Isac Nóbrega/PR

Das críticas públicas aos elogios discretos, o vaivém de Bolsonaro sobre a China

Por Amanda Ribeiro

23 de outubro de 2020, 19h24


O presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar a China na última semana após o Ministério da Saúde anunciar acordo com o governo de São Paulo para adquirir 46 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 que está sendo desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech em parceria com o Instituto Butantan. Segundo ele, a imunização não transmitiria “segurança suficiente para a população por sua origem”. O tom das declarações públicas do presidente, no entanto, difere do discurso protocolar que usa ao abordar a parceria comercial com o país.

Antes um ávido crítico da China, que classificou em entrevista à Bloomberg em 2017 como uma nação “sem coração”, Bolsonaro tem adotado uma política de “morde e assopra” com o país desde que começou a ocupar a cadeira presidencial. Abaixo, Aos Fatos relembra declarações do presidente e mostra as contradições de seu discurso sobre a China ao longo dos últimos anos.


A China não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil - Entrevista ao Jornal da Band em 9 de outubro de 2018

Durante a campanha à Presidência em 2018, Bolsonaro afirmou mais de uma vez que “A China não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil” e que “Se você for vender para o capital chinês, você não está privatizando, você está estatizando para a China”.

Meses antes, em março de 2018, Bolsonaro demarcou a sua postura crítica à China ao visitar Taiwan acompanhado de três filhos: Eduardo, Carlos e Flávio Bolsonaro. Líderes taiwaneses querem a independência da ilha enquanto a China reivindica a região como parte de seu território. Na época, a viagem motivou uma carta da embaixada chinesa no Brasil afirmando que a visita do então presidenciável causou uma “profunda preocupação e indignação".

Ainda quando deputado, Bolsonaro criticava a China por causa dos interesses do país sobre o nióbio presente no Brasil -- ele recorrentemente exalta o metal e critica a venda de direitos de exploração para estrangeiros. Em setembro de 2016, em discurso na Câmara para homenagear o deputado Enéas Carneiro – outro admirador do nióbio –, ele condenou a "entrega" para a China de uma mina do metal em Catalão (GO). Naquele ano, a empresa chinesa CMOC adquiriu as operações de nióbio e fosfato da Anglo American, empresa com sede em Londres e que atuava no Brasil desde a década de 1960.

Pouco depois de vencer as eleições, no entanto, Bolsonaro começou a adotar um discurso muito mais suave contra a China. Em vídeo publicado nas redes sociais em dezembro de 2018, ele afirmou que "Ninguém está contra a China. Nós vamos continuar a fazer negócios com a China. Agora, não podemos permitir que compre nosso Brasil”.


A China é o nosso primeiro parceiro comercial - Discurso em 13 de novembro de 2019

As contradições começaram a se mostrar mais evidentes a partir do primeiro ano do mandato de Bolsonaro como presidente. O Aos Fatos identificou em seu contador de checagens do presidente que, a partir de março de 2019, Bolsonaro passou a adotar um discurso mais protocolar ao se referir à China, que começou a ser chamada de “nosso principal parceiro” e “nosso primeiro parceiro comercial”.

De acordo com dados do Ministério da Economia, a China é, de fato, o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2019, foram exportados US$ 63 bilhões em produtos, em especial petróleo, ferro e soja, e importados R$ 35 bilhões em bens como equipamentos de telecomunicação, máquinas e aparelhos elétricos. Entre janeiro e setembro de 2020, foram exportados R$ 53 bilhões e importados US$ 24 bilhões. O comércio com os EUA, que ocupa o segundo lugar na lista de parceiros, por sua vez, rendeu US$ 15 bilhões em exportações e US$ 18 bilhões em importações, valor bem inferior.

O ápice da suavização do discurso sobre a China ocorreu em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da Band, em março de 2019. Ali, o presidente afirmou, ao mencionar que o governo federal não escolhia parceiros comerciais com “viés ideológico”, que nunca havia criticado a China. Isso, é claro, não é verdade.

Em paralelo, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, também atuou para estabelecer relações cordiais com o parceiro asiático. Fontes ouvidas por reportagem do UOL de maio de 2019 apontam que a atuação da ministra superou a possibilidade de uma crise provocada pela retórica anti-China do presidente, aliada à aproximação com os EUA.

As declarações protocolares sobre o país asiático se estenderam ao longo do ano até a visita do presidente à China em outubro. Na ocasião, Bolsonaro evitou se posicionar na guerra comercial travada entre o país e os Estados Unidos e, ao ser questionado por jornalistas sobre o possível constrangimento de se reunir com o presidente Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista, disse estar “num país capitalista”.


Vocês têm escrito há mais de dois meses que o vírus nasceu na China - Fala em 20 de março em resposta a acusações do deputado Eduardo Bolsonaro sobre a China ser a culpada pela pandemia

Os posicionamentos do presidente voltaram a oscilar em 2020, quando foi noticiada a expansão da Covid-19 na China. Em março, declarações do deputado federal e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), de que a origem do coronavírus era chinesa foram motivo de crise diplomática entre os dois países.

Em defesa do filho, Bolsonaro afirmou a jornalistas que não via problema nenhum na declaração. “Qual é a acusação? Qual é o motivo desse problema? Que o vírus teria nascido na China. É esse o motivo da crise? Vocês têm escrito há mais de dois meses que o vírus nasceu na China”. Dias depois, tentou resolver a crise com um telefonema ao presidente Xi Jinping.

Durante reunião ministerial no dia 22 de abril que teve seu conteúdo levado a público por ordem do então ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Celso de Mello, tanto Bolsonaro quanto seus ministros deram declarações pouco elogiosas à China. O ministro da Economia, Paulo Guedes, por exemplo, afirmou que “A China é aquele cara que você sabe que tem que aguentar, porque pra vocês terem uma ideia, pra cada um dólar que o Brasil exporta pros Estados Unidos, exporta três pra China”.

Em declaração que teve trechos censurados pelo STF por conterem informações diplomáticas sensíveis, Bolsonaro parece dar declaração semelhante: “Então não queremos brigar com [trecho suprimido], zero briga com a [trecho suprimido]. Precisamos deles pra vender? Sim. Eles precisam também de nós. Porque se não precisassem não estariam comprando a soja da gente não. Precisam. E é um negócio, pô. E devemos aliar com quem tem umas… alguma afinidade conosco”.

Publicamente, no entanto, o presidente tentou manter suas falas no tom protocolar de 2019. Em entrevista em março, sugeriu o fim da pandemia ao afirmar, erroneamente, que a curva de infecção de Covid-19 na China vinha caindo; em live no dia 30 de julho, mencionou que o país havia construído um hospital de campanha em dez dias; em agosto, baseou-se em um protocolo do país para defender o uso da hidroxicloroquina.


Tenha certeza, não compraremos vacina chinesa - resposta a usuária nas redes sociais em 21 de outubro

Nos últimos dias, Bolsonaro voltou a adotar um tom de franca agressividade contra o país oriental. O que levou à escalada da situação foi a divulgação de um ofício do Ministério da Saúde que anuncia a intenção de compra de 46 milhões de doses da vacina desenvolvida pela Sinovac. Diante da pressão de apoiadores nas redes, contrários à aprovação e a aplicação da imunização, o presidente desautorizou publicamente seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Até então, o Bolsonaro havia se limitado a dar declarações evasivas e irônicas sobre o caso. Em live no dia 30 de julho, por exemplo, ao anunciar que o governo federal firmaria parceria para transferência de tecnologia de uma vacina produzida e testada pela Universidade de Oxford, ele ironizou o governador de São Paulo, João Doria, e chamou a China de “aquele outro país”.

Em entrevista à rádio Jovem Pan na última quarta-feira (21), Bolsonaro afirmou estar resolvido a não comprar a imunização da Sinovac, já que “lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população”. O presidente também usou como justificativa uma suposta falta de segurança da vacina e aproximou o discurso de um tom conspiratório ao afirmar que “como muitos dizem, esse vírus [Sars-Cov-2] teria nascido lá”.

A fala de Bolsonaro omite, no entanto, que mesmo imunizações de outros países que vêm sendo desenvolvidas contra a Covid-19 dependem de produtos chineses para serem fabricadas. Em entrevista à CNN na última quinta-feira (22), o presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, explicou que a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, que recebe investimentos do governo brasileiro, também usa insumos vindos da China.

A China é, aliás, uma das maiores fontes de insumos médicos do mundo e uma grande exportadora de matérias-primas para medicamentos e vacinas. Desde a posse do presidente, inclusive, a quantidade de insumos importados cresceu, passando de 229 toneladas em 2018 para um resultado parcial de 972 toneladas até setembro de 2020.

Também para desacreditar a vacina chinesa, Bolsonaro afirmou, em coletiva no dia 21 de outubro, que nenhum país do mundo estaria interessado na CoronaVac. A declaração, checada por Aos Fatos em reportagem que analisou seu discurso sobre a imunização, é falsa, porque ao menos três países (Chile, Indonésia e Turquia) participam de testes da CoronaVac ou já têm compromissos para produzi-la.

Colaborou Ana Rita Cunha.

Referências:

1. G1 (Fontes 1, 2, 3 e 4)
2. Band (Fontes 1 e 2)
3. Poder 360
4. Câmara
5. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
6. Planalto (Fontes 1 e 2)
7. Comex
8. UOL (Fontes 1 e 2)
9. Correio Braziliense (Fontes 1 e 2)
10. Folha de S.Paulo
11. Zero Hora
12. Jovem Pan
13. CNN
14. New York Times
15. Governo do Chile
16. Bloomberg
17. Sinovac

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