Dom e Bruno não estavam em terra indígena quando desapareceram

Por Luiz Fernando Menezes

15 de junho de 2022, 16h25

É falso que o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira desapareceram após entrar “em território hostil sem autorização de órgão responsável”, como afirmam publicações nas redes sociais (veja aqui). A autorização da Funai (Fundação Nacional do Índio) seria necessária para ingressar em terra indígena, o que não aconteceu: o trajeto feito pelos dois, de Atalaia do Norte (AM) até uma base no lago do Jaburu, não passava pela Terra Indígena do Vale do Javari, que ocupa parte do município.

Postagens com a alegação enganosa somavam ao menos 1.500 compartilhamentos no Facebook nesta quarta-feira (15) e também aparecem em mensagens no WhatsApp e no Twitter.


Selo falso

Só pra lembrar que temos mais de 60.000 pessoas desaparecidas no Brasil é grande parte delas é de crianças que não entraram em território hostil sem autorização de órgão responsável ou tinha qualquer noção de perigo em relação ao ambiente em que estavam, mas estas não geram nenhum tipo de comoção em que usa o sumiço de dois marmanjos irresponsáveis só para uso político. Chega embrulhar o estômago.

Post engana ao dizer que dupla estava em local sem autorização da Funai

Não é verdade que Dom Phillips e Bruno Pereira estavam em um local de entrada restrita quando desapareceram, como afirmam postagens nas redes sociais. A autorização de órgão responsável só seria necessária se eles estivessem circulando em terra indígena demarcada, o que não aconteceu.

Conforme relatou a Univaja (União das Organizações Indígenas do Vale do Javari), Dom e Bruno viajaram para o lago do Jaburu no dia 3 de junho. No dia 5, a dupla iria retornar para Atalaia do Norte, com uma parada na comunidade São Rafael. Os dois foram vistos no local por volta das 6h e depois retomaram a viagem em direção à cidade, onde deveriam ter chegado por volta das 8h.

De acordo com imagens do Google Maps e da base de dados do ISA (Instituto Socioambiental) sobre terras indígenas no Brasil, o lago do Jaburu, a comunidade visitada pela dupla e a cidade de Atalaia do Norte não estão localizadas dentro da Terra Indígena do Vale do Javari (veja abaixo). Em nota ao Aos Fatos, o ISA afirmou que Dom e Bruno “desapareceram no rio Itaquaí, próximos às comunidades de São Gabriel e Cachoeira. Portanto, fora da Terra Indígena do Vale do Javari e muito próximo da cidade de Atalaia do Norte”.

Imagem mostra rota de Dom e Bruno do dia 3 a 5 de junho.
Rota. Caminho de Dom e Bruno fora da Terra Indígena do Vale do Javari, representada na área vermelha

A alegação enganosa foi proferida inicialmente por Marcelo Xavier, presidente da Funai, em entrevista ao programa estatal Voz do Brasil no dia 8 de junho — e depois reafirmada em nota. A Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), no entanto, desmentiu essa informação e esclareceu que a dupla não adentrou na terra indígena.

A legislação determina que pesquisadores que pretendam ingressar em terras indígenas devem solicitar autorização à Funai e ter anuência prévia dos representantes dos povos envolvidos. O pedido de autorização costuma ser avaliado pela Funai em Brasília, mas, devido à pandemia, até maio deste ano as coordenações regionais podiam concedê-la.

Antes de encontrar Dom, Bruno esteve dentro da terra indígena no Vale do Javari. Sua entrada foi autorizada pela Funai, conforme mostram documentos divulgados pela TV Globo. Bruno esteve na terra demarcada entre os dias 17 e 30 de maio junto com um representante da Univaja e um morador da região. Ele foi funcionário da ativa da Funai de 2010 a 2019, tendo ocupado o cargo de coordenador-regional do Vale do Javari entre 2014 e 2016.

O Aos Fatos entrou em contato com a assessoria da Funai para questionar sobre as afirmações, mas não recebeu resposta até a publicação desta checagem.

Desaparecidos. O texto enganoso, no entanto, contém uma informação correta: o Sinalid (Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos) aponta que, hoje, 85.298 pessoas estão desaparecidas no Brasil. No estado do Amazonas, são 2.671 registros.

Referências:

1. Univaja (1 e 2)
2. Google Maps
3. ISA
3. Funai (1, 2, 3 e 4)
5. Jornal Nacional
6. Estado de Minas
7. Amazônia Real
8. Conselho Nacional do Ministério Público


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