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Críticas legítimas à decisão do governo Lula de importar arroz se misturam a mentiras nas redes

Por Alexandre Aragão

29 de maio de 2024, 15h30

Sem ele não há baião, estrogonofe ou feijoada. Em peso consumido, segundo o IBGE, o arroz só fica atrás do feijão e do café — a santíssima trindade da dieta nacional.

Desde a tragédia climática no Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção do cereal no país, a preocupação com a possibilidade de desabastecimento mobilizou o governo federal e os arrozeiros gaúchos e ocasionou limitações impostas por varejistas aos consumidores.

A versatilidade do arroz na culinária se traduziu nas redes, que têm aproveitado para variar receitas: borbulharam mentiras sobre arroz de plástico, arroz com lombriga mutante e até sobre os perigos de requentar arroz, algumas das mais lidas no Aos Fatos nesta semana. Uma velha conhecida, a desinformação sobre arroz paquistanês infectado, voltou a circular.


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Apesar de não usarem termos da política partidária, essas peças falsas buscam questionar a decisão do governo Lula de importar arroz.

Produtores gaúchos criticaram a escolha do Executivo, argumentando que a maior parte da safra deste ano já havia sido colhida e é suficiente para atender a demanda interna. O presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul, Alexandre Velho, classificou a importação como uma “falta de sensibilidade” e alegou que o foco do governo deveria ser recuperar estradas para garantir a logística.

Em um texto que parte da tragédia no Rio Grande do Sul para discutir segurança alimentar e políticas de incentivo ao agronegócio, João Peres, cofundador do site especializado O Joio e o Trigo, escreve que “a escassez de arroz e a especulação devem fazer os preços aumentarem internamente, o que torna o mercado brasileiro atrativo para os produtores, mas péssimo para o todo da sociedade”.

“É uma questão mediada pelo mercado, e não pela prioridade de abastecimento humano”, ele analisa, registrando ainda que, mesmo antes da tragédia, entre janeiro e abril, o Brasil “já havia importado 140 mil toneladas de arroz com casca — ou 3,5 vezes mais que as exportações”.

O leilão do governo federal foi suspenso após ser alvo de especulação dos produtores de outros países do Mercosul, o que por si só é indício de que a coisa não foi muito bem planejada. Ingrediente fundamental na dieta dos brasileiros, o arroz não tem a mesma importância para os nossos vizinhos.

Trazido ao Brasil no século 16 — quando “seu único papel na alimentação era à maneira de um pirão espesso, de variante do pirão de farinha de mandioca, sendo esse mais apreciado que o primeiro” —, o arroz se difundiu após a chegada da corte portuguesa, em 1808, “especialmente pela boia do Exército e, depois, na refeição de toda a camada de funcionários públicos que se formou no Rio de Janeiro”, escreve Carlos Alberto Dória no livro “Formação da culinária brasileira” (Fósforo).

Não é à toa que um cereal tão pequeno desperta tamanha paixão.

Como toda decisão de política pública, a escolha do governo Lula de importar arroz pode e deve ser questionada com base nas evidências disponíveis, em termos factuais, por todas as partes interessadas — deve ser objeto de críticas legítimas, do escrutínio público.

A mistura de mentiras nesse caldeirão só serve para confundir a população e turvar o debate, com vistas a ganhos difusos a um punhado de políticos oportunistas.

Em outubro, nas eleições municipais, restará ao cidadão saber separar uma coisa da outra, como quem cata grãos antes de cozinhá-los.

Colaborou Luiz Fernando Menezes.

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