Não é verdade que a Amazônia não tem influência sobre o clima do planeta, como afirma um homem em vídeo nas redes. As alegações vão contra o consenso científico, que estipula que o bioma tem papel decisivo na regulação das chuvas e da temperatura da Terra. Além disso, diferentemente do que apontam os posts enganosos, a fala negacionista ocorreu durante um evento do setor agropecuário, e não durante a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas).
As publicações falsas acumulavam 2.500 compartilhamentos no Facebook e 4.000 curtidas no Instagram até a tarde desta segunda-feira (4) e também circulam no WhatsApp, plataforma em que não é possível estimar o alcance dos conteúdos (fale com a Fátima).
COP30, a farsa

Publicações mentem ao afirmar que um homem, que se apresenta em vídeo como pesquisador, teria comprovado em discurso que a Amazônia não possui relevância no debate climático e que o aquecimento global não é causado pela ação humana.
Na fala, ocorrida durante um evento do setor agropecuário realizado em 2024 — e não durante a COP30, como alegam as peças de desinformação —, o indivíduo afirma que a Amazônia “não muda, não equilibra, não altera, não faz nada com relação ao clima do mundo”. Essa alegação vai contra o consenso científico.
Diversas pesquisas mostram que o bioma desempenha papel essencial na regulação climática, tanto no Brasil quanto em escala global. A Amazônia equilibra o ciclo das chuvas, ajuda a estabilizar as temperaturas e atua como um importante reservatório de carbono — um dos principais gases associados ao aquecimento global.
Isso ocorre por meio de um processo no qual a floresta atrai a umidade evaporada do oceano Atlântico, transformando-a em chuva no continente. Durante a transpiração das árvores, parte dessa água retorna à atmosfera em forma de vapor, formando os chamados “rios voadores”.
Essas massas de ar úmido são empurradas pelos ventos e se deslocam para diferentes regiões do Brasil e da América Latina, contribuindo para as chuvas nesses locais.
Pesquisadores de climatologia também já demonstraram que alterações ambientais em uma determinada região podem provocar efeitos em outras partes do planeta, já que o sistema atmosférico e os oceanos estão conectados.

Além disso, a floresta atua como um “sumidouro de carbono” mundial, absorvendo CO₂ e armazenando-o em árvores, que irão consumi-lo por meio da fotossíntese — processo em que a vegetação retira o gás carbônico do ar, o transforma em energia e alimento por meio de uma reação química com água e libera oxigênio de volta para a atmosfera.
Estudos estimam que, na ausência de desmatamento e queimadas, a Amazônia brasileira teria potencial para capturar até 0,19 bilhão de tonelada de CO₂ por ano.
O gás carbônico também é citado pelo homem no vídeo. Segundo ele, o “calor traz a vida” e as políticas de redução de emissões seriam “amarras” impostas ao agronegócio, já que não haveria influência das ações do homem no clima do planeta — tese igualmente refutada pela comunidade científica.
Hoje, 97% dos climatologistas concordam que as atividades humanas, sobretudo a queima de combustíveis fósseis, têm contribuído para o aquecimento global.
A gravação compartilhada pelas peças de desinformação ocorreu no 62º Encontro Ruralista do Pará, promovido pela Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará) entre os dias 3 e 4 de dezembro de 2024 em Belém, cidade-sede da cúpula climática. Apesar de ter sido apelidado de “COP30 do Agro”, os eventos não têm relação direta.
Esta peça de desinformação também foi checada pelo Estadão Verifica e pelo Boatos.org.
O caminho da apuração
Por meio de busca reversa, Aos Fatos identificou a gravação original e constatou que ela não foi feita durante a COP30. Além disso, consultamos fontes robustas como a revista Nature, a agência espacial americana NASA e documentos do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima) sobre o papel da Amazônia na regulação climática.




