Apoiadores do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) têm usado alegações enganosas nas redes para tentar desvincular o parlamentar da desinformação sobre a taxação do Pix. O movimento ocorre na esteira de declarações de autoridades, que alegam que a mentira atrapalhou o combate a um esquema do PCC (Primeiro Comando da Capital).
A Operação Carbono Oculto revelou um esquema da facção que envolvia fintechs e fundos de investimento e movimentou dezenas de bilhões de reais entre 2020 e 2024.
Segundo os investigadores, a desinformação sobre a taxação do Pix que circulou no início do ano — época em que Ferreira publicou um vídeo viral sobre o assunto — teria revertido uma instrução normativa que poderia ter auxiliado no monitoramento dessas transações suspeitas.
Em reação a essas declarações, críticos ao deputado passaram a compartilhar nas redes que Nikolas teria “ajudado” o esquema ao levar à derrubada da instrução normativa.
Defensores do parlamentar, então, iniciaram uma contra-campanha para negar que o vídeo fizesse menção à taxação do Pix — o que desconsidera o contexto da gravação.
Abaixo, Aos Fatos relembra o caso e explica o que as investigações revelaram até o momento:
Campanha para ligar o Nikolas ao PCC
Mesmo que as autoridades não tenham citado o nome do deputado, textos na imprensa e publicações nas redes — tanto de usuários quanto de parlamentares da esquerda — passaram a culpar Ferreira pela desinformação sobre a taxação do Pix.
No X, por exemplo, as hashtags #NikolasajudouoPCC e #ChupetinhaajudouoPCC acumularam dezenas de milhares de publicações.
O deputado Rogério Correia (PT-MG) chegou a protocolar um pedido de abertura de investigação à PGR (Procuradoria-Geral da República) para apurar possíveis crimes relacionados à divulgação de informações falsas sobre o Pix.

O site PlatôBR, com base em fontes do Banco Central e da Receita Federal, publicou uma nota afirmando que as fintechs investigadas na operação atuaram na difusão do vídeo do deputado. Essa informação, que ainda não foi confirmada pelos investigadores, passou a viralizar nas redes com a alegação de que o vídeo de Ferreira havia sido impulsionado pelo PCC.
Vale ressaltar que, até o momento, a investigação não apontou o envolvimento de nenhum parlamentar no esquema criminoso.
Contra-campanha
Aos Fatos identificou dezenas de notas da comunidade escritas entre quinta (28) e sexta-feira (29) que tentam desvincular o parlamentar das mentiras sobre a taxação do Pix. Elas foram publicadas em posts de personalidades como as deputadas federais Tábata Amaral (PSB-SP) e Duda Salabert (PDT-MG), além de notícias da imprensa.
As notas (veja abaixo) alegam que o vídeo teria sido publicado em janeiro de 2025 e, por isso, não poderia ter atrapalhado um esquema que começou em 2020.
Trata-se de uma argumentação distorcida: as autoridades afirmam que a desinformação fez com que o governo revogasse a instrução normativa que poderia ter auxiliado no monitoramento do crime. Isso dificultou o combate ao problema.
É fato, no entanto, que a operação foi iniciada em 2023 e que a medida só foi adotada pelo governo cerca de dois anos depois.

Também há publicações que dizem que Ferreira “foi bem claro sobre não haver taxação do Pix”. Mas não é bem assim.
Conforme mostrado pelo Aos Fatos na época, mesmo que o parlamentar não tenha dito, expressamente, que o Pix seria taxado, seu vídeo levantava dúvidas sobre o caso: na gravação, logo após dizer que “o Pix não será taxado”, ele dizia: “Mas não duvido que possa ser”.
Essa possibilidade, no entanto, nunca existiu, já que a norma da Receita não criava nenhum novo tributo. Outro ponto a se destacar é que a Constituição não permite a cobrança de taxas sobre movimentações financeiras (veja mais detalhes abaixo).
Perfis no X também têm denunciado uma movimentação que aproveita uma falha da rede social para denunciar usuários que estariam publicando que Ferreira seria ligado ao PCC.
E de novo.
— Jéferfon Menezes (@JefinhoMenes) August 28, 2025
Todos os tweets denunciados são de pessoas falando sobre a ligação do Nikolas com o PCC.
E aí @nikolas_dm , explica aí pra gente... como você tá conseguindo fazer aparecer para o twitter que eu estou denunciando alguém sem sequer ter denunciado? https://t.co/YNsVhxCRa8 pic.twitter.com/6GOMc0cWHQ
O que disseram as autoridades
O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, disse, em coletiva realizada pelo MPSP (Ministério Público de São Paulo) na última quinta (28), que a desinformação que circulou nas redes sobre a suposta taxação do Pix tornou mais difícil coibir transações financeiras fraudulentas.
“Essas ‘fake news’ foram tão fortes que, apesar de todo o esforço da Receita Federal, ajudada pela mídia tradicional, não conseguimos reverter as mentiras. Tivemos que dar um passo atrás e revogar a instrução normativa. E as operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras: o crime organizado”, disse.
Em nenhum momento da coletiva, Barreirinhas ou as demais autoridades presentes, como o procurador-geral de Justiça do MPSP, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, e os secretários estaduais de São Paulo, Samuel Kinoshita (Fazenda e Planejamento) e Guilherme Derrite (Segurança Pública) mencionaram o vídeo gravado por Ferreira.
Em outra entrevista ocorrida no mesmo dia, a subsecretária de fiscalização da Receita, Andrea Costa Chaves, também disse que o uso de fintechs pelo crime organizado para lavar dinheiro se apoiou em brechas de regulação, especialmente após a retirada da exigência de envio de dados à Receita no início do ano. Mais uma vez, o vídeo do parlamentar não foi citado.
O presidente Lula (PT) foi o único a fazer uma associação — ainda que indireta — entre a gravação e a operação da PF.
Em entrevista à rádio Itatiaia nesta sexta (29), Lula disse que houve um “deputado que fez uma campanha contra as mudanças que a Receita Federal propôs e agora está provado que o que ele estava fazendo era defender o crime organizado”. O presidente afirmou ainda que naquela época a mudança proposta “era para combater o crime organizado”.
Relembre o caso da taxação do Pix
No início do ano, começou a circular nas redes que transações acima de R$ 5.000 feitas por Pix seriam taxadas pelo governo federal. Conforme checado pela primeira vez pelo Aos Fatos, em 9 de janeiro, o valor fazia confusão com uma norma da Receita Federal publicada em setembro de 2024, que havia entrado em vigor em 1º de janeiro.
O texto fazia parte de uma atualização do e-Financeira, sistema que concentra dados sobre movimentações acima de determinados valores.
As regras estabeleciam novos limites de valores que deveriam ser informados ao Fisco e estendia a obrigatoriedade de fornecer essa informação — assim como outras já prestadas por bancos — a instituições de pagamentos, como fintechs.
Naquela época, o governo já afirmava que a norma fortaleceria a segurança fiscal e melhoraria a identificação de movimentações que poderiam estar ligadas a crimes financeiros.
O texto foi revogado em 15 de janeiro — um dia depois de Ferreira publicar um vídeo sobre o assunto, e quase uma semana após a desinformação sobre a taxação do Pix começar a circular nas redes. Com a revogação, as fintechs continuaram desobrigadas a fornecer informações sobre movimentações financeiras ao Fisco.

Na gravação, além de levantar dúvidas sobre uma possível taxação, Ferreira afirmava que “trabalhadores que já vivem no aperto agora terão suas movimentações vigiadas, como se fossem grandes sonegadores”. O parlamentar, no entanto, omitia que instituições financeiras tradicionais, como bancos, já forneciam à Receita informações sobre movimentações de seus clientes, em razão de uma lei promulgada em 2001.
Em entrevista ao Jornal Nacional naquela época, Ferreira disse que tomou cuidado para não desinformar no vídeo. “De fato, eu coloquei que não duvidaria se também o Pix fosse taxado no futuro, mas deixei bem claro que o Pix não será taxado”, afirmou.
Já naquele momento, especialistas e integrantes do governo falavam que o recuo ajudaria o crime organizado.
Outro lado
Aos Fatos entrou em contato com a assessoria do deputado federal na noite desta sexta-feira (29) para que ele pudesse comentar a reportagem. O texto será atualizado caso haja resposta.
O caminho da apuração
Aos Fatos assistiu a entrevistas de órgãos públicos sobre a Operação Carbono Oculto, verificou declarações dadas por políticos, como o presidente Lula e parlamentares, e consultou normas publicadas pela Receita Federal. Contextualizamos também o texto com outras reportagens publicadas pelo Aos Fatos sobre o Pix.




