É falso que Doria fechou contrato com chineses em 2019 para vacina contra o novo coronavírus

Por Luiz Fernando Menezes

16 de junho de 2020, 12h42


Não é verdade que o governo de São Paulo assinou em agosto de 2019 um contrato entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa Sinovac Biotech para desenvolver uma vacina contra o novo coronavírus, como afirmam publicações nas redes sociais (veja aqui). O acordo foi firmado no dia 10 de junho deste ano.

A informação falsa surgiu após o governador João Doria (PSDB) ter dito no anúncio da parceria, na quinta-feira (11), que “o acordo assinado com a Sinovac teve início em agosto do ano passado quando da nossa visita à China e a inauguração do escritório comercial de São Paulo em Xangai”. Segundo o Palácio dos Bandeirantes, ele se referia a uma aproximação inicial feita com a empresa na época, não que um contrato tenha sido firmado.

A peça de desinformação foi amplificada nas redes sociais no dia 12 de junho pelo presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, e circula em publicações no Facebook que já reuniam ao menos 87 mil compartilhamentos nesta terça-feira (16). Todas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação (saiba como funciona).


FALSO

Doria assinou um contrato de desenvolvimento da vacina para Covid, com a Sinovac, da China, e o Instituto Butantã. A vacina tem o nome de Coronavac. O contrato foi assinado em agosto de 2019. Eu não entendi. Agosto do ano passado? Como? Coronavac? Na China, ano passado? Como?

Publicações nas redes sociais enganam ao afirmar que o acordo entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa Sinovac Biotech para a produção de uma vacina contra o novo coronavírus foi fechado em agosto de 2019. A peça de desinformação surgiu da interpretação feita pelas postagens de uma fala do governador João Doria (PSDB) na coletiva de imprensa em que a parceria foi anunciada, na última quinta-feira (11). Nela, porém, ele menciona apenas o escritório de investimentos que abriu em Xangai no ano passado, que teria facilitado a aproximação do governo paulista com empresas da China.

Como pode ser verificado no vídeo completo da entrevista coletiva (minuto 10), o governador diz que assinou o contrato no dia 10 de junho de 2020:

“Hoje é um dia histórico para São Paulo e para o Brasil, assim como para a ciência mundial. O Instituto Butantan fechou acordo de tecnologia com a gigante farmacêutica Sinovac Biotech para a produção da vacina contra o coronavírus. Eu ontem [10] fui ao instituto Butantan pessoalmente e ao lado do doutor Dimas Covas, assinei o contrato formalizando o acordo”.

Mais adiante, (minuto 13) Doria afirma que o acordo de transferência de tecnologia foi viabilizado a partir da instalação do escritório comercial de São Paulo em Xangai e de visita que fez com empresários à China em agosto de 2019:

“Essa parceria entre o Instituto Butantan, de São Paulo, e a Sinovac, da China, é prova do apoio e investimento do governo de São Paulo em ciência e tecnologia e também na cooperação internacional e na boa relação com as nações. O acordo assinado com a Sinovac teve início em agosto do ano passado quando da nossa visita à China e a inauguração do escritório comercial de São Paulo em Xangai.”

Questionada por Aos Fatos, a assessoria do governador negou que o contrato tenha sido fechado em agosto do ano passado. Segundo o Palácio dos Bandeirantes, houve, naquela época, uma aproximação inicial da empresa, que resultou na visita de representantes do Instituto Butantan às instalações da Sinovac na China, mas nenhum tipo de acordo foi firmado. A versão é confirmada pela InvestSP, agência de promoção de investimentos e exportações, que administra o escritório do governo paulista em Xangai, e pela Sinovac Biotech que, por meio de nota, disse que só firmou um acordo com o Instituto Butantan em junho deste ano.

A vacina, que utiliza o vírus inativo para estimular a produção de anticorpos, recebeu autorização para testes clínicos em humanos somente em abril deste ano. Após passar por duas fases de testes na China, o medicamento agora será usado em 9.000 voluntários em São Paulo. Antes do início da terceira fase, no entanto, haverá uma discussão dos protocolos com a Anvisa e os comitês de ética de pesquisa.

O escritório comercial de São Paulo em Xangai foi inaugurado em 9 de agosto de 2019. Não há menção à Sinovac nos comunicados divulgados pelo governo paulista na época, ainda que sejam citadas de maneira genérica promessas de cooperação na área de saúde.

Estudo. Há versões desta peça de desinformação que relacionam ainda o suposto acordo para vacina antes da pandemia a um estudo preliminar publicado por pesquisadores de Harvard que indica que o novo coronavírus já estaria circulando na China desde o outono de 2019. A pesquisa existe, de fato, e foi produzida a partir de fotos de movimentos em estacionamentos de hospitais em Wuhan e buscas sobre sintomas compatíveis com a Covid-19 na internet. O estudo, porém, é alvo de contestação.

Segundo a Baidu, empresa chinesa cuja ferramenta de busca foi usada pelos pesquisadores, os dados apresentados estariam incorretos: na verdade, as buscas pelo sintoma “diarréia” caíram no período analisado, e não aumentaram, conforme afirma o artigo. A BBC também apresentou erros na análise espacial feita pelos pesquisadores. A pesquisa, por exemplo, não levou em conta áreas cobertas por árvores e prédios. Além disso, o artigo também não analisou a quantidade de carros em estacionamentos subterrâneos.

Por fim, o estudo é parcial e não foi revisado por outros pesquisadores, o que reduz a confiabilidade de seus resultados.

A peça de desinformação sobre o contrato para a vacina ter sido assinado antes da pandemia foi amplificada nas redes sociais pelo ex-deputado e atual presidente do PTB, Roberto Jefferson, hoje apoiador do presidente Jair Bolsonaro. Procurado por Aos Fatos, ele não se pronunciou até a publicação desta checagem, na terça-feira (16).

A Agência Lupa e o Boatos.org também desmentiram esta peça de desinformação.

Referências:

1. Governo de São Paulo (Fontes 1 e 2)
2. G1
3. InvesteSP
4. Harvard Library
5. Japan Times
6. BBC


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Esta checagem foi atualizada às 15h20 do dia 17 de junho de 2020 para acrescentar a nota enviada pela Sinovac Biotech.