Não é verdade que um vídeo que mostra uma produtora rural protestando contra uma operação de desapropriação de terra em Goiás tenha a ver com a gestão Lula. Diferentemente do que alegam posts nas redes, a medida foi determinada pelo governo goiano para duplicação da rodovia GO-330, em Catalão (GO).
O conteúdo enganoso acumulava mil curtidas no Instagram até a tarde desta quinta-feira (2). As peças também circulam no WhatsApp, plataforma em que não é possível medir o alcance.
ABSURDO EM GOIÁS! Uma idosa de 78 anos, em prantos, confronta a desapropriação de suas terras sob o olhar da polícia. Este é o Brasil que o desgoverno Lula está construindo!

Publicações nas redes enganam ao associar uma desapropriação de terras em Goiás ao governo federal. A ação foi gravada em vídeo, no qual uma produtora rural aparece tentando impedir o cumprimento da medida. Posts com as imagens alegam que a medida teria sido determinada por Lula, o que não é verdade.
Em setembro de 2025, um decreto do governo de Goiás detalhou as áreas que seriam desapropriadas para as obras de duplicação da rodovia GO-330. Entre elas, está a fazenda Ribeirão, de propriedade de Maria da Paz Silva, produtora rural que aparece no vídeo. O documento é assinado pelo então governador Ronaldo Caiado (PSD).
As obras de duplicação vão ser executadas em trechos e financiadas pelo governo estadual. O primeiro dos trechos, que engloba a área desapropriada da fazenda de Maria da Paz, já foi licitado e a vencedora foi o consórcio formado pelas empresas Lucena Infraestrutura Ltda. e pela Construmil Construtora e Terraplenagem Ltda.
Em nota, o Ministério dos Transportes informou que a gestão da GO-330 é de responsabilidade do governo goiano por meio da Goinfra (Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes).
Procurada por Aos Fatos, a advogada Vanessa Ferreira, que defende Maria da Paz, confirmou que o caso não tem qualquer ligação com a esfera federal.
A produtora rural foi comunicada sobre a decisão em 20 de março. Ao todo, a fazenda tem 24 hectares, dos quais nove serão desapropriados. Ela vive no local há cerca de 50 anos.
Um membro da Comissão de Proprietários Atingidos pela Duplicação da GO-330 afirmou, em entrevista ao g1, que a principal preocupação é evitar que as máquinas avancem além da área necessária para a passagem da rodovia e que partes do terreno sejam utilizadas para outras atividades, como a extração de cascalho.
O vídeo que circula nas redes foi gravado em 29 de maio deste ano, um dia após produtores rurais bloquearem um trecho da GO-330 em protesto contra os valores oferecidos nas desapropriações.
A autorização para a desapropriação ocorreu após a Goinfra realizar o depósito judicial de R$ 550,1 mil para Maria da Paz, valor definido a partir de avaliações técnicas. No entanto, a família ingressou com ação judicial requerendo indenização de R$ 5,8 milhões pela área.
Aos Fatos entrou em contato com a Goinfra e com a secretaria de comunicação do governo de Goiás, mas não teve retorno até a publicação desta checagem.
Em nota divulgada nas redes sociais, a agência negou que tenha invadido a propriedade ou realizado qualquer ameaça à residência da produtora rural. O órgão considera que o valor pleiteado pela família da idosa não possui respaldo técnico e é incompatível com os preços praticados na região.
Já a Comissão de Proprietários alega que as indenizações oferecidas pelo Estado não refletem o valor real de mercado das propriedades rurais.
"A Comissão de Proprietários reitera que nunca se posicionou contra o desenvolvimento da região ou a duplicação da rodovia. No entanto, exige que o direito constitucional à justa e prévia indenização seja respeitado", disse a entidade.
Esta peça de desinformação também foi checada pela Reuters.
O caminho da apuração
Por meio de busca reversa, Aos Fatos encontrou outras versões da gravação e confirmou o contexto real da cena. Em seguida, a reportagem entrou em contato com Vanessa Ferreira, advogada de Maria da Paz, e com o Ministério dos Transportes para confirmar se há relação do governo federal com a obra, o que foi negado.
Aos Fatos também procurou a secretaria de comunicação do governo de Goiás e a Goinfra, mas não teve retorno até o fechamento da checagem.





