Desapropriação de área em Goiás não tem a ver com governo Lula

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Não é verdade que um vídeo que mostra uma produtora rural protestando contra uma operação de desapropriação de terra em Goiás tenha a ver com a gestão Lula. Diferentemente do que alegam posts nas redes, a medida foi determinada pelo governo goiano para duplicação da rodovia GO-330, em Catalão (GO).

O conteúdo enganoso acumulava mil curtidas no Instagram até a tarde desta quinta-feira (2). As peças também circulam no WhatsApp, plataforma em que não é possível medir o alcance.

ABSURDO EM GOIÁS! Uma idosa de 78 anos, em prantos, confronta a desapropriação de suas terras sob o olhar da polícia. Este é o Brasil que o desgoverno Lula está construindo!

A imagem é uma captura de vídeo em formato vertical com faixas de texto na parte superior, central e inferior. No topo, sobre uma faixa vermelha, há um texto em letras brancas e maiúsculas que diz: 'LULA É A SEGUNDA MAIOR VERGONHA DO BRASIL. A PRIMEIRA É QUEM FECHA OS OLHOS PARA O QUE ESTÁ ACONTECENDO.'. A cena principal mostra uma estrada de terra cercada por uma cerca de arame e vegetação verde ao fundo, com árvores espalhadas sob um céu claro. À direita da imagem está um policial militar fardado, usando boné preto, uniforme cinza e colete tático escuro. Ele segura uma folha de papel em uma das mãos e um equipamento preso ao colete é visível na parte frontal do corpo. À esquerda, uma mulher idosa de cabelos brancos, vestindo uma camiseta branca, aparece em movimento diante do policial. Ao centro, um pouco mais ao fundo, há outra mulher, de cabelos presos, usando uma camiseta listrada em azul e branco e calça jeans, olhando para um celular que segura nas mãos. Sobre a parte central da imagem há um texto em letras brancas e maiúsculas que diz: 'COMPARTILHE ANTES QUE CENSUREM!'. Na parte inferior, sobre uma faixa branca, há um selo vermelho com a palavra 'Tristeza' em branco. Ao lado e abaixo dele, em letras pretas e maiúsculas, está escrito: 'IDOSA DE 78 ANOS VIRA SÍMBOLO DE PROTESTO CONTRA DESAPROPRIAÇÕES EM GOIÁS'. 

Publicações nas redes enganam ao associar uma desapropriação de terras em Goiás ao governo federal. A ação foi gravada em vídeo, no qual uma produtora rural aparece tentando impedir o cumprimento da medida. Posts com as imagens alegam que a medida teria sido determinada por Lula, o que não é verdade.

Em setembro de 2025, um decreto do governo de Goiás detalhou as áreas que seriam desapropriadas para as obras de duplicação da rodovia GO-330. Entre elas, está a fazenda Ribeirão, de propriedade de Maria da Paz Silva, produtora rural que aparece no vídeo. O documento é assinado pelo então governador Ronaldo Caiado (PSD).

As obras de duplicação vão ser executadas em trechos e financiadas pelo governo estadual. O primeiro dos trechos, que engloba a área desapropriada da fazenda de Maria da Paz, já foi licitado e a vencedora foi o consórcio formado pelas empresas Lucena Infraestrutura Ltda. e pela Construmil Construtora e Terraplenagem Ltda.

Em nota, o Ministério dos Transportes informou que a gestão da GO-330 é de responsabilidade do governo goiano por meio da Goinfra (Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes).

Procurada por Aos Fatos, a advogada Vanessa Ferreira, que defende Maria da Paz, confirmou que o caso não tem qualquer ligação com a esfera federal.

A produtora rural foi comunicada sobre a decisão em 20 de março. Ao todo, a fazenda tem 24 hectares, dos quais nove serão desapropriados. Ela vive no local há cerca de 50 anos.

Um membro da Comissão de Proprietários Atingidos pela Duplicação da GO-330 afirmou, em entrevista ao g1, que a principal preocupação é evitar que as máquinas avancem além da área necessária para a passagem da rodovia e que partes do terreno sejam utilizadas para outras atividades, como a extração de cascalho.

O vídeo que circula nas redes foi gravado em 29 de maio deste ano, um dia após produtores rurais bloquearem um trecho da GO-330 em protesto contra os valores oferecidos nas desapropriações.

A autorização para a desapropriação ocorreu após a Goinfra realizar o depósito judicial de R$ 550,1 mil para Maria da Paz, valor definido a partir de avaliações técnicas. No entanto, a família ingressou com ação judicial requerendo indenização de R$ 5,8 milhões pela área.

Aos Fatos entrou em contato com a Goinfra e com a secretaria de comunicação do governo de Goiás, mas não teve retorno até a publicação desta checagem.

Em nota divulgada nas redes sociais, a agência negou que tenha invadido a propriedade ou realizado qualquer ameaça à residência da produtora rural. O órgão considera que o valor pleiteado pela família da idosa não possui respaldo técnico e é incompatível com os preços praticados na região.

Já a Comissão de Proprietários alega que as indenizações oferecidas pelo Estado não refletem o valor real de mercado das propriedades rurais.

"A Comissão de Proprietários reitera que nunca se posicionou contra o desenvolvimento da região ou a duplicação da rodovia. No entanto, exige que o direito constitucional à justa e prévia indenização seja respeitado", disse a entidade.

Esta peça de desinformação também foi checada pela Reuters.

O caminho da apuração

Por meio de busca reversa, Aos Fatos encontrou outras versões da gravação e confirmou o contexto real da cena. Em seguida, a reportagem entrou em contato com Vanessa Ferreira, advogada de Maria da Paz, e com o Ministério dos Transportes para confirmar se há relação do governo federal com a obra, o que foi negado.

Aos Fatos também procurou a secretaria de comunicação do governo de Goiás e a Goinfra, mas não teve retorno até o fechamento da checagem.

Referências

  1. Governo Estadual de Goiás (1 e 2)
  2. g1
  3. Instagram (@zapcatalao)
  4. Instagram (@comissaogo330)

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