A polarização política foi o principal motor da desinformação no Brasil nos últimos dez anos. É o que mostra uma análise das mais de 19 mil checagens publicadas pelo Aos Fatos desde sua fundação, em 2015. Os dois principais personagens checados neste período foram o presidente Lula (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Já os conteúdos virais sobre políticas e eleições representaram mais da metade de tudo o que foi verificado.
Na última década, Aos Fatos checou 167 figuras públicas diferentes, entre presidentes, governadores, prefeitos, congressistas e ministros, e verificou quase 4.000 peças de desinformação. Este trabalho documentou as transformações da desinformação no debate público do país: influenciadores, criadores de conteúdo e até mesmo anônimos que viralizaram se tornaram capazes de moldar o debate.
Um ponto de virada nesta história aconteceu em março de 2018, quando a ex-vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco (PSOL), foi assassinada: pela primeira vez, foi identificada uma campanha viral de descredibilização por meio de mentiras virais. A checagem feita na época registrou mais de 1 milhão de visualizações em apenas um fim de semana.
O contágio da desinformação após o assassinato de Marielle foi uma amostra do que viria pela frente meses depois, nas eleições presidenciais. O então candidato Jair Bolsonaro ascendeu nas pesquisas e redesenhou a polarização no Brasil, dominada por Lula, o PT e o PSDB nas duas décadas anteriores.
“A morte de Marielle deixou claro o poder que mentiras virais têm para mobilizar e direcionar a opinião pública, assim como o papel fundamental que a checagem tem para enfrentar essas ondas desinformativas e preservar a verdade”, afirma Leonardo Cazes, editor-executivo do Aos Fatos.
Bolsonaro não só usou desinformação em sua campanha, como também alimentou a primeira grande ação desinformativa contra o sistema eleitoral brasileiro. O próprio candidato, enquanto estava internado no hospital após ser vítima de um atentado, incentivou a paranoia de que as eleições poderiam ser fraudadas.
Começou, ali, uma campanha de descredibilização das urnas eletrônicas e das eleições que se desdobraria nos anos seguintes. Foram desmentidas 2.138 peças de desinformação eleitoral entre 2015 e junho de 2025.
Com a vitória de Bolsonaro, a mentira se tornou uma forma de governar. Entre 2019 e 2022, Aos Fatos manteve no ar um contador de alegações falsas do presidente. No exercício do cargo, ele deu 6.685 declarações falsas ou imprecisas. A mais repetida foi a de que não houve qualquer denúncia de corrupção em seu governo.
"Era a primeira vez que alguém usava de forma tão evidente a mentira como tática eleitoral e como forma de governar, algo parecido com o que acontecia nos Estados Unidos naquela época, com Donald Trump. Lá, o Washington Post criou um acompanhamento sistemático de checagens das declarações do presidente, e nós pensamos que seria bom fazer algo parecido aqui. A gente só não imaginava que criaria uma verdadeira radiografia das mentiras do Bolsonaro, a partir de checagens feitas todo dia pela equipe. O rigor na apuração e o acompanhamento sistemático tornaram esse projeto referência, inclusive para os políticos”, afirmou o diretor de jornalismo e novas mídias do Aos Fatos, Bernardo Moura.
Na esteira das mentiras do bolsonarismo, vários desinformadores tentaram — e conseguiram — ser eleitos para cargos públicos.
Na polarização entre Bolsonaro e Lula, a verdade ficou pelo caminho. Os dois não foram só as figuras públicas mais checadas como também foram citados mais vezes em peças de desinformação. Enquanto o petista é mais atacado pelas peças enganosas, Bolsonaro, em maior parte, tem suas ações infladas.
Fraudes digitais
Apesar da política ter dominado a desinformação no Brasil na última década, é possível perceber uma nova tendência: há cada vez mais fraudes digitais nas redes.
Nos últimos dois anos, os golpes têm sido cada vez mais comuns. De um total de 60 checagens relacionadas a fraudes digitais feitas em dez anos, 50 foram feitas desde 2023.
Esse tipo de peça de desinformação se aproveita de temas virais do cenário econômico ou político para extorquir ou roubar dados de vítimas. Páginas falsas do governo federal para distribuir benefícios, cobranças mentirosas de alguma tarifa ou taxa e até perfis forjados de crianças que pedem doações para tratar suas doenças.
Boa parte dos golpes têm usado vídeos gerados por IA cada vez mais sofisticados. Neles, criminosos reproduzem imagens de influenciadores e políticos para vender produtos sem eficácia.
Com a popularização da inteligência artificial generativa — e, consequentemente, sua evolução exponencial — temos nos deparado cada vez mais com conteúdo desinformativo criado com seu auxílio. Foram 59 checagens, sendo 21 delas só em 2025.
Veja abaixo, em detalhes, os principais dados sobre os dez anos de checagens do Aos Fatos:
- Cerca de 15 mil checagens de declarações;
- Dessas, 6.306 declarações únicas;
- 167 atores políticos diferentes foram verificados;
- Jair Bolsonaro foi a pessoa mais checada, com 4.851 alegações únicas. Esse número se dá, principalmente, por conta do agregador de declarações do então presidente, que esteve no ar entre 2019 e 2022;
- 3.972 checagens de peças de desinformação que circularam nas redes, sendo 1.408 sobre política, 697 sobre eleições e 594 sobre saúde;
- Somados, esses temas representam 68,8% do conteúdo checado;
- Lula foi o personagem mais citado pelas peças de desinformação. Foram 677 menções contra 566 de seu adversário político, Bolsonaro;
- Das 594 checagens sobre saúde, 506 foram relacionadas à pandemia de Covid-19;
- Foram cobertas eleições em cinco países, e publicadas 606 checagens apenas sobre pleitos brasileiros.
Checagem do debate público
Aos Fatos foi criado em 7 de julho de 2015 com o intuito de qualificar o debate público ao desmentir — e documentar — as desinformações contadas por políticos. A primeira checagem publicada foi ao ar no dia 17 daquele mês e analisava quatro declarações do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PRD-SP).
Ao longo de uma década, Aos Fatos acompanhou cinco eleições — momento em que a qualificação do debate público é ainda mais crucial. A reportagem cobriu 51 debates — a grande maioria com checagens ao vivo.
O primeiro confronto entre candidatos com checagens em tempo real ocorreu em 22 de agosto de 2016, quando, em parceria com o UOL, a Redação checou o que diziam os candidatos à Prefeitura de São Paulo que participaram do debate da Band.
Fora dos pleitos, foram verificadas declarações de quatro presidentes da República, além de deputados, senadores, ministros do Executivo, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), presidentes de entidades e até advogados que atuaram em casos de corrupção, como a Lava Jato.
Uma das ferramentas lançadas pelo Aos Fatos para acompanhar e qualificar o debate público foi o contador de declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Seguindo os moldes do Fact Checker, do Washington Post, que à época acompanhava o primeiro mandato de Donald Trump, o produto era atualizado diariamente com checagens que mostravam as mentiras e distorções contadas pelo chefe do Executivo brasileiro. Ao fim do mandato, Bolsonaro acumulava 6.685 declarações incorretas.
Em 2020, ano marcado pelo início da pandemia de Covid-19 e pelas eleições municipais, o contador registrou o maior número de checagens da história do Aos Fatos: foram 1.685 alegações verificadas.
“Bolsonaro inaugurou um estilo de comunicação direta com o público, através das redes sociais, e evitava qualquer espaço onde fosse obrigado a enfrentar o contraditório. Apesar disso, o próprio noticiário se alimentava de suas declarações absurdas em busca de audiência, o que funcionava como um amplificador de desinformação. Daí a necessidade de manter um monitoramento sistemático de suas declarações”, explica Cazes.
Nesses dez anos, além do UOL, Aos Fatos também realizou checagens em conjunto com a TV Cultura, além de colaborações com iniciativas como Agência Pública, Comprova, Estadão Verifica, Lupa e Núcleo, entre outros. Também foram feitas parcerias com podcasts de grande alcance, como o Flow e o Inteligência Ltda.
A cobertura das eleições municipais de 2024, na qual Aos Fatos se aliou aos podcasts e à TV Cultura, rendeu, inclusive, o prêmio internacional de impacto no GlobalFact 2025, maior evento de checadores do mundo.
Segundo o corpo de jurados, as checagens “resultaram em impactos significativos no mundo real, incluindo mudanças de políticas, correções em registros públicos, responsabilização ou mudanças na compreensão pública de questões críticas”.
Desinformação nas redes
Desde 2015 Aos Fatos produziu 3.972 checagens de peças de desinformação, que enganavam principalmente sobre questões políticas (1.408 checagens), eleitorais (697) e de saúde (594). Somados, esses temas representam 68,8% do conteúdo verificado.
A primeira verificação sobre informações falsas que circulavam em redes sociais foi publicada em 20 de maio de 2016 e desmentia uma alegação do MBL (Movimento Brasil Livre). Para defender o enxugamento dos ministérios adotado por Michel Temer (MDB), o grupo alegava que países reconhecidos como pólos culturais, como França, Estados Unidos e Alemanha, não tinham um Ministério da Cultura. A alegação foi considerada exagerada.
Personagens. O cenário polarizado da última década se refletiu no ranking de personagens que protagonizaram as checagens do Aos Fatos. Com 677 menções, o presidente Lula (PT) foi o mais citado; logo em seguida, com 566 citações, aparece seu principal adversário político, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Alvo de constantes ataques da extrema direita antes e durante o governo Bolsonaro, os veículos de imprensa aparecem em terceiro lugar, com 136 menções. Na sequência, estão o PT, com 105 menções, e manifestações políticas diversas, que foram assunto de 93 checagens. Mentiras sobre o STF e as urnas eletrônicas aparecem logo em seguida, com 91 menções cada.
Cronologia. Entre 2015 e 2017, as peças enganosas ainda não davam indícios claros da polarização que tomaria conta do cenário político a partir de 2018.
O primeiro ponto de virada ocorreria em março daquele ano, quando uma onda de desinformação tomou conta das redes após o assassinato da então vereadora Marielle Franco. Nos dias que se seguiram à morte da política, passaram a circular uma série de boatos virais, que a associavam ao crime organizado e faziam alegações infundadas sobre sua biografia.
O desmentido publicado na época se tornou um dos textos mais acessados do Aos Fatos, com mais de 1 milhão de visualizações em apenas um fim de semana.
A situação se agravou nos meses seguintes, quando o então deputado federal Jair Bolsonaro escalou em popularidade publicando mentiras que desabonavam seus concorrentes políticos, em especial o petista Fernando Haddad.
O tom da campanha foi dado por pautas de tom moralista, capitaneadas por mentiras como o “kit gay”. Bolsonaro e seus apoiadores atribuíram a Haddad, que havia sido ministro da Educação durante o governo Lula, uma espécie de agenda que buscava doutrinar crianças e adolescentes por meio da “ideologia de gênero”, teoria conspiratória que continua circulando nas redes até hoje.

Durante a campanha, peças de desinformação virais alegavam que Haddad havia criado um material escolar destinado a sexualizar crianças, o que incluía uma “mamadeira erótica”. Outros posts diziam que o candidato havia escrito um livro defendendo o incesto e que ele teria até mesmo estuprado uma criança.
Do outro lado do espectro político, a maior parte das peças de desinformação buscava inflar o apoio a Bolsonaro, alegando que ele seria o candidato de figuras importantes ou sugerindo que ele e seus eleitores seriam alvos de perseguição. Já outros posts enganosos inventavam falsas promessas do candidato e de seu partido.
O atentado sofrido pelo presidenciável a cerca de um mês da data do pleito levou a uma segunda onda desinformativa. De um lado, apoiadores do ex-militar tentavam associar o agressor, Adélio Bispo, a políticos e partidos de esquerda; do outro, críticos ao candidato tentaram impulsionar a mentira de que a facada teria sido encenada.
Em 2019, a cobertura política do Aos Fatos se intensificou e Bolsonaro, em seu primeiro ano de governo, se tornou o personagem mais citado pelas peças de desinformação. O ex-presidente recebeu menções em 55 conteúdos desmentidos naquele ano, sendo que metade deles (27) tentavam favorecer sua imagem ou a de seu governo.
Pandemia e eleições. A partir de 2020, o surto de Covid-19 alterou o universo da desinformação e tornou a saúde o tema mais recorrente entre as peças de desinformação desmentidas pelo Aos Fatos. Foram 249 checagens sobre o assunto, contra 162 sobre política.
Os posts enganosos, que muitas vezes ecoavam declarações do governo Bolsonaro, questionavam o número de mortos em decorrência da doença e disseminavam mentiras sobre tratamentos sem evidências, como o antimalárico hidroxicloroquina e o antiparasitário ivermectina. Essas mentiras se perpetuariam durante toda a pandemia.
Naquele ano, Bolsonaro seguiu como o personagem mais citado pelas peças enganosas, que em sua maioria o enalteciam: 44 das 54 publicações checadas sobre o presidente (cerca de 81%) tinham teor positivo e inflavam sua popularidade ou atribuíam ao governo obras de outras gestões.
No fim daquele ano, a atenção dos desinformadores se voltou para as campanhas eleitorais que ocorriam no Brasil e nos Estados Unidos. Foram checadas 41 peças relacionadas às eleições municipais brasileiras e 31 sobre as americanas.
A despeito das diferenças nos sistemas de votação dos países, predominaram nos dois casos narrativas enganosas sobre fraude eleitoral. No Brasil, posts alardeavam que as urnas eletrônicas haviam anulado milhões de votos e que autoridades teriam encontrado equipamentos violados em diferentes regiões do país.
Esse discurso, sustentado pelo próprio presidente Bolsonaro, seria usado como parte do arsenal de mentiras para atacar o sistema eleitoral a partir de 2022.
Nos Estados Unidos, a derrota de Donald Trump também fez viralizar uma série de mentiras sobre o sistema de votação, que incluíam alegações sobre cédulas enterradas e votos descartados em diversos pontos do país.
As mentiras sobre sistemas de votação desmentidas pelo Aos Fatos ao longo de sua história não se limitaram a casos supostamente ocorridos no Brasil ou nos Estados Unidos. Em dez anos, foram verificadas 92 alegações falsas sobre fraudes supostamente ocorridas em cinco países.
Fim do governo Bolsonaro. O ano com o maior volume de checagens eleitorais foi 2022, quando Aos Fatos publicou 361 desmentidos sobre o pleito presidencial que elegeu Lula. Isso representa mais da metade do total de verificações feitas sobre eleições em dez anos.
As mentiras sobre política começaram a suplantar os boatos sobre saúde ainda em 2021, ano em que os processos de Lula foram anulados pelo STF e, consequentemente, o petista se cacifou como candidato. Naquele ano, 43% das publicações checadas já refletiam uma disputa eleitoral antecipada entre Bolsonaro e seu rival.
A campanha massiva realizada por Bolsonaro e seus aliados pela implementação do voto impresso no país a partir da metade do ano também fez ressurgir uma série de boatos infundados sobre urnas eletrônicas, que sugeriam que teria havido fraude em 2014, 2018 e 2020.
O movimento desinformativo foi se intensificando na medida em que se aproximava o pleito presidencial de 2022. Naquele ano, mentiras sobre política e eleições corresponderam a 76% de tudo o que foi checado. Lula e Bolsonaro foram os protagonistas dos boatos, com 156 e 151 menções, respectivamente.
Embora os números fossem próximos, os objetivos das peças eram distintos: enquanto a maior parte das alegações sobre Lula tentava desaboná-lo e associá-lo ao crime, a maioria dos posts sobre Bolsonaro apresentava sua gestão sob uma ótica favorável, associando-o a dezenas de obras pelo país.
Agora. No terceiro mandato de Lula, a polarização política segue dando o tom da desinformação.
Em 2023, o presidente também continuou como principal personagem dos boatos, protagonizando 200 posts desmentidos pelo Aos Fatos. Bolsonaro aparece em seguida, citado em 42 publicações falsas.
A desinformação naquele ano também foi abastecida por informações falsas sobre o atentado golpista de 8 de Janeiro. Trinta e oito peças de desinformação disseminavam mentiras sobre os ataques, seja para tentar culpar a esquerda, seja para alegar que o governo tinha ciência do que ocorreria, mas nada fez.
Já em 2024, os destaques ficaram por conta das eleições municipais no Brasil, que mais uma vez ressuscitaram alegações enganosas sobre fraudes, além dos pleitos nos Estados Unidos, na França e na Venezuela. Essas publicações representaram 42% das checagens publicadas no ano passado.
Outra tendência dos últimos anos são os golpes. De um total de 60 checagens relacionadas a fraudes digitais feitas em dez anos, 50 foram publicadas desde 2023.
Criadas a partir de temas do noticiário político e econômico, essas peças promovem benefícios inexistentes ou campanhas de arrecadação falsas para roubar dinheiro e dados pessoais de usuários.
Grande parte dos posts garante verossimilhança por meio de vídeos gerados por inteligência artificial. Criadas a partir de registros de políticos e celebridades, essas gravações emprestam autoridade às peças, que direcionam para sites e plataformas de pagamento fraudulentas.
O caminho da apuração
Para elaborar o levantamento, Aos Fatos utilizou técnicas de análise de dados aplicadas ao acervo de checagens publicadas entre 2015 e junho de 2025. Foram contabilizadas as verificações de declarações de políticos e figuras públicas, além das peças de desinformação checadas em redes sociais e aplicativos de mensagem. A equipe organizou as informações por tema, personagem, tipo de conteúdo e ano.
Além da análise quantitativa, a apuração envolveu a recuperação de textos antigos e registros de parcerias jornalísticas para contextualizar momentos-chave da atuação da equipe, como a cobertura das eleições e da pandemia de Covid-19.
Para mensurar o impacto de campanhas específicas de desinformação, a reportagem considerou métricas de engajamento nas redes e dados de acesso aos desmentidos publicados. O trabalho também cruzou dados de checagens com registros públicos e declarações oficiais para documentar a evolução da desinformação no país.




