Episódio de estreia de Ctrl+Fake explica como a desinformação faz parte da arquitetura das redes

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Aos Fatos estreia nesta quinta-feira (9) sua primeira série documental, Ctrl+Fake: a desinformação como projeto de poder. O episódio que inaugura a série apresentada pela diretora executiva do Aos Fatos, Tai Nalon, já está disponível no YouTube.

“A captura das redes” tem como ponto de partida a posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em janeiro de 2025. O evento contou com a presença de alguns dos homens mais ricos do planeta – e responsáveis pelas empresas de tecnologia que alteraram drasticamente, nas últimas décadas, as regras da comunicação política.

A partir desse momento histórico, Tai Nalon analisa o conjunto de acontecimentos e de influências que resultaram no cenário atual – em que a desinformação nas redes sociais não é somente abundante, mas age como ferramenta para projetos de poder autoritários.

O episódio retoma as origens da internet e demonstra como, desde a sua concepção, a web foi um espaço com estruturas e regras ditadas por grandes corporações, ao contrário do que hoje crê o senso comum. No entanto, diversos fenômenos, como a massificação dos smartphones, o surgimento de ambientes virtuais fechados e a ascensão dos algoritmos de recomendação elevaram o poder das empresas que controlam a internet a um novo patamar.

Todos esses fatores contribuíram para um ambiente em que vieses humanos são explorados para maximizar o engajamento – e em que os conceitos como “liberdade de expressão” e “fake news” estão sempre em disputa.

Confira a transcrição completa do episódio, feita com o Escriba:


Introdução

Tai Nalon:
É bem fácil perceber o tamanho do poder e da influência das plataformas digitais quando a verdade é objetiva. Em janeiro de 2025, durante a posse de Donald Trump nos Estados Unidos, alguns dos homens mais ricos do planeta deliberadamente se posicionaram, um do lado do outro, para exaltar o retorno ao poder do líder autocrata de uma das mais importantes democracias do mundo.

Mas não eram quaisquer homens sentados no Capitólio nem qualquer tipo protocolar de cerimônia pública. Eram os homens que moldaram o que significa comunicação política nesse século e que, portanto, sabiam bem ao que estavam se associando.

Donald Trump:
“Se você olhar pra alguma dessas pessoas da internet, eu conheço tantos deles. Mas eu sei, não todos eles, sabe, eles me odiavam no meu primeiro mandato e agora eles estão ‘puxando o meu saco’, sabe?”

Tai Nalon:
Estavam na posse do presidente dos Estados Unidos em janeiro de 2025 os donos e CEOs da Meta, da Amazon, do Google, do X, do TikTok e da Apple. Era a primeira vez desde 2020 que alguns desses executivos apareciam juntos em Washington.

Da última vez, líderes do Google, do Facebook, da Amazon e da Apple responderam a perguntas sobre práticas anticoncorrenciais em uma comissão no Congresso. As empresas estavam sendo investigadas sob suspeita de abuso econômico e prática de monopólio. Naquela época, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, disse o seguinte:

Mark Zuckerberg:
“Nós construímos plataformas para compartilhar ideias e debates importantes acontecem em nossos serviços. Eu acredito que, em última análise, isso leve a mais progresso, mas significa que frequentemente nos encontramos no meio de profundas discordâncias acerca de problemas sociais e eleições de alto risco. Eu pessoalmente não acredito que empresas privadas devem tomar tantas decisões acerca dessas questões por conta própria. E é por isso que no ano passado eu defendi que é necessária uma nova regulação para a internet.”

Tai Nalon:
Quase cinco anos depois, o discurso mudou.

Mark Zuckerberg:
“Finalmente, nós vamos trabalhar com o presidente Trump para afastar governos ao redor do mundo que estão indo atrás de empresas americanas pressionando para mais censura.”

Tai Nalon:
O que ocorre agora é, na verdade, um casamento de conveniência em que interesses econômicos são disfarçados de preocupação com o que se convencionou chamar de pautas morais. Ou, mais objetivamente, um modelo de sociedade que melhor serve ao modelo de negócios das plataformas digitais.

Donald Trump:
“Essa semana, eu também vou acabar com a política governamental de tentar implementar socialmente raça e gênero em cada aspecto da vida pública e privada. Nós formaremos uma sociedade que não enxerga cor e baseada no mérito.”

Mark Zuckerberg:
“Nós vamos simplificar a nossa política de conteúdo e nos livrar de várias restrições acerca de assuntos como imigração e gênero, que estão fora de sintonia com o discurso dominante.”

Donald Trump:
“A partir de hoje, será oficializada a política governamental dos Estados Unidos que existem apenas dois gêneros: masculino e feminino.”

Mark Zuckerberg:
“O que começou como um movimento pra ser mais inclusivo tem sido cada vez mais usado para calar opiniões e pessoas com ideias diferentes, e foi longe demais.”

Tai Nalon:
Mas seria essa preocupação estimulada apenas pela conveniência de apoiar o grupo político circunstancialmente mais forte? A verdade pode estar no meio do caminho, numa combinação de modos de agir e ver o mundo definidos por uma dezena de homens sentados num salão em Washington.

O problema é que o resultado desse pragmatismo exacerbado pauta desde como nos relacionamos, como lidamos com o poder e como os poderosos prestam contas ao povo.

Numa sociedade mediada pelas plataformas digitais daquele mesmo grupo de empresários, a própria noção de autenticidade está à venda e a ideia de que a internet serve a todos é mais performática do que real.

Na internet dos anos 2020, nada é o que parece. Mas nem sempre foi assim. O que existe hoje nas plataformas digitais foi cultivado ao longo de anos, num processo que moldou a maneira como nos relacionamos, como gastamos nosso tempo e quantos sentidos diferentes atribuímos a uma mesma palavra.

Dez anos atrás, termos como checagem de fatos, fake news, moderação de conteúdo, censura e liberdade de expressão tinham significados muito diferentes do que representam hoje. Na verdade, muitos desses termos têm valores diferentes, a depender do seu grupo social.

Essas expressões foram capturadas por noções de mundo que as plataformas, ao longo de mais de uma década, conseguiram metrificar e perfilar. Não que antes não fosse exatamente assim, mas essas empresas foram capazes de nos organizar por afinidade de tal modo que nos colocaram em permanente estado de confronto com o que é diferente.

E, se a verdade e os fatos não agradam, tudo bem, há sempre uma solução fácil à venda no mercado das ilusões. Hoje, é possível comprar nas redes sociais falsos remédios naturais de indígenas gerados por inteligência artificial. Também é permitido se consultar com médicos antivacina que estimulam o uso incorreto de suplementos de testosterona para virar macho alfa.

Dá para criar um intercâmbio entre grupos supremacistas em várias plataformas e, nas horas vagas, comprar cartões de vacinação fraudados. É possível incutir a ideia errada de que há um dispositivo na Constituição que autoriza as Forças Armadas brasileiras a agir como um poder moderador e anular uma eleição convenientemente questionada por um grupo de militares e seu estimado líder, amigo de um outro líder de que já falamos aqui.

Este é o Ctrl+Fake, documentário em cinco episódios que narra a ascensão da desinformação digital como projeto de poder. Neste e nos próximos capítulos, vamos entender como as plataformas digitais viraram peça-chave para a comunicação política e como presidentes, empresários, juízes e cientistas passaram a se relacionar com a verdade, com a mentira e com uma sociedade cronicamente online.

Meu nome é Tai Nalon e eu vou guiá-los nessa jornada.

Capítulo 1: Quando tudo era mato

Tai Nalon:
Em pouco mais de uma década, o mundo passou por uma transformação profunda na forma como a gente se relaciona com a realidade compartilhada. Muito disso se deve a como a internet ocupou todos os espaços da nossa vida. Não estamos mais na internet como quem entra ou sai de um trem ou de um barco. A gente vive nela.

E é por isso que os grandes eventos do mundo analógico também se desdobram no mundo digital e vice-versa. Os anos 2010 marcaram essa virada: o digital deixou de ser uma mesa de computador para se tornar a parte inseparável da vida. Foi a década da popularização dos smartphones e das redes sociais.

Dentre os dois, o marco mais simbólico talvez seja a massificação do smartphone. Ele redesenhou o acesso à internet e acelerou a adesão de milhões de usuários às redes sociais e aos aplicativos de conversa. Antes disso, estar online era uma ação pontual: você se sentava diante de um computador, acessava sites, trocava mensagens e depois saía, “voltava ao mundo real”.

A internet era um conjunto de ilhas digitais por onde navegávamos com intenção, começo, meio e fim. O digital era um território que exigia iniciativa: qual site acessar e em qual fonte confiar. Portais eram plataformas para uma estrutura cibernética amparada em trocas de links e navegação entre provedores de conteúdo diferentes.

A internet em si não era um lugar romântico e uma grande terra de oportunidades. No Brasil, ela era elitizada. Dessa forma, havia sim, de fato, uma impressão de que a informação era pulverizada e controlada por várias pessoas horizontalmente. Mas a verdade é que o controle e o acesso eram bem restritos.

Repórter TV Brasil:
“Um estudo do IBGE identificou que 104,7 milhões de pessoas com dez anos de idade ou mais não utilizam a internet — ou seja, 65,2% dos brasileiros. Entre os motivos para justificar a não utilização da rede estão: não achar necessário, não saber usar a internet e não ter acesso a um microcomputador.”

Tai Nalon:
Hoje, 84% dos brasileiros com dez anos ou mais, equivalente a 159 milhões de pessoas, têm acesso à internet. Desses, 96% acessam seus dispositivos diariamente. Dez anos atrás, 66% diziam já ter acessado a internet, dentre os quais 82% entravam todos os dias. Em 2010, só 41% dos brasileiros se diziam usuários de internet.

Ou seja, ao menos no caso dos brasileiros, a última década foi decisiva para a transformação digital de toda a sociedade.

Isso significa que, ao transitarmos pela década de 2010, mais da metade da população brasileira passou a entrar em contato diariamente com o mundo digital. Muito desse mundo já estava projetado dentro de smartphones e os seus aplicativos. Aplicativos esses que têm donos, e donos que estavam há anos construindo empresas especializadas em organizar e compartilhar informação — o que hoje chamamos de redes sociais, mas que antes eram fóruns, blogs e chats.

Nessa época, algumas dessas empresas, glamourizadas como startups fundo de quintal, foram compradas por outras empresas, reduzindo a bem poucos aqueles vários donos da internet.

A infraestrutura digital ficou ainda mais concentrada. Muita gente achava que o Facebook era a internet.

Entre 2014 e 2018, o número de usuários do Facebook no mundo cresceu de 1,39 bilhão para 2,32 bilhões.

Em 2014, cinco em cada dez pessoas que estavam na internet no mundo usavam o Facebook. Em 2018, a proporção saltou para seis usuários a cada dez pessoas.

Com mais gente, vieram também mais posts, vídeos, fotos, pesquisas, memes e todo tipo de mensagem. Ou seja, mais dados sobre todos nós.

E esse manancial de informações chamou a atenção de quem já pensava em como transformar curtidas em votos.

Foi o caso da Cambridge Analytica, que se tornou a queridinha de candidatos ao Congresso dos Estados Unidos em 2014.

CEO da Cambridge Analytica:
“De modo simples, quanto mais você sabe sobre alguém, mais você pode alinhar uma campanha com os seus requisitos ou seus desejos e necessidades.”

Tai Nalon:
Mas guarda essa informação por enquanto, que eu vou voltar nela mais para frente.

Capítulo 2: A internet nunca foi terra de ninguém

Tai Nalon:
Com a popularização das redes, pessoas e instituições que não eram lá muito acessíveis a grande parte da população agora tinham seus próprios perfis e páginas, onde eles publicavam todos os seus pontos de vista sem maiores interferências. Vou falar especificamente do caso da política, porque talvez seja o mais palpável. E porque é a partir dela que vimos o impacto da sobreposição de duas capacidades fundamentais das plataformas digitais: a da desintermediação e a do perfilamento por afinidade. Guarde essas duas expressões, que eu vou chegar a elas.

Não foi um processo do dia para a noite, mas as plataformas digitais permitiram que autoridades, fossem elas presidentes, deputados, senadores, vereadores, pudessem falar diretamente com as suas bases.

Em vez de depender da decisão editorial de canais de TV, rádio, jornais, revistas, agora os políticos tinham um canal livre para poder falar o que eles quisessem, quando quisessem, para um público de dimensão global. Um show de liberdade de expressão.

Quer dizer, esse fenômeno que podemos chamar de desintermediação gerou uma grande transformação do papel do jornalismo.

Donald Trump:
“Eu não vou te dar uma pergunta. Você é fake news.”

Jair Bolsonaro:
“E vocês, TV Globo, o tempo todo infernizam a minha vida, p**”

Tai Nalon:
Em tese, sem intermediários, a informação chegaria pura, na íntegra, sem edição e ruído. Mas não foi bem isso que aconteceu. O poder de decisão sobre a informação que chega ao usuário de redes sociais foi transferido das mãos de alguns poucos para as mãos de outros poucos.

A real é que o usuário comum nunca teve muito poder sobre o formato como as informações seriam veiculadas. Porque quem decide como funcionam as interfaces são as grandes empresas de tecnologia. E aqui cabe uma explicação rápida.

Interface, nesse caso, é a superfície que permite o relacionamento do usuário com o sistema que ele está consumindo.

Um aplicativo tem uma interface — ou seja, pode ter uma tela ou um quadro onde imagens e letras dão um sentido concreto para o funcionamento daquele produto ou serviço.

Portanto, primeiro vieram as interfaces cronológicas, como os blogs, o Twitter raiz, basicamente as plataformas que mostram os conteúdos dos mais recentes aos mais antigos.

Elas privilegiam a transmissão de informações em tempo real, de modo que as publicações mais antigas vão perdendo a relevância.

Depois, vieram as interfaces mediadas por algoritmos. Ou seja, as máquinas passaram a escolher como acessamos determinadas informações, inclusive os perfis dos políticos, os seus discursos e os seus interesses.

Cientes disso, os políticos começaram a ver o potencial de transformar as redes sociais em palanque digital.

Eduardo Bolsonaro:
“Eu estou feliz aqui de ver as imagens das ruas lotadas e eu estou aqui para deixar uma mensagem curta e simples.”

Lula:
“Estamos colocando o pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda.”

André Janones:
“Começando agora o julgamento de Jair Messias Bolsonaro.”

Tai Nalon:
E no fim, converter usuários em eleitores. Mas para que isso acontecesse, eles precisavam entender o comportamento das pessoas na internet e como elas reagiriam aos fatos e aos seus discursos mais emocionados.

Silas Malafaia:
“Até quando o Supremo Tribunal Federal vai bancar o ditador Alexandre de Moraes?”

Tai Nalon:
E também as mentiras.

Jair Bolsonaro:
“Um governo que termina o ano sem uma acusação de corrupção.”

Tai Nalon:
E aí, lembra da sobreposição entre desintermediação e perfilamento que eu falei? Então, vamos entender um negócio.

Capítulo 3: Quando tudo era mato

Tai Nalon:
No livro “Os Engenheiros do Caos”, o ensaísta Giuliano da Empoli fala de um fenômeno tecnológico fundamental que se intensificou nos últimos anos. Ele escreve:

Giuliano Da Empoli:
“Pela primeira vez, os comportamentos humanos, que continuavam a ser até então fins em si mesmos, começaram a produzir um fluxo maciço de dados. Graças à internet e às redes sociais, nossos hábitos, nossas preferências, opiniões e mesmo emoções passaram a ser mensuráveis. Hoje, cada um de nós se desloca voluntariamente com sua própria gaiola de bolso, um instrumento que nos torna rastreáveis e mobilizáveis a todo momento.”

Tai Nalon:
E isso que ele está falando só dos celulares. Nos últimos anos, a experiência humana foi sendo cada vez mais metrificada por aparelhos como relógios, sensores de movimento, GPS. E as emoções também podem ser medidas. Essas empresas têm indicadores de como os seus usuários se sentem e por quê.

Curtidas, compartilhamentos, emojis, palmas e corações são recursos que qualificam o valor dado pelo usuário a cada informação que trafega por essas plataformas. O acúmulo dessas interações deixa um rastro digital que permite que as plataformas entendam quais são as afinidades e as objeções de cada um.

O engajamento é um conceito importante para entender como funciona a dinâmica das redes e como essa dinâmica gera desinformação. As plataformas exploram vieses cognitivos humanos para recompensar os usuários por suas interações. As sensações geradas por essas interações estimulam o indivíduo a continuar postando, comentando, reagindo a outras publicações.

Um estudo conduzido por pesquisadores das universidades Yale e do Sul da Califórnia mostrou que a necessidade de alimentar esse reforço cognitivo pode levar usuários a recorrerem à desinformação.

Os pesquisadores apontaram que usuários frequentes de redes sociais tinham uma tendência maior a compartilhar conteúdos falsos em troca de recompensas geradas pelas interações. Essas mentiras nem sempre estavam relacionadas às suas opiniões políticas.

Ou seja, a desinformação não é acidental ou uma consequência natural de quando milhões de pessoas se juntam numa plataforma. Na verdade, é possível conviver num mesmo espaço com a desinformação intencional, plantada nas redes por um marqueteiro político, e com a desinformação por convicção ou ignorância.

E porque as interfaces das plataformas organizam as informações de modo a parecer que todos têm o mesmo espaço e autoridade para falar de determinados assuntos, e pelo fato de elas não promoverem a curadoria e o controle editorial daquilo que é publicado nas suas dependências, e porque as plataformas falham em moderar conteúdo e demonstrar claramente o que é uma informação falsa ou não, enganadores profissionais e golpistas fazem a festa e instrumentalizam algoritmos e timelines para fazer valer a sua versão dos fatos. Mesmo que seja mentira.

Ou seja, enquanto políticos e profissionais mal intencionados planejam distorcer a realidade com método e objetivo, alguns eleitores ajudam na missão por certeza de que aquilo é verdade ou a sensação de ultraje derivada da impotência de saber que algo não o agrada.

A consequência disso não é só criar um ambiente onde verdade e mentira coexistem, porque a ideia de liberdade de expressão dos donos dessas empresas obriga suas plataformas a sustentarem essa arquitetura. Enquanto grupos são radicalizados e cada vez menos suscetíveis a acreditar no contraditório, o ambiente das redes vira um espaço em que o que é verdadeiro é tão duvidoso quanto uma mentira explícita.

As plataformas criam um ambiente de desconfiança crônica. E isso não é acidental, é um modelo de negócios.

Manifestante:
“Você já ouviu falar de clones, de sósias.”

Entrevistador:
“Negócio do Lula trocado.”

Manifestante:
“É, o Lula foi um caso interessantíssimo, porque tem quatro, cinco imagens dele. Nós, do que eu dizemos que todo o STF já foi substituído por sósias.”

Tai Nalon:
O pesquisador David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, resume bem esse fenômeno:

David Nemer:
“E porque os algoritmos priorizam esse tipo de conteúdo de comoção negativa, né, ansiedade, raiva, medo. Porque como a gente tem maior probabilidade de engajar com esse tipo de conteúdo, ou seja, as plataformas sabem que se continuar engajando com esse tipo de conteúdo, mais tempo a gente passa nessas plataformas. E se mais tempo a gente passa nessas plataformas, os donos dessas plataformas vão falar: ‘olha, meu usuário passa X horas aqui na minha plataforma. Então, se você anunciar aqui, mais chance você vai ter de ser visto por X usuários, que estão passando mais tempo aqui’.”


Capítulo 4: A indústria da mentira

Tai Nalon:
Um estudo de 2022 mostrou que plataformas baseadas em recomendação, como o YouTube, tendem a expor usuários a conteúdos cada vez mais radicais e de teor conspiratório para aumentar o tempo de permanência na rede.

No livro Máquina do Caos, o jornalista Max Fisher parte de entrevistas e estudos científicos para mostrar o efeito das redes na sociedade.

Fischer demonstra que a longa exposição a conteúdos falsos, entregues por algoritmos e perfis com grande afinidade, cria usuários radicalizados.

No longo prazo, ficar exposto a informações que apenas confirmam as suas convicções aumenta a resistência das pessoas ao contraditório.

E, com isso, a combinação de viés de confirmação e das câmaras de eco estimula a radicalização.

Estudos mais recentes apontam que o problema das plataformas não está necessariamente em não dar acesso aos seus usuários ao contraditório. É que eles não se engajam ativamente com esse tipo de conteúdo — ou seja, eles não usam as moedas que valorizam os conteúdos nas redes, como as curtidas e os compartilhamentos.

O que tem valor nas redes é o que provoca engajamento, e há pouca coisa mais inquietante nas redes sociais do que o ultraje.

Max Fisher:
“A radicalização é um processo obsessivo que consome a vida. Os adeptos retornam cada vez mais, sua obsessão vira identidade, as plataformas sociais se transformam no centro de seu cotidiano. E os radicais, guiados pela urgência de suas causas, recrutam mais radicais.”

Tai Nalon:
Isso só é possível pela própria arquitetura das redes sociais.

Falando nisso, lembra da Cambridge Analytica que eu comentei lá atrás? Em dezembro de 2015, o jornal britânico The Guardian revelou que a empresa dava consultoria para o senador americano Ted Cruz a partir da coleta de dados pessoais do Facebook sem o conhecimento dos usuários.

De acordo com a reportagem, Cruz recorreu à Cambridge Analytica devido a uma oferta sem precedentes de dados psicológicos baseados em um verdadeiro tesouro: curtidas no Facebook, o que permitiu atrelar o comportamento de usuários a bases de dados eleitorais já existentes, como, por exemplo, saber quem possuía uma arma.

Cruz viria a perder a campanha pela candidatura republicana nas eleições de 2016 para Donald Trump. Mas a ponte entre o partido e a Cambridge Analytica já estava feita. A empresa, que já estava sob escrutínio no Reino Unido por ter trabalhado com a campanha a favor do Brexit, agora lançava seus tentáculos sobre os Estados Unidos.

Cientista de dados da Cambridge Analytica:
“É errado chamar a Cambridge Analytica de apenas uma empresa de ciência de dados ou de algoritmo. É um serviço total de propaganda. Se você consegue controlar todos os fluxos de informação em torno do seu oponente, você pode influenciar como eles percebem esse espaço de batalha e você pode influenciar como eles vão se comportar e reagir.”

Tai Nalon:
Reportagem do Guardian revelou que a empresa coletou informações de mais de 50 milhões de usuários do Facebook. Essas coletas foram feitas por um aplicativo usado por volta de 2014 para pegar informações de usuários do Facebook a partir de formulários com perguntas sobre comportamento, afinidade e consumo.

Os dados coletados incluíam detalhes sobre a identidade das pessoas — como o nome, a profissão, o local de moradia, os seus gostos, seus hábitos, além da sua rede de contatos. Essas informações foram vendidas pela Cambridge Analytica durante as eleições de 2016.

Eis que nessa equação também aparece o estrategista-chefe da campanha de Trump em 2016. Steve Bannon foi um dos investidores da Cambridge Analytica nos Estados Unidos Unidos e tem vasto repertório na mídia conservadora americana. Atribui-se a ele a guinada à extrema direita dos republicanos, ao adotar uma pauta tão radical que passou a ser impossível deixá-la passar batido, sobretudo em plataformas que operam sob as fórmulas da economia da atenção.

Questionado pelo canal CNN se a coleta de dados afetou o resultado das eleições de Trump, Zuckerberg disse o seguinte:

Mark Zuckerberg:
“É muito difícil pra mim fazer uma avaliação disso. Sabe, a realidade é que, bem, tem tantas forças diferentes na jogada. As postagens orgânicas que as pessoas fizeram, as campanhas de incentivo ao voto que fizemos, as campanhas que ambos os candidatos administraram, os anúncios que eles fizeram.”

Tai Nalon:
E, de fato, até hoje não é possível atestar a dimensão da influência da venda desses dados no desfecho das eleições americanas. No entanto, esse escândalo revelou como a compra e a venda de dados de usuários operava e como a propaganda podia ser segmentada de tal forma que se criou uma cultura de reforço positivo das ideias pré-concebidas de determinados grupos sociais, mesmo que fossem ideias baseadas em premissas mentirosas.

Não é que a Cambridge Analytica tenha descoberto como transformar curtidas no Facebook em votos na vida real. O episódio revelou que o engajamento nas redes sociais em eventos críticos, como eleições, é vulnerável a campanhas de desinformação direcionadas, criando divisão e horror a quem é diferente.

Ficou claro como as plataformas estavam operando: pelo ultraje permanente e rumo à radicalização. O que na ponta começou como uma estratégia direcionada a atacar a campanha democrata virou o embrião do que na origem se entendia por fake news.

A Cambridge Analytica contratou um publieditorial no site Politico, nos Estados Unidos, que tinha um formato parecido com o de uma reportagem especial sobre a Fundação Clinton. Ou seja, parecia jornalismo, mas era propaganda. Uma notícia falsa.

O especial fazia acusações de corrupção contra a candidata democrata sem mostrar evidências. Essas acusações foram repetidas exaustivamente ao longo da campanha de 2016.

O que a campanha trumpista queria era associar a ideia de que Hillary, que já tinha sido senadora e secretária de Estado, fazia parte do establishment, enquanto ele não.

Mas, no fim das contas, não é como se uns poucos homens — o Steve Bannon, os executivos da Cambridge Analytica, os políticos beneficiados — fossem grandes gênios da engenharia social. As ações deles foram muito bem calculadas, mas não teriam sido possíveis sem que as redes tivessem sido arquitetadas como foram. E não dá nem para falar que eles se aproveitaram de uma falha, porque as redes foram criadas para serem desse jeito mesmo. Como dizem no Vale do Silício, não é uma falha, é um recurso.

David Nemer:
“É claro que é difícil falar com detalhes como os algoritmos funcionam hoje, porque essas plataformas também estão o tempo todo testando novas formas de promover engajamento. E o poder computacional e a quantidade de dados que conseguem refinar esses algoritmos, é possível também ter diversos algoritmos dentro de uma só plataforma para fazer testes específicos com certos perfis, com certas formas de engajar com os posts.”

Tai Nalon:
E a questão que fica é: para quem você está cedendo o poder de decisão sobre aquilo que você consome nas suas redes sociais? Não é nem nunca foi algo construído pelo próprio usuário de modo autônomo.

David Nemer:
“Isso é interessante porque mostra uma mudança de paradigma das plataformas, no sentido em que antes elas eram extremamente relacionais, ou seja, elas dependiam das relações das pessoas para que um conteúdo fosse curado para você. Ou seja, quem que você seguia nas redes, no Instagram, a pessoa não precisa de seguir de volta, como no Twitter, mas no Facebook era quem você era amigo, ou seja, quem as conexões eram confirmadas.

Hoje em dia você não precisa mais das conexões, das relações, para definir a sua experiência no mundo digital. Começou assim com o TikTok, né? Você não precisa seguir ninguém para o TikTok te entregar conteúdo. E hoje o Instagram copia esse modelo do TikTok, né? Imita esse modelo e começa a entregar conteúdo sem que haja necessidade de você seguir ou não as pessoas.”


Capítulo 5: O projeto de poder do Vale do Silício

Tai Nalon:
O escândalo da Cambridge Analytica foi uma mudança de paradigma na relação das plataformas com a política.

Noticiário:
“O Facebook realizou uma reunião de crise hoje”
“Hoje as ações do Facebook despencaram. A empresa de dados Cambrigde Analytica secretamente colhia informações pessoais.”

“Eles estão no centro de vários escândalos recentes, incluindo um que pode ter comprometido os dados pessoais da maioria dos usuários do Facebook.”

Tai Nalon:
Mais do que o dano reputacional por criar ferramentas que facilitavam a distribuição de mentiras e incentivavam o extremismo, as empresas ficaram preocupadas com seus bolsos.

Em 2019, o Facebook foi condenado pela FTC, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos, a pagar uma multa de US$ 5 bilhões por violar a privacidade dos seus usuários. Era, até aquele momento, a maior multa já imposta a uma empresa de tecnologia.

Naquela época, vários países, incluindo o Brasil, estavam criando suas próprias leis de governança de dados, o que impunha às plataformas um cuidado sem precedente com os direitos dos usuários.

Só que nesse caso em específico, o ambiente regulatório dos Estados Unidos estava bem mais agressivo do que o costume.

A FTC também determinou que o Facebook criasse instâncias independentes de controle para supervisionar como os dados dos usuários eram tratados. O objetivo era mudar a cultura organizacional da empresa.

De fato, foi nesse momento que departamentos que cuidavam da integridade da informação que circulava nas plataformas foram ampliados nas grandes empresas de tecnologia. Foi também nesse momento que essas empresas começaram a se relacionar de maneira mais próxima com a política.

O objetivo era estreitar laços que as livrariam de serem recorrentemente punidas em várias jurisdições pelo mundo. Afinal, há sempre um país ou outro que poderia tentar reproduzir durante as eleições aquilo que havia acontecido em 2016 nos Estados Unidos.

Em 2018, o discurso era o seguinte:

Mark Zuckerberg:
“Senador, o mais importante que eu me preocupo no momento é que ninguém interfira nas várias eleições de 2018 pelo mundo. Nós temos uma importante eleição de meio de mandato nos Estados Unidos. Nós temos importantes eleições na Índia, no Brasil, México, Paquistão, Hungria chegando. E nós vamos tomar várias medidas, desde a criação e desenvolvimento de ferramentas de IA que derrubam fake news, até aumentar a nossa equipe de segurança para mais de 20 mil pessoas, para garantir que a gente verifique todo anunciante que faça anúncio político e sobre questões sociais.”

Tai Nalon:
Pois é, no Brasil dos anos 2010, o sistema político e alguns grupos que tentaram subvertê-lo também exploraram a vulnerabilidade das redes sociais. No próximo episódio, vamos trazer toda essa discussão para o Brasil.

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