrar a imagem.

Outro lado. Nesta terça-feira (4), a Revista Oeste enviou um e-mail ao Aos Fatos em que afirma que “jamais usou o satélite da Nasa para contestar os dados do Inpe”, mas “para mostrar como a Floresta Amazônica, bem diferente do que tem sido divulgado pela chamada grande imprensa, não está em chamas - por isso as manchetes destacadas no início do texto”. Porém, todos os enunciados (veja abaixo) estão respaldados pelos dados apurados pelo Inpe no bioma em junho desde 2007.



A Revista Oeste afirma ainda que a sua publicação usou como fonte um texto que cita o pico de queimadas em 2004 ao alegar que “a Amazônia realmente não estava nem está em chamas”. De fato, na série histórica do Inpe, o recorde de incêndios no bioma em junho foi registrado naquele ano (9.179 focos ativos), mas, novamente, as reportagens citadas no texto checado se referem ao mês desde 2007.

Referências:

1. Nasa (Fontes 1, 2 e 3)
2. Inpe (Fontes 1, 2 e 3)


*Esta checagem foi atualizada às 19h30 de 4 de agosto de 2020 para incluir a resposta enviada pela Revista Oeste.

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