Não há um único fator que explique a derrota do governo Lula em relação à norma da Receita Federal sobre o Pix, ao contrário do que sugerem opiniões publicadas desde a semana passada.
Além da incompetência do próprio governo em se comunicar e em avaliar o risco político de suas ações, contaram também a bem executada articulação da oposição, a mudança no algoritmo de recomendação do Instagram e uma desconfiança legítima e sedimentada em parte da população de que Lula quer taxar o Pix.
Ao contar a história, como é de se esperar, cada lado envolvido exagera aspectos favoráveis, minimiza desfavoráveis e puxa a brasa para a própria sardinha. Pegando retalhos de cada narrativa, no entanto, é possível chegar a uma avaliação mais ponderada — os múltiplos fatores interligados que tiveram influência no episódio.
“Alguns no governo se convenceram, até, de que o vídeo só cruzou 300 milhões de visualizações no Instagram porque a Meta manipulou o algoritmo para lhe dar um empurrão”, escreveu Pedro Doria no Globo. “Não há qualquer evidência disso”, completou.
Acontece que há, sim, evidência de que o algoritmo do Instagram mudou. Não só evidência, mas a confirmação de executivos da empresa de que houve uma mudança no algoritmo para voltar a recomendar conteúdo político.
É fato que apoiadores de Lula aproveitaram a informação verdadeira da mudança no algoritmo para disseminar teorias conspiratórias de que houve manipulação, como Doria escreveu. Mas só porque existe desinformação pró-governo nas redes não quer dizer que nada mudou no algoritmo, como ele conclui.
Um integrante do governo disse ao JOTA, em condição de anonimato, que “o alcance [do vídeo de Nikolas] já é resultado da nova configuração do algoritmo de promover ‘conteúdo cívico’” — algo bem diferente de afirmar que o Instagram “manipulou o algoritmo”.
Em 2023, o principal executivo do Instagram, Adam Mosseri, declarou que a plataforma da Meta não era o lugar para conversas sobre política. No último dia 8, após Zuckerberg anunciar o fim da checagem nos Estados Unidos, Mosseri mudou de ideia e concordou com o chefe, declarando que o Instagram voltaria a recomendar conteúdo político — garantindo maior alcance a perfis como o de Nikolas.
Questionada pelo Aos Fatos, a Meta não negou nem confirmou se já estava recomendando conteúdo político a usuários brasileiros quando o vídeo do deputado viralizou. Aliás, ignorar perguntas tem sido a postura da empresa já há algum tempo. Nesta quarta (22), a empresa liberou uma ferramenta para que os usuários digam se querem ver mais ou menos conteúdo político — confirmando que a nova versão do algoritmo já está em funcionamento por aqui.
Na semana passada, em carta à Advocacia-Geral da União, a Meta havia dito que as mudanças relacionadas à moderação de conteúdo já estavam em vigor no Brasil, ao contrário do encerramento da parceria com os checadores, por enquanto limitado aos Estados Unidos.
Na prática, isso significa que frases como “eu odeio negros” não serão mais removidas do Instagram e do Facebook, a não ser por decisão judicial, como revelou reportagem do Aos Fatos na terça-feira (21).
A Meta abdicou do mínimo de responsabilidade — excluir conteúdos patentemente criminosos —, já que não é obrigada por lei. Questionada, não deu nenhuma explicação além de um link para sua nova política.
O furo foi construído a partir de documentos inéditos, compartilhados pela Meta com funcionários terceirizados e obtidos pela repórter especial Gisele Lobato.
Há seis meses, quando publicamos uma série de reportagens sobre moderação de conteúdo, o panorama já era de pessimismo. Agora, com a Meta alinhada a Trump, a situação tende a piorar:
- Moderadores relatam pressão de big techs e reforçam temor sobre segurança nas eleições (7.jul.2024)
- Com falhas estruturais, IA avança na moderação de conteúdo em meio a demissões em massa (11.jul.2024)
- Com demissões e sem “PL das Fake News”, big techs aprofundam apagão de dados sobre moderação (15.jul.2024)
- Meta e TikTok foram omissos diante de convocação para o 8 de Janeiro, afirmam moderadores (17.jul.2024)
- Brechas de plataformas permitem exploração de crianças, denunciam moderadores (23.jul.2024)
Os melhores profissionais do marketing político entendem a zona cinzenta entre desinformação e opinião, e o vídeo de Nikolas Ferreira navega por esse limiar. O post é sugestivo, mas diz desde o início que o Pix não será taxado; serve para atiçar desinformadores, mas não desinforma pelo conteúdo em si, que é opinativo.
O vídeo viral foi parte de uma estratégia do marqueteiro Duda Lima — que fez as campanhas de Jair Bolsonaro (PL) em 2022 e de Ricardo Nunes (MDB) no ano passado —, pensada após conversa com o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, segundo O Globo.
“Oposição inteligente se faz nos erros do governo, de maneira clara, objetiva, dizendo a verdade e mostrando como poderia ser melhor”, disse Lima à CNN Brasil. “Ninguém precisa inventar nada.”
Em entrevista ao Jornal Nacional no dia em que o governo recuou, Nikolas Ferreira admitiu que tomou cuidado para não desinformar. “De fato, eu coloquei que não duvidaria se também o Pix fosse taxado no futuro, mas deixei bem claro que o Pix não será taxado”, explicou.
O mesmo argumento apareceu em editorial na semana passada, quando O Estado de S. Paulo registrou que “é falsa a informação de que Haddad pretende taxar o Pix”. E emendou na sequência: “Mas o boato só prosperou porque faz sentido diante da sanha arrecadatória de um governo que não quer cortar gastos”.
Tanto o vídeo do deputado como o posicionamento do jornal refletem conversas na sociedade que são influenciadas por desinformação, mas que não necessariamente são desinformativas ou mal-intencionadas.
Profissionais autônomos têm motivos legítimos para desconfiar quando o governo muda uma regra que pode significar um aumento indireto nos impostos pagos — por exemplo, ao identificar movimentações que indiquem serviços prestados sem nota fiscal.
Nesse contexto — e apesar de ter tomado uma proporção muito maior neste início de ano —, peças enganosas sobre uma suposta intenção de Lula em taxar o Pix circulam nas redes desde a eleição de 2022, quando o petista ainda era candidato. Sem levar isso em conta, a norma da Receita Federal parece inofensiva do ponto de vista do risco político, o que não era o caso.
Assim como republicanos utilizaram pesquisas de opinião nos Estados Unidos para escolher ataques contra pessoas trans como uma bandeira política eficaz para atrair votos, o Pix se tornou no Brasil um tema que a oposição bolsonarista não à toa tomou para si. Também não é coincidência que a criação do Pix teve início no governo Michel Temer (MDB), mas desde sempre Bolsonaro mente ao alegar a paternidade — já que se trata de uma inovação com alto índice de aprovação popular.
Aí são determinantes ainda a incompetência na comunicação do governo Lula, demonstrada em diversas crises desde o início do mandato — e muito bem aproveitadas pela oposição —, e a dificuldade crônica do PT em dialogar com trabalhadores da economia digital.
As crises na comunicação do governo e as formas como a oposição cria ou se aproveita delas são determinantes em definir quais serão os temas mais explorados na disputa presidencial de 2026, seja quem for o principal desafiante de Lula. Para os atores políticos, é disso que se trata, no fim das contas.




