Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Desinformação sobre Covid-19 soma cerca de 3 milhões de visualizações em canais antivacina no Telegram

Por Bianca Bortolon, Débora Ely, Ethel Rudnitzki, João Barbosa e Milena Mangabeira

10 de novembro de 2021, 15h56

Canais antivacina no Telegram alcançaram mais de 2,9 milhões de visualizações com desinformação sobre imunizantes contra a Covid-19, defesa de remédios sem eficácia para o combate à doença e teorias conspiratórias a respeito da pandemia. Análise do Radar Aos Fatos mostra que, de janeiro a outubro deste ano, ao menos 304 mensagens com alegações enganosas foram compartilhadas nesses fóruns no Brasil.

Esse número representa 30% das mil mensagens mais populares enviadas pelos dez canais antivacina com maior audiência do Telegram, que têm entre 3.500 e 20,6 mil inscritos. As demais publicações são opiniões e relatos pessoais, que não entraram na conta por sua natureza subjetiva.

Em crescimento no Brasil, o Telegram não apresenta em seu site nenhuma política contra desinformação sobre vacinas e não tem representantes legais no país, diferentemente de plataformas como Facebook, Twitter e YouTube. O Radar entrou em contato com a empresa por meio de seu robô direcionado para atendimentos à imprensa, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Embora seja um aplicativo de mensagens instantâneas, o Telegram apresenta características que o aproximam de uma rede social de massa. Ele autoriza, por exemplo, até 200 mil integrantes em grupos, enquanto o WhatsApp, seu principal concorrente, tem um limite de 256 pessoas. Além disso, a plataforma permite canais com número ilimitado de inscritos. Neles, as mensagens são publicadas apenas por moderadores — opção que não existe no WhatsApp.

FALSOS RISCOS

A desinformação mais frequente nos canais analisados é que as vacinas contra Covid-19 causam reações graves e mortes — o que não foi comprovado até o momento. Esse tipo de conteúdo enganoso esteve presente em 96 publicações, que totalizaram 914 mil visualizações.

A mensagem com maior alcance (53,6 mil visualizações), por exemplo, trazia um trecho descontextualizado de uma entrevista do presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, com um suposto alerta de risco sanitário grave para os vacinados, o que é falso. Na verdade, Barra Torres criticava um artigo de um projeto de lei que propunha a liberação de imunizantes sem análise do órgão regulador. O artigo acabou vetado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Também foram encontradas mensagens que distorciam dados presentes em sites oficiais para dizer que agências reguladoras reconheciam “milhares de mortes” pelas vacinas contra a Covid-19. Aos Fatos já checou peças de desinformação semelhantes envolvendo a Anvisa e o CDC (Center for Disease Control, órgão de saúde do governo americano), que publicam em suas bases de dados sobre os imunizantes relatos que ainda não foram investigados pelos órgãos reguladores.

MUDANÇA DE DNA E MAGNETISMO

Teorias conspiratórias relacionadas aos imunizantes e à Covid-19 são o segundo tema mais recorrente nas peças de desinformação compartilhadas nos grupos antivacina, com pelo menos 666 mil visualizações em 85 publicações.

Um exemplo é um vídeo no qual a médica norte-americana Carrie Madej afirma que as vacinas contra a Covid-19 “são projetadas para nos tornarem organismos geneticamente modificados”, que teve 15,2 mil visualizações. A alegação da médica é falsa porque as vacinas não têm capacidade de interação com o DNA humano.

Outra mensagem frequente nos grupos (visualizada mais de 7.400 vezes) compartilha um vídeo que mostra uma moeda grudada no braço de uma pessoa e afirma que a vacina magnetiza o corpo. Como o Aos Fatos já checou, não há elementos na composição química dos imunizantes contra Covid-19 com capacidade para atrair metais.

VACINAS “EXPERIMENTAIS”

O Radar também mapeou 61 mensagens enganosas que alegavam que as vacinas contra a Covid-19 são “experimentais” ou que não passaram por todas as etapas de testes antes de serem aplicadas na população. Esses conteúdos reuniram 787,8 mil visualizações nos canais analisados.

A argumentação é falsa, pois os quatro imunizantes aprovados no Brasil — CoronaVac, AstraZeneca, Pfizer e Janssen — passaram pelas fases necessárias para atestar sua segurança e eficácia: a pré-clínica e as três etapas de testes. Os resultados das análises também foram submetidos ao escrutínio da Anvisa, que autorizou o uso das vacinas.

QUESTIONAMENTOS SOBRE EFICÁCIA

Já informações distorcidas sobre a eficácia dos imunizantes contra a Covid-19 apareceram em 30 mensagens, que chegaram a 307 mil visualizações. Uma delas, com 7.200 visualizações, descontextualiza os dados sobre mortes provocadas pela Covid-19 para sugerir que os óbitos aumentaram em decorrência do início da vacinação, o que não é verdade.

A argumentação ignora que o país enfrentou uma nova onda da pandemia no início deste ano, quando a campanha de imunização caminhava a passos lentos, e que os dados mostram queda expressiva nos óbitos com o avanço das vacinas.

Além disso, uma mensagem com 6.000 visualizações difundia uma notícia sobre a hospitalização de pessoas vacinadas em Israel para sugerir que as vacinas contra a Covid-19 não imunizam contra a doença. Como Aos Fatos mostrou recentemente, os casos de infecção entre vacinados não demonstram que os imunizantes não funcionam. Pessoas vacinadas têm menos chance de contrair e disseminar a doença e, se infectadas, têm menor probabilidade de desenvolver quadros graves ou morrer.

DEFESA DO SUPOSTO “TRATAMENTO PRECOCE”

Além de disseminar desinformação sobre imunizantes contra a Covid-19, os canais também serviram para defender medicamentos ineficazes contra a doença. Entre as mensagens analisadas, 27 promoviam o uso de remédios como a hidroxicloroquina e tiveram mais de 216 mil visualizações.

Uma das postagens, vista por 8.100 usuários, reconhecia a eficácia dos imunizantes como preventivos, mas afirmava que o uso de hidroxicloroquina, ivermectina, zinco e vitaminas D e C ainda era necessário, com a alegação falsa de que reduzem as chances de agravamento da Covid-19.

Outros discursos desinformativos relacionados à pandemia foram amplificados no Telegram, como alegações inverídicas sobre a eficácia do uso de máscaras na prevenção ao contágio, sobre uma suposta supernotificação de mortes por Covid-19 no país e sobre transmissão de anticorpos por assintomáticos. Juntas, cinco mensagens com esses conteúdos foram visualizadas 40,8 mil vezes.

METODOLOGIA

O Radar Aos Fatos coletou, por meio da API pública do Telegram, as cem mensagens mais visualizadas nos dez maiores canais antivacina do país mapeados pela reportagem. Essas publicações foram enviadas entre 1º de janeiro e 13 de outubro deste ano.

Depois, analisou individualmente cada uma das peças e classificou por tema aquelas que continham informações falsas sobre os imunizantes ou sobre a pandemia.

Referências:
1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 13)
2. Telegram
3. Facebook
4. Twitter
5. YouTube
6. Congresso Nacional
7. BBC

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

Usamos cookies e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade. Ao continuar navegando, você concordará com estas condições.