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Doria desdiz, Marta 'vai e volta' e Russomanno vira a casaca: as contradições da campanha em SP

2 de outubro de 2016, 03h14

O debate sobre o destino da cidade de São Paulo, no primeiro turno das eleições deste ano, foi contaminado pela crise econômica e pela polarização de ideias. Desse modo, o discurso dos postulantes à prefeitura da maior cidade da América do Sul também oscilou entre pólos distintos, ao sabor de suas estratégias marqueteiras.

Aos Fatos, em parceria com o projeto Cidade dos Sonhos, registrou e examinou as falas dos principais candidatos à prefeitura de São Paulo relacionadas a mobilidade, energia, áreas verdes e resíduos, durante as últimas seis semanas de campanha. A partir do acompanhamento diário e sistemático de declarações, esta plataforma checou se as ideias defendidas pelos candidatos foram sofrendo mudanças ao longo do tempo. O resultado é o especial "Aos Fatos checa Cidade dos Sonhos".

Para solucionar problemas nervosos da capital paulista, como o transporte público precário e a violência no trânsito, Aos Fatos verificou os candidatos se dedicaram mais a temas que dizem muito ao bolso do eleitor médio. A atuação do Uber e a chamada “indústria da multa”, por exemplo, foram assuntos palpitantes em todos os debates e quase todas as entrevistas.

A respeito desses temas, alguns candidatos caíram em clara contradição ao longo das últimas semanas.

Celso Russomanno (PRB), inicialmente líder isolado de intenção de votos e anti-Uber, caiu nas pesquisas e virou a casaca. Ele, que dias antes chamava o serviço de “ilegal”, mudou de ideia: “Todo mundo elogia”; “Vamos regulamentar”, diz agora.

Clique na imagem para saber o que Russomanno disse e desdisse ao longo da campanha.

Quando o tema é ocupação dos espaços públicos pelas pessoas, o tucano João Doria foi o campeão de contradições.

O candidato disse, durante o debate da Band, em agosto passado, que iria "reestudar" algumas faixas exclusivas de ônibus. Depois, na mesma ocasião, sem entrar em detalhes, disse que os corredores serão "ampliados". Em sabatinas, Doria tem dito, sem detalhes, querer ceder à iniciativa privada a gestão dos corredores.

No último mês, Doria também mudou o discurso sobre o Minhocão. Disse “não” à demolição do elevado em entrevista ao G1, sendo que dias antes falava que era preciso estudar o assunto, que exigia um “enorme cuidado”.

“Esse [assunto], sim, está no campo do diálogo. Esse eu acho que tem que debater muito, porque há opiniões de todos os tipos, todos os gêneros”, afirmara.

Clique na imagem para saber o que Doria disse e desdisse ao longo da campanha.

Procurada por Aos Fatos, a assessoria da campanha de Doria informou que o candidato se disse contrário à demolição, mas que continua achando que o tema merece estudos. “A estrutura não precisa ser demolida, mas pode ser adaptada para fins de esportes, cultura e lazer”, informou.

Ônibus na noite. Doria também caiu em contradição sobre a oferta de ônibus durante a noite. Em 2 de setembro, ele dizia, durante debate da RedeTV!: “Vamos ampliar o horário de funcionamento para que a população que trabalha à noite em São Paulo tenha acesso ao transporte coletivo. Isso é absolutamente essencial”.

Uma semana e meia depois, o candidato afirmava: “Primeiro, tem transporte à noite. Você não tem transporte com abundância que tem durante o dia, mas há transporte à noite. São Paulo não fica parada de noite, não. São Paulo é uma cidade 24 horas. Você tem teatros, bares, restaurantes, call centers, vários serviços que funcionam de noite. E as pessoas utilizam transporte coletivo, ou você acha que não, todo mundo anda de Uber? Usam transporte coletivo, sim. Então é uma falácia essa história de que não tem transporte coletivo à noite. Tem”.

Segundo ele, o serviço de ônibus “não tem na abundância que tem durante o dia, por uma razão óbvia, você tem menos público para utilização desse transporte. Mas ele existe. E, onde não existir, criaremos linhas, ainda que temporárias, para atender determinada localização”.

Procurada, a assessoria do candidato afirmou que não há contradição. “O candidato disse que ampliaria e continua defendendo isso. O serviço é insuficiente e não atende às necessidades da cidade.”

Em outro momento de inconsistência no discurso, o candidato fala em ampliar as ciclovias, mas também fala em revê-las, sobretudo nas áreas periféricas da cidade, por julgar que atrapalhou o comércio.

“Vamos manter as faixas e ampliá-las, tendo apenas o cuidado de não prejudicar o comércio varejista. A prefeitura errou em várias áreas da periferia de São Paulo, onde colocou a ciclovia e do lado a faixa de ônibus, impediu o estacionamento e estrangulou o comércio varejista de áreas periféricas da cidade. Nesses casos, nós vamos fazer uma revisão cuidadosa”, disse.

Segundo a assessoria do candidato, não há contradição na fala. “O candidato é a favor das ciclovias, desde que bem construídas, seguras e que não causem problemas ao comércio e aos moradores”, diz.

Inspeção veicular. No tema poluição, o debate eleitoral se concentrou na eventual volta da inspeção veicular na cidade, vocalizada — de forma atrapalhada — pela candidata Marta. Ao reforçar que a inspeção seria gratuita e opcional — "pois não dá para impor uma obrigação dessas em tempos de crise" —, a candidata admitiu que a medida não teria efeito.

Clique na imagem para saber o que Marta disse e desdisse durante a campanha.

“Quem não quiser fazer, não vai ter penalidade nenhuma. Se a população resolver não fazer, vamos ter um resultado precário, e vai ser assim”, disse à rádio Jovem Pan.

“A inspeção veicular é gratuita, opcional e para quem quiser fazer. Provavelmente a pessoa que vai ser reprovada ela não vai chegar nem perto. Eu gostaria que ela chegasse, mas ela não vai. E nós vamos ver quem irá. Nós sabemos que isso irá custar muito pouco para a prefeitura, e quem for, vamos restituir depois no IPTU”, afirmou durante o último debate, na TV Globo.

E quem não quiser ir “Não vai, e pronto”, concluiu.

Consistência e polarização. O assunto que, declaradamente, não estaria no campo do diálogo, para Doria, é a volta das velocidades nas marginais.

“Diálogo onde necessário. Onde não é preciso, onde é o óbvio, eu vou agir como um bom prefeito. E um prefeito que exerce o seu comando, a sua autoridade. Repito a você que está nos assistindo agora: nas marginais Tietê e Pinheiros, as velocidades mudam na semana seguinte [da posse como prefeito]. Só não mudam no dia seguinte porque você tem que seguir o Código Nacional de Trânsito e alterar as placas”, afirmou o candidato da coligação “Acelera SP”.

O primeiro dia de trabalho do eventual prefeito Russomanno também seria dedicado às vítimas da “indústria da multa”. “No nosso primeiro dia de governo, eu vou temporariamente suspender, como manda o Código Brasileiro de Trânsito, todas essas multas que não foram julgadas”, afirmou.

A medida faz coro com o discurso de Russomanno, Marta Suplicy (PMDB) e Major Olímpio (SD), que engrossaram o coro dos descontentes com a política de redução das velocidades nas marginais Pinheiros e Tietê.

“Ninguém vai na marginal, atravessa a marginal, pula dentro do rio, nada, e vai pro outro lado. As pessoas que estão vendendo produtos na marginal, é obrigação da prefeitura conter. Porque em pista de velocidade, você vai ter atropelamento, não é local pra vender produtos. Nós vamos voltar sim aos limites anteriores porque não existe estudo nenhum que garanta o que a prefeitura fez. Existe sim uma indústria de multas na cidade de São Paulo que eu vou conter”, disse Russomanno à rádio Jovem Pan em 19 de setembro.

Já o prefeito e candidato Fernando Haddad (PT) e Luiza Erundina (PSOL) representaram a outra extremidade no debate.

“Eu acredito que a postura dos meus adversários tem sido de grande irresponsabilidade. Eles omitem da população que essa é uma recomendação da Organização Mundial da Saúde. As Nações Unidas escolheram essa década como a década da segurança no trânsito e fixaram uma meta para que todos os países reduzam, para menos de 50%, o número de mortos e feridos no trânsito”, retrucou Haddad, em entrevista à TV Brasil e ao jornal El País.

Para Erundina, é “um absurdo” alguém ser contrário à redução de velocidade.


Esta reportagem faz parte do projeto Aos Fatos checa Cidade dos Sonhos, do Aos Fatos Lab, braço de consultoria e monitoramento em fact-checking voltado a empresas e organizações da sociedade civil. Saiba mais como funciona.

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