É falso que estudo de Stanford concluiu que máscaras são ineficazes contra Covid-19

Por Priscila Pacheco

27 de abril de 2021, 16h33

É falso que a Universidade de Stanford, nos EUA, concluiu em estudo que não há evidências de que máscaras protejam contra a Covid-19, como afirmam posts nas redes sociais (veja aqui). A alegação enganosa foi baseada em um artigo não revisado por outros cientistas e produzido por um pesquisador sem qualquer vínculo atual com a instituição de ensino californiana, que recomenda o uso da proteção para evitar o contágio pela doença.

Esta peça de desinformação reunia centenas de compartilhamentos nesta terça-feira (27) e foi marcada com o selo FALSO na ferramenta de verificação do Facebook (veja como funciona).


Resultados do estudo de Stanford. Máscaras faciais são ineficazes para bloquear a transmissão de Covid-19 e realmente podem causar deterioração da saúde e morte prematura

Postagens que têm circulado nas redes sociais enganam ao afirmar que a Universidade de Stanford, nos EUA, publicou um estudo em que conclui que máscaras são inúteis para bloquear a transmissão de Covid-19 e que podem ainda prejudicar a saúde. Além de a instituição negar que tenha feito tal pesquisa e que exista vínculo com o autor, não foi encontrado nenhum artigo nesse sentido na página de produções acadêmicas da universidade. Em nota publicada no dia 21 de abril no Twitter e no site oficial, Stanford ressaltou o apoio ao uso de máscaras para controlar a disseminação da Covid-19.

O texto destacado nas postagens foi publicado por Baruch Vainshelboim em novembro do ano passado no Medical Hypotheses, fórum que se propõe a veicular artigos teóricos para fomentar a diversidade no debate científico. Nele, ao afirmar que não existem evidências da eficácia das máscaras, o autor se vale de uma mistura entre estudos e metanálises (sínteses de resultados de pesquisas) sem apresentar os critérios de seleção do material.

Além disso, diferentemente do que alegam as postagens checadas, o material não foi revisado por outros cientistas, etapa que daria maior solidez ao conteúdo. Vainshelboim foi o único responsável pela conceituação, curadoria de dados e redação do artigo, conforme consta no tópico de declaração de contribuição de autoria.

Baruch Vainshelboim é formado em educação física, tem mestrado em fisiologia e atuação em reabilitação pulmonar e cardiovascular, segundo seu perfil no LinkedIn. Ele chegou a integrar o departamento de cardiologia do VAPAHCS (Veterans Affairs Palo Alto Health Care System), hospital ligado à Universidade de Medicina de Stanford, como pesquisador visitante por um ano, mas o vínculo foi encerrado em 2016, segundo a instituição.

Na Researchgate, base de cientistas, o pesquisador é ainda descrito como integrante do Instituto Pulmonar, no Centro Médico Rabin, em Israel. Procurado por Aos Fatos, ele não respondeu até a publicação desta checagem, na tarde desta terça-feira (27).

Evidências. Em junho do ano passado, uma metanálise de 172 estudos observacionais revisados por pares e publicada na revista The Lancet por pesquisadores da Universidade McMaster, no Canadá, concluiu que máscaras têm grande potencial para reduzir o risco de infecção. Já uma publicação feita em julho por cientistas da Universidade da Califórnia e da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg no Journal of General Internal Medicine apontou redução da carga viral recebida por quem costuma usar proteção.

Existem ainda revisões publicadas em janeiro pela Academia Nacional de Ciências dos EUA e em fevereiro de 2021 na revista científica Jama (Journal of the American Medical Association) por profissionais do CDC (Centers for Disease Control, órgão de saúde do governo americano) que também indicam eficácia de máscaras ao impedir o contágio bloqueando o contato de gotículas contaminadas com o vírus.

Além disso, autoridades sanitárias, como o CDC e a OMS (Organização Mundial de Saúde), também indicam o equipamento como medida efetiva durante a pandemia.

Respiração. Vainshelboim também sustenta em seu artigo que o uso prolongado de máscaras causaria problemas à saúde como insuficiência de oxigênio e acúmulo de gás carbônico no sangue, o que não é verdade. Segundo afirmou em checagem anterior a infectologista e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Raquel Stucchi, esse quadro, a hipóxia, costuma ser provocada por doenças como anemia muito grave, pneumonia avançada e insuficiência cardíaca, não pelo uso prolongado das peças.

Além disso, estudo realizado no ano passado por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Miami e do Jackson Memorial Hospital de Miami mostrou que as máscaras faciais não provocam superexposição ao gás carbônico, mesmo em pacientes com uma doença pulmonar grave. Para chegar a esse resultado, os cientistas coletaram amostras de sangue após voluntários caminharem usando máscaras.

No Brasil, esta peça de desinformação já foi checada por AFP e Estadão Verifica. Fora do país, há desmentidos de USA Today, AP News, Fact Check, Full Fact e PolitiFact.

Referências:

1. Universidade de Stanford (Fontes 1, 2, 3 e 4)
2. Medical Hypotheses
3. LinkedIn do Baruch Vainshelboim
4. Researchgate
5. The Lancet
6. Journal of General Internal Medicine
7. Academia Nacional de Ciências dos EUA
8. Jama
9. CDC
10. OMS
11. ATS Journals
12. Aos Fatos


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