O presidente Lula (PT) participou, na última quarta-feira (24), da 2ª Reunião Em Defesa da Democracia, Combatendo Extremismos, em Nova York. No evento, que acontece paralelamente à Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), o petista, ao comentar que só a democracia poderia reconstruir o multilateralismo, citou um dos grandes fantasmas da extrema direita brasileira: o Foro de São Paulo.
“[Em 1989] eu, um simples metalúrgico, fui o segundo colocado. Fui para o segundo turno e tive 47% dos votos. A partir dessa votação, eu convoquei uma reunião chamada Foro de São Paulo. Convoquei toda a esquerda latino-americana para dizer para eles que era possível, sim, através do uso da organização, e, com a organização dos trabalhadores, a gente chegar à Presidência da República. E foi assim que nós criamos o Foro de São Paulo”.
Não deu outra: essa declaração inundou as redes de comentários críticos ao presidente.
Muitos deles, inclusive, cobravam uma “retratação histórica”. Segundo diversas publicações, a fala de Lula teria provado que a existência do Foro de São Paulo não era uma “fake news” ou “teoria da conspiração”, como a imprensa e o próprio PT (veja abaixo) teriam supostamente afirmado em momentos anteriores.

Eu, que trabalho há oito anos com desinformação, posso afirmar que ninguém nunca negou que Lula criou o Foro. Mas, se a carteirada não funciona, uma busca rápida no Google prova isso:
- Lula sempre se refere ao Foro de São Paulo como uma organização que ele ajudou a fundar;
- Há inúmeras cartas escritas pelo petista em que ele relembra como a ideia de criar o Foro aconteceu;
- A fala de Lula no seminário em 1990 que originou o Foro está disponível no YouTube.
O argumento de que Lula teria “confessado” que o Foro de São Paulo era um “projeto de poder” também não faz sentido. A fala de quarta-feira é idêntica a diversas outras, como a de 2023, na qual o presidente disse que a organização foi criada para que os partidos de esquerda pudessem vencer uma eleição por meio do voto.
Na Declaração de São Paulo, redigida em 1990, está escrito que a organização é um local de compartilhamento de ideias e experiências para dar força aos ideais de esquerda nos países latino-americanos. Em diferentes trechos do texto, é dito que o movimento deve ser “democrático” e “partir da vontade do povo”.
Então vamos deixar claro aqui: a conspiração que tem sido alimentada há anos pela direita não é a de que Lula criou o Foro de São Paulo para ajudar a esquerda a chegar ao poder em diferentes países da América Latina.
O que as pessoas compartilhavam — principalmente com base nos textos e vídeos de Olavo de Carvalho (1947-2022) e em declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — era que essa organização buscava a implementação de um regime comunista na região, a abolição das soberanias nacionais e a criação de uma grande federação socialista, conhecida como Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina).

Essa alegação não é baseada em evidências e foi negada pelo Instituto Lula em 2018. Também é importante ressaltar que uma das diretrizes do Foro é que a definição do regime político cabe a cada país e sua população.
A única citação à palavra “comunista” na Declaração Final publicada em 2023, por exemplo, fazia referência ao nome do PCdoB, um dos membros da organização.
Mesmo em 2010, época em que partidos de esquerda lideravam governos nos maiores países da América Latina, nada semelhante foi colocado em prática pelo Foro de São Paulo.
Desmentido o ponto central da teoria conspiratória, também é importante mencionar que Aos Fatos detectou e checou uma série de outras alegações falsas sobre o Foro de São Paulo nos últimos anos:
- Em seu plano de governo de 2018, por exemplo, Jair Bolsonaro dizia que o número de homicídios no Brasil passou a crescer a partir da criação da organização — o que não faz nenhum sentido;
- Bolsonaro também disse, ao menos seis vezes, que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) fariam parte do Foro de São Paulo, o que é mentira;
- Em 2019, viralizou nas redes a desinformação de que a CIA, serviço de inteligência americano, teria classificado o Foro de São Paulo como organização terrorista;
- Até na eleição da Argentina, circularam publicações que diziam que Javier Milei não conseguiria vencer o candidato da esquerda, Sergio Massa, porque o Foro de São Paulo não iria permitir. O tempo e as urnas desmentiram essa.
É fato, no entanto, que, apesar de defender a democracia, o Foro evita questionar regimes ditatoriais de esquerda, como o da Venezuela. Seus integrantes alegam que a organização preza pela construção do diálogo entre as nações e não defende a interferência externa.
Apesar de se mostrar contraditório em relação às diretrizes da própria organização, esse posicionamento vai de encontro à teoria conspiratória disseminada há anos pela direita: o Foro de São Paulo não controla seus membros. A organização nada mais é do que um grupo de partidos e articulações políticas de esquerda latino-americanos que se reúne anualmente para discutir o cenário político da região.




