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As doações da Camargo Corrêa aos institutos Lula e FHC

Por Tai Nalon

14 de março de 2016, 20h36

Em depoimento colhido no último dia 4, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Instituto Lula, do qual é presidente de honra, recebeu metade do valor destinado à Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso pela construtora Camargo Corrêa. Questionado a respeito de repasses de empresas envolvidas no esquema fraudulento desmantelado pela Operação Lava Jato, o petista minimizou a influência do dinheiro nas atividades da entidade que tem o seu nome. Afirmou, nesse sentido, que a fundação de seu antecessor faz uso de práticas semelhantes.

Aos Fatos checou a declaração de Lula em referência aos valores doados pela Camargo Corrêa a ambas as entidades. Verificou que não há dados que sustentem a argumentação do ex-presidente, mas viu também que, de fato, a fundação de FHC recebeu doações de outros protagonistas na Lava Jato. A afirmação, portanto, é IMPRECISA.


IMPRECISO
Ela [a construtora Camargo Corrêa] deu para o instituto [Lula] acho que a metade do que ela deu para o [Instituto] Fernando Henrique Cardoso, metade, deveria ter dado mais, mas deu menos.

Informações atribuídas por vários veículos de imprensa às investigações da Polícia Federal no âmbito da Operação Lava Jato mostraram, em junho de 2015, que o Instituto Lula recebeu, de 2011 a 2013, R$ 3 milhões da construtora Camargo Corrêa. As quantias, segundo a PF, foram divididas em três pagamentos de R$ 1 milhão sob a rubrica de "Contribuições e Doações" e "Bônus Eleitoral". A entidade nega ter recebido para fins eleitorais.

Em nota, a entidade que leva o nome do ex-presidente afirmou, sem citar valores, que o instituto recebeu doações para "manutenção e desenvolvimento de atividades institucionais, conforme objeto social do seu estatuto, que estabelece, entre outras finalidades, o estudo e compartilhamento de políticas públicas dedicadas à erradicação da pobreza e da fome no mundo".

Segundo o Instituto Lula, a própria construtora já admitiu ter feito doações à entidade em 2013, quando de uma reportagem da Folha de S.Paulo que mostrava que quase metade das viagens internacionais feitas pelo ex-presidente após deixar o governo foi bancada por grandes empreiteiras. A matéria, entretanto, não entrava em detalhes sobre o valor pago à organização de Lula. "Estimativas do mercado sugerem que uma palestra no exterior pode render a Lula R$ 300 mil, sem contar gastos com hospedagem, comida e transporte", disse a reportagem da Folha.

O Instituto Lula em nenhum momento cita os R$ 3 milhões, mas também não desmente a quantia. Diz que "não prestou nenhum serviço eleitoral, tampouco emite bônus eleitorais, o que é uma prerrogativa de partidos políticos, portanto deve ser algum equívoco".

"Essas doações e pagamentos foram devidamente contabilizados, declarados e recolhidos os impostos devidos. As doações ao Instituto Lula e as palestras do ex-presidente não têm nenhuma relação com contratos da Petrobrás", continua.

Na provável hipótese de os R$ 3 milhões serem reais, resta à Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso ter recebido R$ 6 milhões para que a declaração de Lula esteja correta. A última notícia que trata do tema é de junho de 2015, quando o ex-presidente tucano disse ter recebido dinheiro de empreiteiras envolvidas na Lava Jato. Nenhuma empresa, nem a Camargo Corrêa, é citada por FHC — tampouco valores.

Das poucas vezes que se fala em quanto a fundação de FHC recebeu, uma delas é uma matéria do Estadão de novembro de 2015, que fala que, de dezembro de 2011 a dezembro de 2012, a Odebrecht doou R$ 975 mil à entidade.

Uma quantia mais próxima à versão de Lula consta da reportagem da revistaÉpoca de 2002 mostra que o então presidente FHC reuniu 12 dos maiores empresários do país — dentre eles Luiz Nascimento, da Camargo Corrêa — para um jantar no Palácio da Alvorada. Segundo a matéria, o tucano angariou R$ 7 milhões para seu instituto, à época ainda em fase embrionária.

A Fundação Instituto FHC diz, em seu site, contar "com o apoio de empresas e pessoas que compartilham dos seus valores e acreditam na sua missão". Sem citar quem são seus colaboradores, afirma que "as doações são feitas para um fundo de manutenção da instituição" e que "cada projeto é desenvolvido com financiamentos específicos".

Dessa forma, por falta de dados públicos e oficiais coincidentes tanto com as versões de Lula quanto com as versões apresentadas na imprensa, é difícil afirmar que a Camargo Corrêa de fato privilegiou a fundação de Fernando Henrique. O que se tem é que, sim, todas as entidades foram contempladas com grandes doações de envolvidas na Lava Jato.

Aos Fatos dá afirmação o selo IMPRECISO.

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