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É falso que cilindro de oxigênio caseiro tenha eficácia médica

Por Priscila Pacheco

19 de março de 2021, 18h56

Não é verdade que “cilindros caseiros” funcionem para oferecer mais oxigênio a pessoas com doenças respiratórias, inclusive a Covid-19, conforme mostram vídeos nas redes sociais e no YouTube (veja aqui). Além de não garantir maior fluxo do gás ao paciente porque não aumenta a concentração de oxigênio do ambiente, o aparelho feito com garrafa plástica e inalador pode contribuir para o agravamento do estado de saúde ao retardar a procura por atendimento médico.

Qualquer sistema de ventilação pulmonar, seja hospitalar ou doméstico, deve ter controles, alarmes e ajustes que precisam ser observados para evitar danos graves aos pulmões. Por isso, esses aparelhos passam por aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

As postagens enganosas contam com ao menos 4.455 compartilhamentos no Facebook nesta sexta-feira (19) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da plataforma ‌(‌saiba‌ ‌como‌ ‌funciona‌). No YouTube, os vídeos têm 6.629 visualizações.


Está dando certo esse cilindro de oxigênio caseiro que eu fiz

Tem circulado nas redes sociais, principalmente no YouTube, tutoriais que ensinam a fazer “cilindros caseiros” para auxiliar na respiração de pessoas com doenças pulmonares, como a Covid-19, que costuma requerer ventilação mecânica quando se agrava. No entanto, o aparelho adaptado com inalador, garrafa de plástico e água não tem a capacidade de enviar mais oxigênio para o organismo do paciente que necessita de suporte para conseguir respirar.

Segundo Frederico Fernandes, pneumologista especializado em doença pulmonar avançada e presidente da SPPT (Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia), o equipamento improvisado mostrado nos vídeos é apenas uma adaptação da saída do inalador a um cateter nasal que não contribui para melhorar a respiração.

“A paciente [que aparece no vídeo] está inalando ar ambiente [com cerca de 21% de oxigênio]. É a mesma coisa de respirar sem o cateter”, explicou Fernandes. De acordo com o médico, inaladores domésticos servem apenas para nebulizar o ar que levará soro ou medicamentos para o corpo.

Riscos. Além de não suprir a demanda por mais oxigênio, usar “cilindros caseiros” pode fazer com que as pessoas demorem a buscar ajuda médica, o que pode piorar o estado de saúde, destacou Fábio Rodrigues, fisioterapeuta cardiorrespiratório em UTIs (Unidade de Terapia Intensiva) com especialização na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), que trabalha na área há 25 anos.

Segundo ele, ajustar corretamente a pressão e o percentual de oxigênio que flui dos cilindros de ar comprimido é crucial, porque se feito da maneira incorreta pode causar danos graves aos pulmões. Os valores de concentração podem variar de 21% a 100% dependendo do caso. “Esse aparelho só pode ser manuseado por quem é especializado nisso. Se não, ao invés de tratar o paciente, você destrói o pulmão dele”, disse.

Os ventiladores pulmonares têm sistemas de controles, alarmes e ajustes para o tratamento e necessitam de autorização da Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) para serem fabricados pela indústria. Conforme mostra a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), existem regras para a produção dos aparelhos e há diferentes tipos para cada caso. Por exemplo, há ventiladores para pessoas em situação crítica no hospital, modelos para transporte de vítimas e emergência, para uso domiciliar e até para apneia do sono.

Vídeos similares também foram checados pela AFP, Boatos.org e Agência Lupa.

Referências:

1. Anvisa
2. ABNT
3. AFP
4. Boatos.org
5. Agência Lupa


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