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Dados de cartórios não indicam que mortes em 2020 estão na média de anos anteriores

Por Luiz Fernando Menezes

26 de novembro de 2020, 15h24

Publicações nas redes sociais que buscam minimizar a pandemia tiram de contexto dados da plataforma de registros de óbito no Brasil para sustentar, de maneira enganosa, que o número de mortes neste ano estaria dentro da média dos anteriores (veja aqui). Não está: o registro mensal de mortes em 2020 já é superior aos de 2017, 2018, 2019, especialmente entre março e outubro, período que coincide com a evolução da Covid-19 no país.

Em junho deste ano, por exemplo, morreram 29 mil pessoas a mais do que no mesmo período de 2019, um aumento de cerca de 28%, de acordo com dados coletados por Aos Fatos na base do Registro Civil nesta quinta-feira (26).

As postagens desinformam ainda ao omitir que os números da plataforma não estão consolidados, especialmente os mais recentes, e que as atualizações podem levar meses. Nesta quinta, a base mostrava 140 mil mortes a mais entre janeiro e outubro de 2020 do que no mesmo período de 2019, ano usado pelas postagens como comparativo.

No Facebook, o conteúdo enganoso reúne ao menos 6.700 compartilhamentos e foi marcado como FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona). A postagens também foi sugerida por leitores no WhatsApp (inscreva-se aqui).


FALSO

Restam pouco mais de 50 dias para acabar o ano de 2020, até o presente momento, foram registrados em todo o Brasil, somando todas as causas morte, um total de 1.187.480 óbitos. O ano de 2019, de janeiro a dezembro, o registro total foi de 1.252.808 óbitos. Portanto, falta um total de 63.328 óbitos, até dezembro, para igualarmos 2019. O que nos faz concluir que os números totais estão dentro de sua normalidade, seguindo conforme as leis naturais da vida. PESQUISEM.

Para questionar a gravidade da pandemia de Covid-19, publicações que circulam nas redes sociais comparam o número total de óbitos registrados em 2019 com os computados em 2020 e sugerem que a situação estaria “dentro da normalidade”. Segundo a mensagem, como teriam sido computadas, neste ano, cerca de 60 mil mortes a menos do que no ano passado, os dados estariam “seguindo conforme as leis naturais da vida”. Mas isso não é verdade: os números da base dos cartórios mostram um crescimento acentuado em 2020.

Assim como outras publicações enganosas, essa utiliza dados do Portal da Transparência do Registro Civil, que, por mais que seja confiável, deve sempre ser contextualizada: os registros podem levar semanas ou até meses para serem atualizados. Isso acontece porque um óbito só aparece no sistema após a família do morto registrá-lo em cartório e o estabelecimento enviar os dados à CRN Nacional (Central Nacional de Informações do Registro Civil), responsável pelo Portal da Transparência, o que pode demorar.

O mais preciso ao fazer uma comparação, portanto, seria desconsiderar ao menos as duas semanas mais recentes. Como a base de dados apresenta os números mensais de registros, o Aos Fatos analisou os dados de janeiro a outubro de cada ano. Nesse período, em 2019, foram registrados 1.059.952 óbitos; em 2020, foram 1.200.567, ou seja, 140.615 a mais (crescimento de cerca de 13%).

Ao comparar os números registrados mensalmente (veja o gráfico abaixo), é possível ver um aumento muito acentuado nas mortes em maio, junho, julho, agosto e setembro. Em junho de 2019, por exemplo, foram registradas 104.253 mortes; em 2020, o mesmo mês computou 134.077 óbitos, 29.824 a mais (aumento de 28%). Vale lembrar que a primeira morte oficialmente causada pela infecção no país ocorreu no dia 12 de março.

Outro ponto omitido pelas peças enganosas é o de que os números oficiais do governo federal apontam que, até a última quarta-feira (25), 170.796 brasileiros já haviam morrido em decorrência da infecção causada pelo novo coronavírus. Esse número já é mais de duas vezes maior, por exemplo, do que o total de homicídios ocorridos no Brasil em 2017 (65.602).

Além disso, em setembro deste ano, quando o Brasil estava na marca dos 130 mil mortos, a doença já havia se tornado a causa de morte com mais vítimas em um único ano já registrado no país, segundo levantamento do UOL.

Referências:

1. Registro Civil (Fontes 1 e 2)
2. Aos Fatos
3. G1
4. Ministério da Saúde
5. Ipea
6. UOL


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