É falso que estudo de Harvard comprovou que hidroxicloroquina é eficaz contra Covid-19

Por Marco Faustino

18 de agosto de 2022, 16h26

Não é verdade que um estudo da universidade Harvard, nos EUA, comprovou que a hidroxicloroquina é eficaz na prevenção à Covid-19, como afirmam nas redes (veja aqui). A análise não conclui que o medicamento funciona na profilaxia da doença, e ressalta que, para isso, mais pesquisas são necessárias. Os autores, entretanto, levantam hipótese de que estudos não realizados ou descontinuados poderiam ter atestado benefícios da droga.

Publicações com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 5.700 compartilhamentos no Facebook nesta quinta-feira (18) e circulam também no Twitter.


Selo falso

Estudo de Harvard comprova eficácia da hidroxicloroquina para profilaxia da Covid-19

Posts enganam ao alegar que estudo de Harvard comprovou que hidroxicloroquina é eficaz contra Covid-19

Um estudo que conta com a participação de dois pesquisadores da universidade Harvard, e que foi publicado no periódico científico European Journal of Epidemiology neste mês, tem sido mencionado nas redes sociais dentro de uma alegação falsa de que teria comprovado a eficácia da hidroxicloroquina na prevenção à Covid-19. Na realidade, a análise concluiu que seriam necessárias mais pesquisas antes de atestar ou descartar a eficácia do remédio na profilaxia da doença.

De acordo com os autores da meta-análise — revisão que compila resultados de outros estudos —, a conclusão de ensaios clínicos que não foram realizados ou descontinuados poderia ter atestado benefícios da droga contra a Covid-19. A hipótese, que não pode ser comprovada com os dados disponíveis atualmente, seria relativa às análises que foram abandonadas após os primeiros estudos indicarem a ineficácia da hidroxicloroquina.

Foram considerados 11 estudos na meta-análise: sete que avaliaram o uso da hidroxicloroquina em pacientes antes da exposição (profilaxia pré-exposição) ao vírus SARS-CoV-2, que causa a Covid-19, e quatro após o contato de pacientes com indivíduos infectados (profilaxia pós-exposição).

A análise do conjunto de estudos sobre o uso do fármaco como profilaxia pré-exposição estimou redução em 28% do risco de um paciente contrair a Covid-19. Isso, entretanto, não comprova a eficácia da droga, e sim aponta para a necessidade de estudos mais conclusivos sobre uma eventual ação preventiva.

Especialistas ouvidos por Aos Fatos reforçam ainda que a pesquisa apresenta problemas metodológicos. Leandro Tessler, professor do departamento de Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), criticou a seleção de estudos, que selecionou alguns trabalhos em pré-print — que ainda não foram revisados por outros cientistas.

“Foram utilizados artigos ruins como se fossem bons. E, ainda que fossem bons, os autores afirmam somente que os estudos [sobre a droga] deveriam ter continuado, não que a hidroxicloroquina funciona contra a Covid-19”, afirma Tessler.

O biólogo Airton Pereira e Silva, da UFF (Universidade Federal Fluminense), apontou que alguns trabalhos incluídos na lista de referências da meta-análise mencionam que a hidroxicloroquina foi utilizada com outros medicamentos, “o que invalida o discurso de que apenas o uso desta droga já teria um benefício”.

À Reuters, o professor de bioestatística e epidemiologia Miguel Hernán, um dos co-autores do estudo, negou que os artigos analisados sejam de baixa qualidade e disse que a meta-análise foi extremamente cautelosa.

Ineficácia. Ainda em 2020, a hidroxicloroquina foi excluída dos testes clínicos da OMS (Organização Mundial da Saúde), que não recomenda o uso profilático da droga contra a Covid-19, e do governo americano, por não apresentar resultados positivos.

A droga não resultou em benefícios na redução da mortalidade ou do tempo de internação em grandes estudos clínicos, como o Recovery Trial, realizado no Reino Unido com cerca de 1.500 pacientes.

Outros estudos também concluíram que a droga não tinha eficácia para profilaxia e no chamado “tratamento precoce”. Em fevereiro de 2021, uma meta-análise publicada pela Cochrane, entidade especializada em revisões sistemáticas de estudos, concluiu que a cloroquina e a hidroxicloroquina têm pouco ou nenhum efeito no risco de morte e pouco ou nenhum efeito na progressão para ventilação mecânica — tratamento utilizado quando indivíduos não conseguem respirar por conta própria.

Uma meta-análise publicada em abril do ano passado na revista Nature, que estudou dados de 28 testes clínicos feitos com a hidroxicloroquina e a cloroquina, concluiu que, além de ineficaz, o primeiro medicamento pode aumentar o risco de mortalidade de pacientes.

Outra metanálise publicada em outubro, em que foram analisados nove estudos relacionados ao uso da hidroxicloroquina contra a Covid-19, não apontou diferenças significativas entre aqueles que tomaram ou não a hidroxicloroquina de maneira profilática.

Esta peça de desinformação também foi checada pelo Boatos.org, Lupa e Reuters.

Referências:

1. Springer
2. MedRxiv (Fontes 1 e 2)
3. Reuters
4. O Globo
5. OMS
6. O Estado de S. Paulo
7. Recovery Trial
8. NEJM
9. ACP Journals
10. Cochrane LIbrary
11. Nature
12. Scielo


Aos Fatos integra o Programa de Verificação de Fatos Independente da Meta. Veja aqui como funciona a parceria.

Topo

Usamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concordará com estas condições.