É falso que Exército descobriu 10 mil fazendas de traficantes na Amazônia

Por Luiz Fernando Menezes

29 de setembro de 2020, 15h39


Não é verdade que o Exército descobriu 10 mil fazendas ligadas ao narcotráfico, ao tráfico infantil e à extração de minérios na Amazônia, como afirmam postagens nas redes sociais (veja aqui). Tal alegação, que acusa ainda o ex-presidente Lula (PT) de ter vendido a região a ONGs, não foi confirmada pela corporação nem encontra respaldo no noticiário.

Além disso, as fotos que ilustram as postagens foram empregadas fora de contexto: duas delas são recentes, mas não mostram operações similares à citada no texto, e as outras duas sequer foram tiradas no Brasil.

Esta peça de desinformação acumulava ao menos 2.000 compartilhamentos no Facebook na tarde desta terça-feira (29) e foi marcada com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (entenda como funciona).


FALSO

LULA VENDEU A AMAZÔNIA E BOLSONARO NÃO ENTREGOU!! EXÉRCITO BRASILEIRO DESMANTELA 10 MIL FAZENDAS do NARCOTRÁFICO, TRÁFICO DE CRIANÇAS E MINÉRIOS..apreende toneladas de minérios e madeiras.. É o começo do FIM das PSEUDO ONGS financiadas pelo FORO e SÃO PAULO e comandadas pela esquerda brasileira capitaneada pelo MADURO DO CARTEL DO SOL..Por isso, a IMPRENSA abriu guerra contra o governo Bolsonaro..! Isso a imprensa NÃO MOSTRA!! Fotos exclusivas.

Não há quaisquer indícios de operações do Exército na Amazônia que tenham descoberto 10 mil propriedades ligadas ao narcotráfico, ao tráfico infantil e à extração ilegal de minérios na região, tampouco que a existência dessas “fazendas” seria resultado de ações do ex-presidente Lula (PT), de ONGs ou de partidos de esquerda, como alegam as postagens.

Em nota, o Exército afirmou que todas as suas operações, “bem como os resultados obtidos, são os divulgados no site da Força”. Em busca nas notas divulgadas na página, entretanto, não há nenhum registro semelhante.

O Aos Fatos pesquisou por notas sobre a atuação dos militares em operações que citavam “narcotráfico” na Amazônia e só encontrou registros de 2018 para trás. Há notícias recentes sobre apreensão de drogas na região, mas nenhuma que tenha resultado na descoberta de 10 mil fazendas, como alega a postagem.

O único resultado com as palavras “tráfico infantil” é de agosto de 2011, quando o então secretário extraordinário de Segurança para Grandes Eventos, José Ricardo Botelho de Queiroz, anunciou os planejamentos para a Copa do Mundo de 2014, a visita do Papa ao Rio de Janeiro e a Olimpíada. Naquela ocasião, Queiroz disse que uma das preocupações era de que “os grandes eventos estimulem a prostituição e tráfico infantil”.

O Aos Fatos também buscou por “10 mil fazendas” e “10 mil propriedades” no site do Exército e só encontrou um artigo publicado em maio de 2011. De acordo com o texto, que falava sobre a regularização de casas na Fazenda Imperial de Santa Cruz, cerca de 10 mil propriedades no município de Seropédica (RJ) tinham problemas como falta de títulos de posse.

Fotos. A peça é ainda acompanhada de seis fotos que seriam “exclusivas” e supostamente provas das operações do Exército. O Aos Fatos encontrou a origem de quatro delas por meio de busca reversa. Nenhuma foi registrada em operações semelhantes à citada e algumas nem foram tiradas no território brasileiro.

A primeira, que mostra soldados dentro de embarcações, foi publicada no site das Forças Armadas no dia 2 de junho de 2020. Segundo a notícia, trata-se de um registro da Operação Brigadeiro Sampaio, que tinha o objetivo de desmantelar um garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso. Cinquenta e três pessoas foram detidas, seis presas e cerca de R$ 1,5 milhão de prejuízo ao garimpo graças à operação.

Já a imagem de um helicóptero sendo vigiado por três militares é de maio deste ano. Ela ilustra uma nota do Exército sobre as bases estabelecidas na Amazônia durante a Operação Verde Brasil 2. Os únicos resultados divulgados no texto são a apreensão de maquinários usados para extração ilegal de manganês em Marabá (PA).

Uma das fotos nem sequer mostra militares brasileiros, mas integrantes da Marinha americana. A imagem registra dois homens do setor especializado em descarte de material explosivo e foi publicada na página oficial de um dos grupos no dia 22 de agosto deste ano.

Por fim, a imagem que mostra um depósito cheio de barras de ouro também não foi registrada no Brasil. Por mais que o Aos Fatos não tenha encontrado a autoria da foto nem conseguido confirmar o contexto, a imagem ilustra principalmente textos sobre as reservas de ouro no depósito de Fort Knox, nos Estados Unidos, desde abril de 2008.

Referências:

1. Exército Brasileiro (Fontes 1, 2, 3, 4, 5 e 6)
2. Facebook (EODGRU2)
3. TinEye

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