Desinformação sobre fraude eleitoral aparece mais de 300 vezes em uma semana em grupos de WhatsApp

Por Bruno Fávero, João Barbosa e Marina Gama Cubas

25 de novembro de 2020, 17h45


Mensagens que usam desinformação para questionar a lisura das eleições municipais no Brasil foram compartilhadas ao menos 303 vezes em 55 grupos de discussão política no WhatsApp monitorados pelo Radar Aos Fatos. Os compartilhamentos ocorreram em apenas uma semana, desde a votação de primeiro turno, no último dia 15, até o domingo (22).

Alegações sem base em evidências de que o pleito pode ter sido fraudado, que foram comuns durante toda a campanha deste ano, ganharam força nas redes sociais desde o domingo de eleições, quando o discurso foi impulsionado por influenciadores e até parlamentares que apoiam o presidente Jair Bolsonaro.

O levantamento do Radar indica que grupos de bolsonaristas e de direita também concentram mensagens desinformativas sobre o assunto no WhatsApp — 247 (81%) dos compartilhamentos encontrados foram em espaços com esse perfil, enquanto o resto estava em grupos sem posição política declarada.

Muitas das mensagens compartilhadas no aplicativo ecoam declarações de políticos e influenciadores em outras plataformas — como Twitter, Facebook e YouTube — que questionaram a lisura das eleições nos últimos dias.

Um exemplo é a mensagem abaixo, compartilhada um total de 12 vezes nesses grupos, acompanhada de um link do YouTube. No vídeo, Allan dos Santos, do site bolsonarista Terça Livre, afirma que a empresa Smartmatic ajudou a fraudar eleições no Brasil — teoria da conspiração já desmentida pelo Aos Fatos e por outros veículos de checagem.

Nessa entrevista que o jornalista Allan dos Santos concedeu ao canal americano OAN é possível ver a a verdadeira origem da empresa Smartmatic. Assista, curta... TRUMP PUBLICA ENTREVISTA DE ALLAN DOS SANTOS

Outra mensagem, compartilhada ao menos 9 vezes, reproduz um tweet do jornalista bolsonarista Oswaldo Eustáquio, que usou o atraso na divulgação dos resultados do primeiro turno para afirmar que as eleições estariam sendo fraudadas.

URGENTE: Apuração das eleições travadas em todo Brasil. Em São Paulo apenas 0,39% dos votos foram apurados. Os R$ 20 bilhões do TSE não servem para nada. Cheiro de fraude. Travaram as parciais. Vão declarar como vencedor quem quiserem. ASCOM OE

Um terceiro exemplo, compartilhado ao menos 7 vezes, pede a implementação do voto impresso e dá link para um vídeo em que o presidente Jair Bolsonaro afirma ter sido vítima de fraude nas eleições de 2018, que ele venceu. O Aos Fatos também já mostrou que não há evidências de que isso tenha acontecido e que uma denúncia com essa mesma alegação foi arquivada por falta de provas.

O voto impresso deve ser uma realidade. O Parlamento, como sempre, vai atender a vontade popular.

Para fazer o levantamento, o Radar usou um banco de dados desenvolvido em parceria com a empresa de tecnologia Twist, que coleta diariamente mensagens de cerca de 80 grupos de discussão política, de diferentes ideologias.

Foram encontradas 684 mensagens publicadas em 55 grupos, entre 15 e 22 de novembro, que continham termos relacionados à discussão sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. As 360 com mais compartilhamentos nesse universo foram analisadas individualmente — 164 delas, compartilhadas um total de 303 vezes, continham algum tipo de desinformação sobre o assunto.

Sem cobertura. Uma análise dos links mais compartilhados nessas 684 mensagens ainda mostra a baixa penetração da imprensa profissional na discussão dos grupos sobre a confiabilidade das eleições.

Dos 25 sites mais compartilhados, apenas dois — G1 e BBC — são de veículos noticiosos, que somaram 47 compartilhamentos (10% do total dos domínios mais populares nesse universo). Já blogs bolsonaristas concentraram 352 compartilhamentos (81%) e sites conservadores dos EUA tiveram 77 links (16%).

Outro lado. O Aos Fatos tentou contato com Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio, citados na reportagem, mas não teve retorno até a publicação deste texto.

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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